Pessoas ficam mais criativas em ambientes criativos

Aprender tornou-se uma tarefa permanente. As atitudes e os ambientes devem se transformar para facilitar o aprendizado.

Retrato de Rique Nitzsche Rique Nitzsche Rio de Janeiro

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¬ęCausa e efeito n√£o est√£o pr√≥ximos no tempo e no espa√ßo¬Ľ.¬†Peter M. Senge, A Quinta Disciplina, 1990.

Acreditamos em contos de fada. Como crian√ßas, os administradores privados e p√ļblicos insistem em solu√ß√Ķes a curto prazo. Fomos educados ouvindo e assistindo hist√≥rias nas quais as trag√©dias acontecem no curto pr√≥logo e as solu√ß√Ķes her√≥icas resolvem-se antes do ep√≠logo no qual os protagonistas terminam felizes para sempre. Quando adultos, com a responsabilidade de gerenciar processos, continuamos a pensar que causa e efeito est√£o pr√≥ximos, como em um conto de fadas.

A vida contempor√Ęnea √© extremamente mais complexa do que as hist√≥rias infantis que continuamos a repetir para nossos filhos. As planejadas linhas de produ√ß√£o da era industrial n√£o resolvem os problemas complexos da era do conhecimento. As recentes certezas est√£o evaporando cada vez mais rapidamente. Os complexos algoritmos tamb√©m n√£o resolvem a profunda desordem da economia mundial. A √ļnica certeza √© a imprevisibilidade acelerada das mudan√ßas. Ou nos preparamos para uma adapta√ß√£o r√°pida √†s transforma√ß√Ķes, ou ficaremos parados √† beira desse tempo vol√°til.

Como professor de design thinking, uma disciplina que está sendo testada na ESPM-Rio desde 2010, fico entusiasmado quando vejo que as características do design thinking estão sendo aplicadas em outros lugares. Design thinking é uma metodologia pragmática e colaborativa, completamente aberta às novas ideias e experiências, mas principalmente baseada em prototipagens rápidas e iterativas. A pesquisadora Michele Rusk identificou algumas características pessoais comuns atribuídas aos design thinkers, tais como ampla curiosidade, habilidade para empregar conhecimento tático, habilidade para desenvolver percepção consciente e lampejo estimulante, habilidade para entender problemas complexos e identificar as causas mais profundas dos problemas, habilidade para antecipar e visualizar cenários, habilidade para inventar ideias e sínteses e habilidade para solucionar problemas. Rusk diz que criatividade é o pensar, que inovação e design são o fazer. Os design thinkers, teriam a habilidade crucial de trocar o estilo de pensamento divergente para convergente e, quando necessário, suspender qualquer julgamento que atrapalhe o processo.

Já escutamos diversas vezes a ideia de que precisamos ensinar os alunos a pensar. Precisamos fazer muito mais do que isso. Ensinar é diferente de aprender. Embora estejam na mesma frase, no mesmo cenário, existe uma ponte entre os dois verbos com um tráfego em sentido opostos. Os ambientes de ensino foram projetados para ensinar, não para aprender. Precisa-se criar um ambiente propício à adaptação, à transformação, à mudança inevitável dos modelos de negócios e do próprio ensino. Ambiente no qual possamos testar novas formas de ensinar aprendendo ao mesmo tempo, compartilhando experiências, convergindo tendências. Esse pensamento me leva à experiência bem sucedida da Bauhaus, a escola de design que ensinava aprendendo, onde professores e alunos pensavam fazendo.

No √ļltimo encontro de Steve Jobs com Bill Gates, em 2011, os dois conversaram sobre como seriam as escolas do futuro. Gates acreditava que os alunos assistiriam √†s aulas ou li√ß√Ķes por conta pr√≥pria atrav√©s de v√≠deos. O tempo em classe seria para debates e resolu√ß√Ķes de problemas, que seria um pensar coletivo. Por√©m, ambos concordaram que o impacto da tecnologia digital nas escolas ainda era decepcionante. A educa√ß√£o resiste em mudar, em investir em motiva√ß√Ķes emocionais para cativar os alunos. O mundo educacional demanda por mais conex√£o e relacionamento, onde o professor deveria ser um facilitador de trocas de experi√™ncias. Talvez por isso os dois tenham abandonado a universidade no primeiro ano, √† procura de uma experi√™ncia mais pr√°tica, mais aut√™ntica, mais relacionada com vida real.

Diversas experi√™ncias educacionais est√£o sendo feitas pelo mundo. O ingl√™s Geoff Mulgan √© o diretor da Young Foundation, um centro para inova√ß√£o em empreendimentos sociais e pol√≠ticas p√ļblicas. A equipe de Mulgan investigou jovens, pais, professores, empregadores e os respons√°veis pelas disciplinas das escolas, tanto na Inglaterra como em outros pa√≠ses. Eles entenderam que precisavam atuar tamb√©m atrav√©s das habilidades n√£o cognitivas dos alunos, al√©m de incentivar sua motiva√ß√£o e resili√™ncia. O formato das Studio Schools surgiu em homenagem aos est√ļdios da Renascen√ßa, onde o trabalho e o aprendizado estavam integrados. As escolas s√£o pequenas, com um curr√≠culo radicalmente baseado em trabalhos pr√°ticos e reais para empresas e ONGs. A ideia principal era a de aprender-fazendo, em grupos colaborativos e em processos vinculados ao mundo real. Exatamente como a Bauhaus fazia, ou como os cursos de design thinking fazem.

Daniel Pink, autor de A Whole New Mind, acredita que estamos na Era Conceitual, na qual precisamos complementar a atividade cerebral com aptid√Ķes essenciais. Para ele, a primeira dessas aptid√Ķes √© o design. Pink cita o exemplo de uma escola para alunos do ensino m√©dio que moram nos bairros turbulentos da Philadelphia:

¬ęBem-vindos √† CHAD, Charter Hight School for Architecture and Design, uma escola p√ļblica que est√° demonstrando o poder de expans√£o da mente dos jovens proporcionado pelo design, ao mesmo tempo que desfaz o mito de que seja uma atividade para uma minoria¬Ľ.

Os adolescentes da escola nunca tinham tido aulas de educação artísticas, somente 1/3 aprendeu a ler e teve aulas de matemática na segunda série do ensino fundamental, 3/4 são afro-americanos e 88% pertencem a minorias. Mas, se seguirem a trillha dos outros alunos anteriores, 80% irão fazer cursos superiores de dois ou quatro anos de duração.

Outro exemplo √© o da designer Emily Pilloton que mudou-se para a √°rea rural de Bertie County, uma pequena cidade de 20 mil habitantes, a mais pobre da Carolina do Norte. Pilloton optou por participar de um audacioso experimento de transforma√ß√£o da comunidade, liderada pelo design. Junto com seu parceiro Matthew Miller come√ßaram introduzindo o design na educa√ß√£o p√ļblica, mas sua atua√ß√£o se expandiu para a comunidade que tinha uma extrema necessidade de conex√£o em uma nova perspectiva de futuro. A educa√ß√£o se transformou em um enorme ve√≠culo criativo para o desenvolvimento da comunidade. Assim, o sistema escolar est√° se tornando um catalizador de uma comunidade mais integrada e conectada. Sua inten√ß√£o √© ensinar design thinking para a garotada, com o objetivo de aumentar o capital criativo da comunidade dessa gera√ß√£o. Design thinking seria um ant√≠doto contra a chatice e rigidez da educa√ß√£o tradicional, porque ele √© pr√°tico, participativo e interativo. Assim, de um recurso at√© ent√£o inexplorado, a juventude se transforma em um valor para a sociedade, projetando um novo futuro. ¬†

Existe muita gente sinalizando a necessidade de uma mudança mais radical na experiência do aprendizado. Assim como existem experiências apontando a metodologia do design como uma oportunidade possível e pragmática. Não adianta mais entender que se precisa ensinar os alunos a pensar. Todos os dias assistimos no noticiário algo que afeta diretamente o nosso negócio ou a nossa vida e que não havíamos previsto. Precisa-se ensinar os alunos a pensar de maneira ágil e adaptável. Precisa-se aprender a surfar sobre as mudanças que vêm em ondas.

O adulto, motivado por necessidade e interesse, quer assumir o controle do seu aprendizado, n√£o encerrado em ambientes disciplinares, mas em atividades colaborativas abertas. As pessoas adultas s√≥ aprendem o que querem aprender, o que faz sentido para seu pr√≥prio interesse e seu crescimento. Esse pensamento se aplica √†s empresas ou √† qualquer grupo de pessoas. Peter Senge dizia que as organiza√ß√Ķes deveriam criar ambientes para que o conhecimento tenha cada vez mais espa√ßo para se desenvolver atrav√©s de equipes colaborativas para estabelecer um objetivo comum, para alcan√ßar um futuro melhor. Ele tamb√©m falou sobre os problemas atuais, que n√£o podem ser resolvidos sem uma mudan√ßa radical na forma de pensar, agir e de aprender.

Minha experi√™ncia como profissional e educador de adultos mostrou que a metodologia do design thinking pode ser um poderoso processo estrat√©gico de transforma√ß√£o de marcas, neg√≥cios, empresas e pessoas. O design thinking vem sendo aplicado no desenvolvimento de produtos ou servi√ßos, no ensino de administradores estrat√©gicos, na administra√ß√£o p√ļblica e na melhoria dos processos da sustentabilidade. Entendo que Eduard Lindeman tinha raz√£o quando dizia que a experi√™ncia √© a fonte mais rica para a aprendizagem do adulto, seu recurso mais valioso. O aprendizado deve estar alinhado com a pr√≥pria vida dos alunos, com as suas necessidades e motiva√ß√Ķes.

Como o conhecimento fica cada vez mais disponível para todos, a mudança deve estar em como fazer com que a informação possa ser absorvida pelas pessoas, conquistando significado e valor mais permanente para elas. Na minha opinião, isso pode começar pelo redesenho físico das próprias escolas de negócios. As salas de aulas, assim como os ambientes de trabalho, precisam se adaptar à mudança que já aconteceu na mente e na vida diária das pessoas. Pode-se projetar um ambiente multifuncional mais tolerante à nova tecnologia mutante, mais flexível para atender às inevitáveis futuras mudanças.

Paulo Reis, meu parceiro de jornada educacional, e eu acreditamos em construir processos educacionais com mais de um facilitador em sala. Tivemos uma turma do curso de design thinking que conseguiu projetar, em um intenso processo colaborativo e interdisciplinar, um ambiente mais adequado ao aprendizado criativo. Nosso desafio inicial foi: ‚ÄĒ Onde voc√™s gostariam de aprender? A partir disso, os pr√≥prios alunos desenvolveram um projeto que foi apresentado √† diretoria da ESPM do Rio de Janeiro. O conceito dos ambientes mais flex√≠veis, iluminados e coloridos, com uma sala de estar anexada, seduziu a diretora Fl√°via Flam√≠nio. O conceito foi adaptado √† realidade da reforma do pr√©dio da p√≥s-gradua√ß√£o no Rio. O arquiteto respons√°vel aderiu com entusiasmo ao processo e o s√©timo andar do pr√©dio j√° est√° pronto para abrigar novas experi√™ncias educacionais. Fizeram-se algumas prototipagens para experimentar o Andar do Design Thinking e todos os participantes ficaram entusiasmados com ¬ęa sala divertida¬Ľ que pode servir de incentivo a qualquer disciplina.

Em todas as experiências citadas existem atributos em comum, como o bom humor, emoção intensa e a prática explícita e coletiva do design. Além disso, o aproveitamento sinérgico da criatividade humana. Costumo dizer que o design thinking é solidário e não solitário.

¬ęCriar, de fato, significa iluminar aquilo que antes estava escuro, dar forma √†quilo que antes era ca√≥tico, gerar aquilo que nunca antes havia sido criado nem gerado, antecipar o futuro, produzir o porvir¬Ľ.

São palavras de Domenico de Masi. Ele acredita, como muitos, que nunca foi tão necessário estar consciente para efetuar as mudanças necessárias da sociedade. Nunca antes na história foi tão necessária a criatividade. Masi também acredita que a criatividade é doadora de sentido, de vida, de paz, de força.

Criatividade costuma ser  alegre. Os criativos sabem disso. Criatividade, mesmo rebelde e impertinente, é surpreendente, universal e se comunica com qualquer pessoa. Para mim, o mistério da criação é uma tarefa que se pode ensinar e compartilhar. Eu sou otimista e acredito que podemos criar uma cultura educacional muito mais criativa.

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Rique Nitzsche

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Retrato de Alan Neves
1
Alan Neves
May 2012

Muito bom o artigo, parabéns professor Rique.

Essa troca de ideias, emo√ß√Ķes, criatividade e entusiasmo na busca do conhecimento √© muito enriquecedora e produtiva tanto para o aluno quanto para o professor. Principalmente nas escolas de deisgn, com ambientes prop√≠cios ao processo criativo.

0
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Retrato de Lucilia Alencastro Brancalua
0
Lucilia Alencastro Brancalua
May 2012

Parabéns Professor Rique.

Concordo 100%!

Também sou otimista quanto ao que é possível fazer, porém pessimista quando penso nas enormes montanhas burocráticas que devemos mover até chegarmos onde queremos.

0
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Retrato de Marcio Duarte
7
Marcio Duarte
May 2012

Muito bom o artigo! Concordo que quando há estímulos criativos a mente se liberta de pré conceitos, tornando o processo criativo bem mais produtivo.

0
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