Primavera

O que eu penso do Design Thinking.

Retrato de Ronald Kapaz Ronald Kapaz S√£o Paulo

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Ilustração principal do artigo Primavera

¬ęOs alquimistas, na sua busca do ouro, descobriram muitas outras coisas de maior valor¬Ľ.

Arthur Schopenhauer

Vivemos todos, de alguma forma e por for√ßa do contexto, hipnotizados pela ilus√£o da felicidade que o ¬ęouro¬Ľ traz.

Time is money (tempo √© dinheiro). Essa m√°xima que reverbera no subconsciente de cada um de n√≥s como um mantra, ressona, embalando-nos, como um canto de sereia ou como uma amea√ßa.¬†¬ęA ditadura da performance e do pragmatismo¬Ľ a que se referiu com precis√£o o novo Papa latino quando no Brasil, pode ser a tradu√ß√£o ou a causa do desconforto e ang√ļstia que vem levando jovens para as ruas no Egito, Turquia e Brasil. Batizamos isso de Primavera.

O mundo ficou triste. A corrida desenfreada pelo sucesso, pelos likes e pelos resultados, quase sempre numéricos, vem minando a conta-gotas, o território do sutil, do sensível, do misterioso e do mágico.

O desencantamento do mundo que se originou com a supremacia crescente da razão e do cientificismo provocou no homem, um ser simbólico por excelência, a perda do contato com sua dimensão emocional, instintiva, intuitiva, afetiva e vital.

¬ęEm uma criatura sens√≠vel, o que n√£o √© feito atrav√©s de uma afei√ß√£o n√£o produz nem o bem nem o mal na natureza daquela criatura¬Ľ.

Shaftesbury. Characteristics of men

Entender o mundo enfraqueceu nossa capacidade de sentir o mundo? 

E fez-se o Design Thinking...

Gosto de provocar, em todas as mesas de debates de que participei sobre o tema, a seguinte reflex√£o: por que neste exato momento de nossa hist√≥ria nasce uma nova disciplina como o ¬ęDesign Thinking¬Ľ¬†e n√£o um ¬ęScientific Thinking¬Ľ, ¬ęEngineer Thinking¬Ľ¬†ou¬†¬ęMathematical Thinking¬Ľ? Por que o interesse no Design?

E gosto tamb√©m de complementar a pergunta com a seguinte d√ļvida: n√≥s, Designers, pensamos diferente?¬†O que voc√™ acha? O que voc√™ pensa? O que voc√™ sente?

Eu sinto que houve aqui um erro cognitivo. Na tentativa de se alcan√ßar um objetivo extremamente pertinente e oportuno ‚Äď o de re-encantar¬†o mundo ‚Äď acabamos interpretando a solu√ß√£o como um ¬ępensar¬Ľ. Nada mais sintom√°tico‚Ķ

A grande quest√£o que provoca o interesse pelo Design e pelos designers n√£o est√°, a meu ver, no ¬ęthinking¬Ľ, mas no ¬ęfeeling¬Ľ. N√≥s, designers, n√£o pensamos diferente, mas n√£o apenas pensamos‚Ķn√≥s sentimos o mundo de maneira diferente!

Eu teria batizado esta disciplina de ¬ęDesign Feeling¬Ľ. Porque √© a capacidade de sentir o mundo, usando o hemisf√©rio direito de nosso c√©rebro, aquele que por falta de muscula√ß√£o acabou atrofiado na maioria dos homens, que diferencia o olhar do designer e provoca as respostas ¬ęfora da caixa¬Ľ, ¬ęm√°gicas¬Ľ, ¬ęcriativas¬Ľ, ¬ęinovadoras¬Ľ¬†e todas as demais qualidades que se associam ao fazer do designer, e que tanto interessam aos executivos e gestores neste momento.

¬ęQuem n√£o entende um olhar, muito menos entender√° uma longa explica√ß√£o¬Ľ.

Prov√©rbio √Ārabe

Se √© para inspirar n√£o designers a ¬ępensar como designers¬Ľ que surgiu e se ensina o ¬ęDesign Thinking¬Ľ, que seja n√£o provocando os alunos e interessados a pensar, mas sim a sentir, atrav√©s da reconec√ß√£o com o mundo sens√≠vel, com os sentidos (olhar o mundo, ir a campo) e com a a√ß√£o direta sobre a mat√©ria (prototipagem, tato, vis√£o), que est√£o no passo-a-passo da metodologia sistematizada como processo, mas que precisam ser evidenciadas como um sentir, e n√£o como um pensar, para que se enderecem corretamente os desafios e os resultados desejados.

(…e não paro de me perguntar: por que são os designers que estão usando o Design Thinking?...)

√Č no voltar a sentir o mundo que pode estar a resposta a tanta ang√ļstia, viol√™ncia, acelera√ß√£o e inquieta√ß√£o. Mas que n√£o seja novamente para a busca do ¬ęouro¬Ľ, mas para o encontro de tantas outras coisas mais interessantes que deixamos pelo caminho e precisamos recuperar.

Os alquimistas estão chegando…

Editor: Marcio Dupont S√£o Paulo

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Retrato de Chico Neto
2
Chico Neto
Jan 2015

Ronald, sublime.

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Retrato de Fran Silva
1
Fran Silva
Jun 2014

Ronald √© primorosa a sua percep√ß√£o sobre o Design Thinking obrigada! Extremamente rica a associa√ß√£o com o sentir e principalmente com Arthur Schopenhauer. Me fez resurgir o Mundo como vontade e representa√ß√£o, essa dicotomia entre o mundo da raz√£o e o mundo do sentir, muito interessante a associa√ß√£o. √Č no que comporta ao Design ele pode mesmo ser utilizado como uma "ferramenta" para fazer se agu√ßar a concep√ß√£o de que necessitamos mais sentir o que nos cerca, n√£o s√≥ no Design mas em tudo em nossa volta.

Muito obrigada mesmo por essa percepção. Amei a ligação!

0
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Retrato de Ana Leticia Perosa Ravagnani
2
Ana Leticia Perosa Ravagnani
Jan 2014

muito bom!!! vou compartilhar!

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Retrato de Evandro Perotto
0
Evandro Perotto
Jan 2014

Gosto da perspic√°cia, da lucidez e sensatez com que aborda o assunto. H√° no meio do design, com em algumas outras √°reas vizinhas, proposi√ß√Ķes que acabam desvirtuando em modismos derivados, em sua maior parte, ou de apropria√ß√Ķes utilitaristas e vis, ou de p√©ssimos e superficiais entendimentos, ou mesmo de ambas as coisas. Ler uma reflex√£o t√£o interessante √© um al√≠vio! Muito agradecido pela sua reflex√£o, Ronald.

0
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Retrato de Hemilton Tuco
1
Hemilton Tuco
Dez 2013

E eu tava lendo corrido, s√≥  ľpassando o olho ľ, porque √© assim que tem sido muitas vezes na rapidez que nos √© exigida dia-a-dia. Parei. Pensei. Senti que deveria voltar e ler direito. Li com calma, e foi melhor. Me fez bem. Acho coerente, e n√£o quero perder este senso de sentir o mundo e traduz√≠-lo da melhor forma. Se poss√≠vel, encant√°-lo pelo menos um pouquinho com meu fazer di√°rio no design. Obrigado pela reflex√£o.

1
Retrato de Ronald Kapaz
32
Ronald Kapaz
Dez 2013

√Č isso a√≠, Hemilton!

0
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Retrato de Alexandre Fontes
2
Alexandre Fontes
Dez 2013

Interessante colocação, talvez nunca tenha pensado, ou melhor, sentido o Design Thinking desta forma.

O Design Thinking parece uma lenda aqui no Brasil. √Č muito falado, mas ainda parece pouco praticado, at√© mesmo designers bastante comprometidos com a pesquisa, met√≥dicos na pr√°tica projetual, parecem sair cada vez menos dos seus escrit√≥rios para "sentir" o mundo.

Opinião bastante pessoal, mas construída com fragmentos de outros discursos, sinto uma falta nostálgica pelo que não pertence a minha geração, onde o designer manipulava a matéria pelos sentidos a fim de entender e transformar ela.

0
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Retrato de Vinicius Mota
0
Vinicius Mota
Dez 2013

re-thinking about it..

1
Responder

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