A consciência e o design

Consci√™ncia e design s√£o t√£o dispon√≠veis que s√≥ os percebemos quando nos surpreendem, pela falta ou pela exuber√Ęncia.

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¬ęOlhamos para a consci√™ncia como coisa garantida por que √© t√£o dispon√≠vel, por ser t√£o simples de usar, t√£o elegante nos seus aparecimentos e desaparecimentos di√°rios¬Ľ.

No primeiro capítulo do Livro da Consciência,1 de António Damásio, existe essa declaração sobre a consciência que me cativou. Leio Damásio para tentar entender o mistério da consciência que está no centro da minha tentativa de definir o design, meu tema recorrente. Para Damásio, a consciência é uma capacidade humana tão disponível que às vezes nos esquecemos dela.

Ao longo da pr√°tica profissional, sempre me surpreendi com a infinidade de entendimentos que a palavra design oferecia. Mesmo antes de dar aulas de design estrat√©gico, costumava dizer que: - Se voc√™ perguntar o que √© design para 30 designers, voc√™ receber√° mais de 40 respostas diferentes. √Č uma frase que busca o humor, para aliviar a chatice de uma aula te√≥rica, mas n√£o est√° muito distante da realidade.

Para mim, havia uma explica√ß√£o para essa multiplicidade de defini√ß√Ķes do design: a onipresen√ßa dispon√≠vel do pr√≥prio design. Se design for tudo o que n√£o for natureza, se design for o processo de tornar material uma ideia, ent√£o o design est√° profundamente inserido em todas as manifesta√ß√Ķes humanas. Incluindo a√≠, tanto a f√≠sica como a matem√°tica.

Existe uma caracter√≠stica comum na consci√™ncia e no design. Est√£o t√£o dispon√≠veis no dia a dia que, quando falham, percebemos temporariamente a sua enorme import√Ęncia pelos efeitos que s√£o gerados. Minha m√£e tem Alzheimer e deixou de ser consciente h√° muitos anos. Nossa fam√≠lia ainda convive com a presen√ßa f√≠sica dela, mas sua consci√™ncia nos abandonou. Quando o ar condicionado falha no ver√£o ou um avi√£o cheio fica na pista esperando um conserto, ficamos chocados diante da nossa depend√™ncia do sutil sistema de design que nos serve e fica indispon√≠vel por um acidente ou falha.

Logo no in√≠cio do livro, Dam√°sio nos oferece duas frases escolhidas com muita consci√™ncia, uma de seu compatriota Fernando Pessoa e uma outra de Richard Feynman. S√£o cita√ß√Ķes escolhidas por um neurocientista, internacionalmente premiado, na abertura de um livro que se chama O Livro da Consci√™ncia, um assunto tratado pelo mestre h√° d√©cadas. Pareceu-me significativo.

Conhecia Feynman por outra cita√ß√£o comparativa entre a F√≠sica e a Matem√°tica. Talvez a frase tenha chegado √† minha aten√ß√£o por causa da ironia: ¬ęA F√≠sica est√° para a Matem√°tica como o sexo est√° para a masturba√ß√£o¬Ľ.2¬†Feynman foi um cientista premiado com o Nobel de F√≠sica, mas tamb√©m um professor, escritor e m√ļsico. Ele tinha uma concep√ß√£o sobre a matem√°tica pura, como ela seria uma abstra√ß√£o do mundo real, como uma linguagem precisa que fugia da realidade.

Para comunicar uma ideia aos outros, Feynman preferia usar uma linguagem clara, ao inv√©s de uma linguagem precisa. A precis√£o s√≥ seria necess√°ria se houvesse uma d√ļvida na comunica√ß√£o, quando uma linguagem mais precisa seria usada diretamente sobre a d√ļvida para um esclarecimento pontual. Visto pelo ponto de vista dos designers, precisamos ter uma linguagem clara na comunica√ß√£o e precisa na constru√ß√£o.

A cita√ß√£o de Feynman, escolhida por Dam√°sio, era: ¬ęO que n√£o consigo construir, n√£o consigo compreender¬Ľ. √Č uma outra forma de reafirmar o pensamento confuciano que sugere que ¬ęaquilo que fa√ßo, eu aprendo¬Ľ e, por extens√£o, compreendo. O of√≠cio do designer √© pensar e fazer, nessa ordem. Feynman inverteu a dire√ß√£o do enunciado: se consigo fazer, consigo compreender. Tudo que passa pelo processo de design - pensar e fazer - √© compreendido pela consci√™ncia e retido como aprendizado.

Assim, design é uma ponte construída entre a intenção e a realização, a medida do homem na realidade, um processo incessante de tornar visível a nossa consciência.

Dam√°sio j√° havia dito que a consci√™ncia havia permitido a conex√£o de dois aspectos d√≠spares do processo de sobreviv√™ncia humana - a regulagem interior da vida e a produ√ß√£o de imagens.3 Para mim, a fun√ß√£o do design era tornar material a ponte entre o interior humano e seu exterior. A nossa capacidade de gerar imagens faz com que a realidade externa penetrasse no c√©rebro. A resposta espont√Ęnea da consci√™ncia foi a cria√ß√£o de interfer√™ncias na realidade externa, artefatos que nos ajudaram a sobreviver √† natureza ainda indomada.

A outra cita√ß√£o, escolhida por Dam√°sio, √© de Fernando Pessoa, atrav√©s do semi-heter√īnimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego: ¬ęMinha alma √© uma orquestra oculta; n√£o sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. S√≥ me conhe√ßo como sinfonia¬Ľ. Um pensamento po√©tico que mostra a nossa dificuldade em perceber as partes dos processos, internos ou externos. Sempre compreendemos o final do trabalho do design, que pode ser quase tudo. Mas, n√£o nos costumamos a perceber o pr√≥prio desenrolar do processo, os detalhes em movimento da sinfonia.

O tema principal desse texto √© a consci√™ncia, que consegue ser expressada de formas diferentes, dependendo da forma√ß√£o do observador. Um m√©dico neurologista, um poeta multifacetado, um f√≠sico qu√Ęntico e um designer transdisciplinar t√™m diferentes formas de filosofar sobre a consci√™ncia. A minha colabora√ß√£o ao assunto √© elaborar mais um pouco sobre a capacidade dos seres vivos em planejar e construir seu o futuro.

Em 2009, uma mat√©ria da BBC abordava a hist√≥ria de Santino, um chimpanz√© que teria planejado ataques aos visitantes do zool√≥gico de Furuyik, na Su√©cia. Desde meados de 1990, os funcion√°rios do zoo percebiam que o primata coletava e guardava pedras que, durante suas demonstra√ß√Ķes de domin√Ęncia, eram arremessadas contra o p√ļblico. Santino desenvolveu uma t√©cnica pessoal para arrancar peda√ßos do concreto da sua jaula, usando o congelamento da √°gua que se infiltrava nas frestas como uma ferramenta. Mathias Osvath, zoologista cognitivo, da Lund University, escreveu um artigo sobre Santino, publicado na revista cient√≠fica Current Biology.4

A pr√≥pria BBC publicou outra mat√©ria sobre primatas que mastigavam varas de madeira para que ficassem mais √°speras. Elas serviam para uma ¬ępesca¬Ľ de cupins em cupinzeiros na Rep√ļblica do Congo. Os cientistas observaram que os ramos mastigados previamente se tornavam mais eficientes na coleta dos cupins. O primatologista William C. McGrew demonstra que os kits de ferramentas dos chimpanz√©s¬†j√° possuiam 20 itens not√≥rios. McGrew menciona casualmente que elas s√£o usadas para ¬ędiversas fun√ß√Ķes na vida cotidiana, incluindo subsist√™ncia, sociabilidade, sexo e autopreserva√ß√£o¬Ľ. McGrew tamb√©m menciona que os chimpanz√©s s√£o a √ļnica esp√©cie entre os animais n√£o-humanos a fazer uso de¬†equipamentos mais complexos.5

Meu ponto de vista é que em algum momento na nossa evolução, nos tornamos capazes de melhorar nosso futuro, através da prática do design. Nossa criatividade pode usar um simples graveto ou um computador, não importa. Tudo começa na consciência, onde o design se origina, logo depois da regulagem interior da vida e da produção de imagens. Quando direcionamos o pensamento consciente a resolver um problema tão complexo como a sobrevivência, começamos a criar processos de design.

Design é uma capacidade humana tão disponível que às vezes nos esquecemos dela.

Editor: Marcio Dupont S√£o Paulo

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  1. António Damásio, O Livro da Consciência, A Construção do Cérebro Consciente, editado por Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2010.
  2. Citado em Physically speaking: a dictionary of quotations on physics and astronomy (p. 215), Carl C. Gaither, Alma E. Cavazos-Gaither, CRC Press, 1997.
  3. Ant√≥nio Dam√°sio, O mist√©rio da consci√™ncia, do corpo e das emo√ß√Ķes ao conhecimento de si, Companhia das Letras, 2000.
  4. Ver¬†Chimpanz√© consegue planejar futuro, diz estudo¬†e¬†Chimpanz√©s usam ¬ęvara de pescar¬Ľ.
  5. William C. McGrew, Chimpanzee Technology, www.sciencemag.org, Science, Vol 328 30, April 2010.
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Rique Nitzsche

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Retrato de Toni Sakty
0
Toni Sakty
Mai 2015

Obrigado pela escrita, e mesmo interesante... a consci√™ncia e toma de cosci√™ncia tem de atingir ao desing, como tamb√©m a qualquer √Ęmbio criativo

0
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Retrato de Fran Silva
1
Fran Silva
Mai 2015

Esta consciência do Design, nos faz criar uma cultura do Design, cultura essa que precisa sim ser cultivada no Brasil. Obrigada por seu esclarecimento.

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Retrato de Sandra Cameira
1
Sandra Cameira
Abr 2015

Excelente reflexão Rique! Concordo plenamente com você. Antes de ser a "palavrinha da moda", design é um processo interno residente em cada um de nós, e cabe a cada pessoa ter o autoconhecimento para saber trazê-lo à tona, a fim de resolver os problemas do dia-a-dia.

0
Retrato de Fran Silva
1
Fran Silva
Mai 2015

Também penso o mesmo Sandra! :) Principalmente sobre a construção da cultura do design que precisa ser interiorizado em nosso pais.

0
Retrato de Sandra Cameira
1
Sandra Cameira
Mai 2015

Sim Fran infelizmente, no Brasil, o campo do design padece com a falta de cultura sobre o tema e também com o uso inapropriado de terminologias inerentes a alguns conceitos e metodologias do design. O próprio conceito de design é banalizado, assim como recentemente vem acontecendo com o conceito de Branding. As palavrinhas entram "na moda" e todo mundo quer usar pra "surfar na onda" da vez.

0
Retrato de Fran Silva
1
Fran Silva
Mai 2015

Você falou tudo Sandra. Realmente esse é o mal que nos afeta. Principalmente os profissionais de Design no caso a gente. Bom referente ao Branding e o Design não é uma área que atuo, por isso meu conhecimento é muito superficial. E penso sim que essa percepção de consciência do Design só vem construir o legado do design no Brasil. Uma outra área que penso que vem auxiliar muito é o Design Universal. Tem uma amiga que trabalha nessa área ela fez mestrado e ministra aulas sobre Design Universal. Sinto que o Design Universal não é difundido no brasil, ainda está sim no começo. Sinto que a gente como profissional Designer temos a função de criar essa consciência do design em nosso dia-a-dia com a convivência com as pessoas. Como uma função educadora e pedagógica. Penso que fazer isso já é um grande contributo. :)

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