O que fazem os designers quando desenham?

Os designers exercem uma profissão cujos resultados são indispensáveis para a planificação industrial dos artefatos

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Uma pergunta que volta e torna a voltar

A pergunta ¬ęo que √© o design?¬Ľ parece nunca ter resposta e volta sempre, como a carga de consci√™ncia, cada vez que o pensamento lhe deixa un espa√ßo.

Quando muitos dos designers tem de classificar a sua obra, parece existir uma esp√©cie de intranquilidade, ang√ļstia ou insatisfa√ß√£o espiritual: parece que uma descri√ß√£o objetiva da tarefa de projetar n√£o √© suficiente, sentindo a necessidade de anexar √† ess√™ncia da atividade uns difusos fins √©ticos, uns compromissos sociais nunca definidos ou mesmo uma ¬ęfun√ß√£o¬Ľ art√≠stica que o ¬ędesign¬Ľ e os ¬ędesigners¬Ľ deveriam ter inscritos no seu ADN.

(Felizmente, para alívio profissional dos próprios designers, esta não é uma questão de princípios).

A realidade, para começar

A defini√ß√£o de uma tarefa socialmente alargada tem de ser retirada da realidade e n√£o apenas de desejos. Ent√£o, basicamente, o ¬ędesign¬Ľ √© o que fazem os ¬ędesigners¬Ľ, quando ¬ędesenham¬Ľ.

Se o pensamento, num esfor√ßo para compreender a realidade sem a confundir com os seus sentimentos ou desejos, observa quem trabalha, verificar√° que h√° um grande n√ļmero de indiv√≠duos, principalmente nas grandes cidades, que se auto-intitulam de ¬ędesigners¬Ľ e ganham a vida a ¬ędesenhar¬Ľ coisas que outros lhe pedem, geralmente a troco de dinheiro, e a quem esses mesmos outros tamb√©m chamam de ¬ędesigners¬Ľ.

Com estes dados pode-se afirmar que a profiss√£o de designer tem um grau de singularidade e dura√ß√£o temporal suficiente para ter um nome pr√≥prio, e tanto a atividade como os que a exercem ganharam o direito de ser inclu√≠dos no vocabul√°rio normal com palavras diferentes: ¬ędesign¬Ľ e ¬ędesigners¬Ľ.

Note-se tamb√©m que, dentro do conjunto de ¬ędesigners¬Ľ, h√° indiv√≠duos com vis√Ķes pol√≠ticas distintas e condi√ß√Ķes religiosas e econ√īmicas muito diferentes, embora essas diferen√ßas n√£o alterem o seu car√°ter: todos s√£o designers e, como tal, s√£o reconhecidos pelas outras pessoas.

Pode então dizer-se que nem o design nem quem o faz, se constitui como um fenómeno marginal ou efémero, estando perfeitamente integrados nos mais diversos campos da vida social.

Mas, será que temos o afastamento necessário para vermos isso assim ou devemo-nos aproximar mais para entender, por exemplo, no que consiste e para que serve o design, ou a que é que se dedicam os designers?

Numa abordagem mais pr√≥xima da realidade somos alertados para o facto de que nem todos os designers fazem a mesma coisa, e que, sob o guarda-chuva comum do ¬ędesign¬Ľ se abrigam profissionais com propens√Ķes t√£o diversas que as suas presta√ß√Ķes n√£o s√£o intercambi√°veis. Como exemplo, um designer de moda n√£o est√° capacitado, nem tem prepara√ß√£o, para desenhar um jornal.

√Č por isso que os designers, nos seus cart√Ķes pessoais, acrescentam a sua especialidade: gr√°fico, industrial, moda, interiores, etc.

Assim, cada grande família do design tem uma área de trabalho específica ou o seu próprio espaço: comunicação visual, produção de artefatos, habitat, persuasão comercial, moda, etc.

Mesmo dentro de cada família existem especialidades muito distintas, cujas semelhanças se reduzem ao mínimo quando comparadas com as diferenças. Se só muito dificilmente um arquiteto especializado em espaços interiores pode, com o mesmo grau de eficiência, desenhar um arranha-céus, que grau de parentesco terão um designer industrial dedicado à ortopedia, um designer de vestuário especializado em trajes para ópera e um designer gráfico dedicado à construção de páginas web?

Como chegar a uma definição de design

Determinar o que h√° de comum na atividade de todos os que trabalham e s√£o socialmente reconhecidos como ¬ędesigners¬Ľ implica dar de caras com a defini√ß√£o de design.

A defini√ß√£o de ¬ędesign¬Ľ vem dar resposta √† pergunta ¬ęquais as semelhan√ßas entre os diferentes tipos de designers quando projetam?¬Ľ, da mesma forma que a defini√ß√£o de ¬ęfelino¬Ľ engloba as semelhan√ßas entre um gato persa e um le√£o.

As grandes divergências

√Ä primeira vista saltam √† evid√™ncia as diferen√ßas, sendo dif√≠cil encontrar aspetos comuns e sobreposi√ß√Ķes num panorama t√£o variado.
Uma definição verdadeira de design não se pode basear:

  • No tipo de produto final, pois desenham-se coisas que v√£o desde mensagens publicit√°rias at√© m√°quina industriais, ou desde roupa interior at√© avi√Ķes.
  • Na finalidade social, pois tanto se pode desenhar um jornal anarquista como um conservador; de autom√≥veis poluentes at√© embalagens ecologicamente irrepreens√≠veis; conceber de roupa sofisticada at√© cadeiras ortop√©dicas; de casas sociais at√© mans√Ķes faustosas; etc.
  • No tipo de contratante, porque tanto se desenha para o estado como para uma empresa privada; para uma petrol√≠fera como para grupos ambientalistas; para uma multinacional como para una pequena cooperativa.
  • No processo de decis√£o. Uma simples observa√ß√£o do trabalho dos designes tr√°s √† evid√™ncia a impossibilidade de descrever um m√©todo comum capaz de garantir solu√ß√Ķes adequadas.

A pequena coincidência

Há, no entanto, algo de comum entre todos eles. Se olharmos atentamente, poderemos verificar no local de trabalho de qualquer designer (quer dizer, onde este desenha) que, antes de passar à fase de prototipagem ou produção, um produto está a ser planificado, seja este produto uma espingarda, uma cadeira, uma casa, um casaco, uma placa de sinalética, um logótipo ou um relógio.

Se tivéssemos com uma espécie de visão que permitisse observar, simultaneamente, todos os designers do mundo nas suas mesas de trabalho, iríamos perceber que todos eles estariam nalgum ponto de um processo que visa definir as características finais de um produto, antes de ser produzido e distribuído, fosse ele um cartaz ou um par de sapatos.

O car√°ter industrial do desenhar

Na nossa sociedade, a maioria dos artefatos que consumimos e usamos revestem-se de um car√°ter de ¬ęproduto industrial¬Ľ. Quer se trate de um folheto para um partido revolucion√°rio, de um cartaz para uma √ďpera, da constru√ß√£o e equipamento de uma cadeia de sucursais de um banco ou de um aparelho de r√°dio, todos s√£o considerados artefatos industriais devido √†s suas carater√≠sticas materiais e simb√≥licas, √†s suas fun√ß√Ķes, aos seus modos de produ√ß√£o, ao n√ļmero de c√≥pias a produzir, aos seus prop√≥sitos (econ√≥micos, culturais, pol√≠ticos, sociais, etc.), √† sua distribui√ß√£o, √†s suas situa√ß√Ķes e condi√ß√Ķes de compra e uso, aos seus pre√ßos e custos, aos seus tempos de vida √ļtil, ao seu grau de novidade e √† oportunidade de lan√ßamento. Todos eles s√£o decididos e planificados com a maior anteced√™ncia e precis√£o poss√≠vel, sendo por isso que a parte do modo industrial de produ√ß√£o e distribui√ß√£o se afasta, definitivamente, da forma artesanal de gerar objetos.

Tamb√©m √© certo que existem, hoje em dia, formas de produ√ß√£o, servi√ßo e comercializa√ß√£o, que n√£o podem ser apelidados, a n√£o ser de forma muito indireta (pequenos neg√≥cios em que o seu dono √© o interface com o p√ļblico, artes√£os e t√©cnicos que trabalham de uma forma muito pessoal, etc.), de industriais.

O merceeiro do bairro que fornece umas dezenas de vizinhos com os produtos que traz do mercado, n√£o necessita de design, pelo que projetar-lhe um ¬ęlogo¬Ľ seria absolutamente sup√©rfluo pois implicaria dot√°-lo de signos que v√£o para al√©m das suas necessidades e identidade.

No caso dessa mercearia necessitar de uma placa identificadora, deve ser o próprio merceeiro a pintá-lo ou então alguém da zona que pinte letreiros, podendo este, caso seja experiente, desenhar umas letras que combinem, em absoluto, com o negócio e escala do mesmo.

No entanto, se este merceeiro, por qualquer ironia do destino conseguir juntar recursos suficientes para montar uma cadeia de supermercados que atendem a milhares de compradores na cidade e, em seguida, a expandir para todo o país, deve recorrer com urgência ao design pois não lhe servirá qualquer nome, logótipo, cor identificadora, desenho do espaço de venda, etc., etc. O nosso amigo merceeiro defrontou-se com um problema tipicamente industrial e necessita, obrigatoriamente, planificar os detalhes comunicacionais e simbólicos do seu negócio.

Todo o produto industrial (e, no caso, √© indiferente que se trate da comunica√ß√£o p√ļblica de um museu ou de arquitetura de uma cadeia de fast food) √© o resultado de uma s√©rie de decis√Ķes determinadas pelo contexto, onde as liga√ß√Ķes carecem de independ√™ncia absoluta e a sua autonomia √© sempre relativa. E o design √© uma daquelas liga√ß√Ķes produtivas.

A definição estrita

O design é um serviço prestado a terceiros cuja especialidade consiste em determinar, antes da realização, as características finais e o modo de produção de um artefato, para que cumpra com uma série de requisitos pré-determinados: funcionais, formais, estéticos, simbólicos, informativos, identificadores, materiais, ergonómicos, persuasivos, económicos, etc.

Na definição do ato de fazer design não é possível ir muito mais além, porque tudo o que for para além disto implica sair daquilo que é comum ao ato para entrar no específico de cada ramo ou família do design.

Dito de outra forma, entre um designer de capas de livros para crian√ßas e um designer de armas de fogo, se excluirmos o que √© comum enunciado anteriormente, tudo s√£o diferen√ßas. Distinguem-se as t√©cnicas aplicadas, as fun√ß√Ķes do produto, as capacidades e conhecimentos necess√°rios para resolver o objeto, a forma de apresenta√ß√£o e prot√≥tipos ou maquetas, o tipo de cliente, os fins sociais, o car√°ter ou classe da criatividade aplicada, os aspetos materiais, simb√≥licos e estil√≠sticos do produto final, os honor√°rios, etc. No entanto, ambos fazem design.

√Č evidente que, para realizar o seu trabalho, cada tipo de designer deve possuir conhecimentos particulares e diferentes, assim como uma capacidade criativa adequada √† sua especializa√ß√£o.

Quando do projeto de uma nova c√Ęmara fotogr√°fica, interv√©m, seguramente, entre outros, o engenheiro eletr√≥nico, o √≥ptico, o fot√≥grafo experiente, o designer industrial, o designer gr√°fico e o publicit√°rio, sendo que cada um deles o faz na sua √°rea de especializa√ß√£o. Ainda que cada um projete coisas t√£o distintas como os circuitos e mecanismos, a forma exterior, as fun√ß√Ķes e sequ√™ncias, a embalagem, o log√≥tipo e as campanhas publicit√°rias, se olharmos para o fen√≥meno a partir de um ponto de vista mais geral, todos prestam o mesmo servi√ßo, inevit√°vel no atual modelo de produ√ß√£o da sociedade: planeamento antecipado e completo de um produto ou uma particularidade do mesmo.

Como √© poss√≠vel ver, a defini√ß√£o do trabalho dos designers √© muito semelhante √† da dos engenheiros. Se alguma diferen√ßa pode ser estabelecida, nos dias de hoje, entre ambos, esta ser√° a import√Ęncia que os aspetos simb√≥licos, est√©ticos, persuasivos e comunicacionais adquirem na tarefa dos designers.

Par√°grafo final

Apesar de tudo, esta definição baseada na evidência quotidiana nem sempre satisfaz, havendo muitos insistem em definir o design em função dos seus desejos e não da realidade.

Os objetivos do trabalho s√£o definidos por quem o encomenda, elemento sempre externo ao designer (embora excepcionalmente possam coincidir na mesma pessoa, as duas tarefas ‚Äď encomendar e projetar ‚Äď s√£o essencialmente diferentes). O cliente tem seus pr√≥prios objetivos, e esses objetivos podem ser o consumo, a guerra ou a greve geral.

A tarefa do designer , ao aceitar um trabalho, é oferecer os seus serviços com a maior eficiência profissional possível para satisfazer o cliente. Se não estiver disposto a fazê-lo tem sempre a alternativa de recusar a encomenda.

Deve-se também deixar claro que o facto de aceitar uma encomenda de trabalho não obriga o designer a identificar-se com os fins de quem a fez.

O perfil do design na sociedade est√° condicionado pelo perfil de quem o solicita. Determinar o que se desenha, para que se desenha e que conte√ļdos transmitem os objetos que se desenham, n√£o √© responsabilidade dos designers.

Esta determina√ß√£o externa dos objetivos dos of√≠cios e profiss√Ķes n√£o √© um problema exclusivo dos designers. Os m√©dicos devem sentir-se culpados pelo estado da sa√ļde p√ļblica, os professores pelo analfabetismo ou os engenheiros pela manuten√ß√£o das estradas e pontes? O d√©ficit de casas pode ser atribu√≠do √† falta de sensibilidade social dos arquitetos? Os entraves ser√£o, com certeza, outros.

Para que um designer intervenha na planificação de produtos para o bem comum, é necessária uma condição prévia: a existência de algum agente social cuja finalidade seja o bem comum (e que, para além disso, necessite de design para atingir os seus objetivos).

Sem encomendas externas, o design perde toda a razão de ser pois necessita de uma plataforma própria.

Este simples enunciado comprova-se de forma empírica: todo o designer sabe que para poder comer (e fazer design) necessita conseguir clientes.

Retrato de Ra√ļl Belluccia Ra√ļl Belluccia Buenos Aires Seguidores: 772

TraduçãoAlvaro Sousa V N Gaia Seguidores: 14

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