O designer, um equilibrista profissional

A difícil habilidade de resolver a novidade de cada caso e, por sua vez, respeitar os códigos da comunicação para que a mensagem seja compreendida.

Retrato de Ra√ļl Belluccia Ra√ļl Belluccia Buenos Aires

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Sempre que alguém solicita um trabalho a um designer gráfico é porque precisa de uma peça nova de comunicação, ou porque pretende melhorar alguma que já possui. O designer sempre introduz algo novo, em pouca ou muita quantidade, segundo faça falta, por isso acaba sendo visto ( e acaba vendo a si mesmo) como a inovação personificada.

A comunica√ß√£o p√Ķem seus limites

Todas as pe√ßas de comunica√ß√£o pertencem a um tipo ou g√™nero existente e reconhecido socialmente. Por exemplo, √© poss√≠vel identificar as esp√©cies ¬ęcaixa de medicamentos¬Ľ ou ¬ęcaixa de chocolate¬Ľ como pertencentes a um conjunto ou g√™nero maior: ¬ęas caixas de produto¬Ľ. E este grupo, por sua vez, como integrante da grande fam√≠lia das ¬ęembalagens¬Ľ. Esses tipos e subtipos vem se formando ao longo do tempo, alguns com maior nitidez que outros, e resulta praticamente imposs√≠vel encontrar casos de pe√ßas de comunica√ß√£o desclassificadas (quero dizer, que n√£o pertencem a nenhum tipo conhecido).

Assim encontramos os folhetos promocionais, os manuais de instru√ß√£o, as marcas comerciais, as etiquetas de licores, as revistas infantis, os sites da web de agencias de viagens, as placas de sinaliza√ß√£o, as planilhas e formul√°rios, as faturas dos servi√ßos p√ļblicos, as revistas desportivas, os programas de cinema, os programas de concertos, as embalagens de guloseimas de alta qualidade, e centenas de outras esp√©cies gr√°ficas. Ao ler a lista, fica f√°cil encontrar cada tipo. E por qu√™? Porque cada uma tem caracter√≠sticas comuns que atuam como um modo de c√≥digo ou conven√ß√£o.

S√£o v√°rias as recorr√™ncias que nos permitem reconhecer cada esp√©cie gr√°fica: o tipo de imagens e desenhos, os enquadramentos, a sele√ß√£o de tipografias e a maneira de organiza√ß√£o do plano, o manejo dos brancos, das cores e at√© a materialidade, formas, dimens√Ķes e qualidade dos suportes, entre outras.

Gra√ßas as recorr√™ncias que foram convencionadas podemos diferenci√°-las √† dist√Ęncia, por exemplo, as latas de cerveja das latas de refrigerante; ou distinguir um folheto institucional de um promocional; ou uma revista de um jornal; ou um cartaz de denuncia social de um de ballet cl√°ssico ¬ęsomente em v√™-los¬Ľ (ou seja sem chegar a ler sua informa√ß√£o).

Tem-se que estar atento j√° que os estilos gr√°ficos que identificam a cada g√™nero est√£o sempre mudando, ainda que quase sempre com lentid√£o (hoje em dia qualquer pessoa que veja um cartaz da Toulouse Lautec diria que ¬ęisso¬Ľ √© um cartaz, ainda que n√£o saiba que foi feito √† cento e vinte anos). Em outras √°reas as ondas de mudan√ßa s√£o mais curtas.

Se bem que h√° casos dif√≠cil de classificar, o designer deve ser esperto em reconhecer os tipos e os g√™neros, e em detectar os c√≥digos estil√≠sticos e as particularidades de cada um, j√° que dificilmente lhe tocar√° um trabalho que n√£o se encaixe em alguma classe gr√°fica pr√©-existente. N√£o conhe√ßo nenhum caso em que seja conveniente reorientar ao p√ļblico alterando os c√≥digos do g√™nero, podendo induzi-lo a um erro, ou dificultar o trabalho de compreender a mensagem.

Destino de equilibrista

Na grande maioria dos casos, o designer gr√°fico se enfrenta com um desafio duplo e de sentido oposto, que constitui, talvez, a maior dificuldade desta profiss√£o:

  1. Por um lado deve respeitar os c√≥digos do g√™nero do que est√° projetando (n√£o conv√©m que uma caixa de chocolate seja confundida com uma caixa de l√°pis, ou que o site web de um orquestra de musica barroca seja confundida com o de uma orquestra de jazz, ou com de um circo; e falando em detalhes menores n√£o dever√° projetar o site web de um circo cl√°ssico como parecendo um circo contempor√Ęneo).

  2. E por outro lado est√° obrigado a projetar um caso que, como todo caso de design, tenha demandas e necessidades pr√≥prias e n√£o repetidas. Deve projetar ¬ęesta¬Ľ caixa de chocolates, para um chocolate que tem ¬ęeste¬Ľ posicionamento diferenciado, ¬ęeste¬Ľ pre√ßo, ¬ęesta¬Ľ qualidade, ¬ęeste¬Ľ nome, para ¬ęeste¬Ľ cliente, que tem ¬ęestes¬Ľ concorrentes, para ¬ęestes¬Ľ p√ļblicos que vivem ¬ęnestes¬Ľ pa√≠ses; deve projetar, em s√≠ntese, situa√ß√Ķes particulares.

Provavelmente, esta dupla demanda de equil√≠brio entre o gen√©rico e o particular ‚Äď as vezes pr√≥ximo da esquizofrenia -, tem tamb√©m o m√ļsico que quer fazer uma nova composi√ß√£o. Como pode se notar, na frase ¬ęnova composi√ß√£o¬Ľ se encerra toda uma contradi√ß√£o que desafia a atividade criativa: compor algo que se reconhe√ßa como m√ļsica e que seja diferente das demais composi√ß√Ķes. A mesma contradi√ß√£o aparente √© apresentada ao profissional que tem que projetar uma ¬ęnova marca¬Ľ, uma ¬ęnova embalagem para chocolates¬Ľ ou uma ¬ęnova revista para uma organiza√ß√£o p√ļblica¬Ľ.

Projetar √© dif√≠cil porque sempre h√° que combinar positivamente as necessidades divergentes. √Č como um equilibrista que maneja uma grande vara para n√£o cair da corda nem para uma lado nem para o outro, j√° que caia onde cair o impacto ser√° igualmente doloroso. Ai!

Traduzido por Bernardo Henrique Novo Hamburgo

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Ra√ļl Belluccia

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Retrato de Marcela Natalia Arango Pinzon
1
Marcela Natalia Arango Pinzon
Ago 2015

Buen d√≠a, primero quisiera agradecer por tan buen aporte al dise√Īo y segundo solicitar muy cordialmente la posibilidad de divulgar este u otro articulo en nuestra revista "LOGOS" revista de √≠ndole acad√©mica. Comparto con usted los links con mayor informacion esperando una pronta respuesta.

Muchas Gracias

https://www.uniboyaca.edu.co/e...

0
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Retrato de Felipe Viaro
0
Felipe Viaro
Ago 2015

Muito bom Ra√ļl.

Achei muito esclarescedor enfatizar que antes mesmo de come√ßar a projetar j√° temos uma s√©rie de requisitos e restri√ß√Ķes impostas pelo tipo de formato que iremos trabalhar. Na √°rea do design visual percebo que as coisas n√£o s√£o t√£o bem-definidas como na √°rea do design de produto. Por isso, acho importante pontuarmos os limites de cada tipo de projeto.

Abraço

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