Na era do Green Design – Qual é a nova prioridade: ética ou estética?

Já faz tempo estamos vivendo uma época em que o design por si só não é mais suficiente, é fundamental que transmita elementos muito mais profundos como ética e sustentabilidade.

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Ilustração principal do artigo Na era do Green Design – Qual é a nova  prioridade: ética ou estética?

Co-autoria com Ana Bossler e Débora Rodrigues

Hoje há uma exigência constante por uma melhor qualidade de vida e um maior comprometimento com o meio ambiente. Sendo assim, é mister que o design acompanhe este movimento e que cumpram funções tanto relacionadas com a beleza como de utilidade e, principalmente, de sustentabilidade.

Sustentabilidade é a palavra da vez e o design agora deve apontar tanto para a criatividade como para a adaptabilidade ao meio ambiente. Se olharmos bem atrás na história da humanidade veremos que foi na natureza que sempre encontramos a inspiração de todas as formas.1 Por essa razão, se é na natureza que encontramos nossa inspiração para a criação de diferentes desenhos, formas e funções é possível afirmar que hoje um design para ser atual deve também servir e reconhecer a essa mesma natureza. Observando a natureza percebemos que tudo o que existe tem uma razão de ser e não é simplesmente por mero acaso que formas e cores combinam tao perfeitamente. Entretanto, esse perfeita combinação é a mais pura demonstração da capacidade da natureza em adaptar-se, reinventando e transformando.

Durante muito tempo, ainda quando alguns designers esclareciam que sua inspiração era proveniente do mundo natural, pensar em sustentabilidade não era o principal foco.2 Com o desenvolvimento das artes e da arquitetura modernistas o design abandonou o estilo com características arredondadas e de curvas acentuadas,3 que o precedia, e privilegiou os traços retos livres, simples, muitas vezes minimalistas que valorizavam e destacavam as formas geométricas como podemos observar no magnifico trabalho do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer.4 Porém, esse desenho modernista não priorizava a perfeita adaptação e harmonização ao meio ambiente natural. O aço e o concreto armado eram a principal base desse tipo de desenho e os mesmos eram considerados inovadores para a época, pois o uso da forma e o minimalismo eram totalmente vanguardistas, cujo objetivo central era sempre valorizar a estética das formas por sobre a ética do design.5

Para alguns designers estética e sustentabilidade são totalmente opostos e, portanto seria impossível representar ambos em um mesmo objeto de desenho. Muitos são os que versam sobre a incompatibilidade da beleza com a sustentabilidade. Outros ainda acreditam que pensar em sustentabilidade pode limitar a liberdade de criação do artista. Acreditando nisso alguns decidiram escolher um lado da moeda, deste modo desenhos sustentáveis excluíram imagem e forma para priorizar a adaptação ao meio ambiente, enquanto que outros enfocaram na estética do good design.

Nos últimos anos expressões como eco-design, eco-friendly, green design, etc. surgiram e de repente sustentabilidade pode inclusive ser considerada sexy e atraente para os consumidores. O mundo passa por uma etapa de transformação onde muitos consumidores passaram a questionar os processos de extração, produção em massa, descarte e a possibilidade de adquirir produtos ecologicamente corretos que respondam aos ideais de sustentabilidade contra-restando o modelo imperativo atual do capitalismo econômico, onde o Fast6 domina em forma absoluta. Muitos são os que atualmente afirmam que ser fashion é ser green ou eco-friendly.

A grande diferença reside na visão diferenciada da estética, agora baseada muito mais na inteligência e não apenas na beleza e intuição. A ética tornou-se imprescindível e há um espaço crescente para o consumo de desenhos que contenham tanto características estéticas como sustentáveis.

O design é uma parte importante do processo criativo e é uma razão preponderante a hora de colocar um produto no mercado, pois como estratégia de negócios é mais fácil colocar no mercado um produto com bom desenho e agradável aos olhos do consumidor,7 cuja funcionalidade seja igualmente considerada do que um produto que atende somente a utilidade do mesmo. Entretanto, a idéia de design está passando por uma transformação e agora o mercado exige desenhos cada vez mais comprometidos com a sustentabilidade. Desta forma, o grande desafio é a criação de desenhos não apenas com uma estética agradável, mas que também possam atrair pela funcionalidade ao mesmo tempo em que cumpram com os princípios de sustentabilidade.

«If is not beautiful, it is not sustainable, aesthetic attraction is not superficial concern – it is an environmental imperative».

Lance Hosey8

Editor: Marcio Dupont São Paulo

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  1. Leonardo da Vinci durante o período renascentista estudou extensivamente as formas do corpo humano, foi particularmente interessado na anatomia humana e, muito adiantado para a sua época, realizou e deixou impresso em seus diários e notas a continua observação do mundo a seu redor. Ficou conhecido através da história «por sua curiosidade insaciável e por sua imaginação inventiva». Gardner,Elen. Art through the Ages. (1970)
  2. Em certa instância houve a inclusão de jardins e bosques, porém, a idéia central não era enforcar na utilidade ou na sustentabilidade e sim na beleza. Por essa razão, antes da adaptação do que viria a ser um bosque ou um jardim a vegetação local era substituída por outra vegetação que pudesse se adaptar a forma e ao conceito de beleza da época, muito pouco da vegetação original era adotada como parte da obra. Eram os chamados jardins formais, como é o caso dos jardins do Palácio de Versalhes.
  3. O Art Nouveau se inspirou em formas curvilíneas e em estruturas naturais de flores e plantas. No entanto, aqui uma vez mais a natureza serviu como fonte de inspiração para o mundo das artes e da arquitetura da época e não como um objetivo em si mesmo que cumpriria com algo ainda maior.
  4. O International Style influenciou os trabalhos de Niemeyer e esse estilo pertencente ao movimento modernista foi utilizado para mostrar um Brasil diferente, que abandonava os fundamentos de uma economia baseada na agricultura e na exportação do café para criar a marca de um país moderno perfeitamente traduzido na proposta das obras arquitetônicas de Oscar Niemeyer. Assim, para a construção magistral da cidade de Brasília e realização do sonho progressista do então Presidente Juscelino Kubitschek foram devastados quilômetros da vegetação de cerrado (savana brasileira).
  5. É possível encontrar tais características nos inúmeros desenhos da escola Bauhaus, cuja valorização da forma e estética eram primordiais. O estilo de Bauhaus foi um dos que mais exerceu influencia tanto na arquitetura como no desenho modernos. Para Peter Anker isso influenciou os designers a questionarem a realização de desenhos sustentáveis, mais comprometidos com os princípios de proteção ao meio ambiente do que com a estética. Destarte, o ideal é a junção de ambos conceitos e não a dissociação, de forma a privilegiar os chamados desenhos inteligentes.
  6. Alusão aos fenômenos do Fast Food e ao Fast Fashion presentes nas cadeias de produção da alimentação e da moda respectivamente.
  7. E essa observação cabe para qualquer área. Seja no desenvolvimento e venda de uma obra de arte ou de uma obra arquitetônica ou mesmo durante o processo criativo de peças para a indústria da moda ou indústria em geral. Todas essas áreas criativas também passam por processos em que a estratégia de negócios, que inclui também marketing e propaganda, para inserção e venda de produtos no mercado é fundamental e como todas possuem um apelo visual muito forte a aceitação por parte do consumidor jamais pode ser deixada de lado, pois é um fator decisivo determinante do sucesso ou fracasso de um negócio.
  8. HOSEY, Lance. The shape of green: Aesthetics, Ecology, and Design. Washington D.C.: Island Press, 2012.

Bibliografia:

  • ANKER, Peter. From Bauhaus to Ecohouse: a history of ecological design. Louisiana State University Press, 2010.
  • ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992
  • BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura moderna. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.
  • KLEINER, Fred S., MAMYIA, Christin J. Gardner’s Art through the Ages. Boston: Wadsworth, 2004.
  • HOSEY, Lance. The shape of green: Aesthetics, Ecology, and Design. Washington D.C.: Island Press, 2012.
  • DEKAY, Mark. Five levels of sustainable design Aesthetics: perceiving and appreciating developmental complexity. PLEA – 2012.
  • DEKAY, Mark. Integral sustainable design – Transformative perspectives.
  • ROTH, Leland M. Understanding Architecture: its elements, history and meanings. Nova Iorque: HarperCollins Publishers, 1993.
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Priscila Lima Pereira

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Fran Silva
Jun 2014

Priscila grata por sua visão e informações. Nem mesmo estava a saber dessa nova abordagem do Green Design. Mais uma evidência do Design e suas qualificações. Penso mesmo que é interessante esse posicionar-se entre o ato de se fazer o design ligado a sustentabilidade sem se perder o fies estético. E também esse viés Ético no qual você bem citou, o que comporta aqui seria mesmo o posicionamento do profissional que atua como Designer. Gostei deste quarteto: 1. Design 2. Sustentabilidade 3. Estética e 4. Ética.

Obrigada pelas referencias!

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Christian Ullmann
Dez 2013

concordo, o modernismo, igual que os movimentos anteriores de arquitetura não priorizaram a perfeita adaptação e harmonização ao meio ambiente natural, de fato foi criado um "artificial", porem falar que o modernismo valorizou a estética das formas por sobre a ética do design não sei se é bem assim.

Falando de sustentabilidade, o movimento modernista bem ético e prefiro o minimalismo ao barroco do art novou ou outros.

A nossa realidade e necessidades projetuais e o histórico de "artificialidades" nos apresentam quanto distante estamos de um caminho + sustentável

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Ana Bossler
Dez 2013

Claro Christian, temos principalmente o problema da demanda... A preocupação com a sustentabilidade ecológica só vem depois da estética e preço respectivamente- talvez quando se consiga conceber projetos que sejam competitivos em ambos, ou que haja uma mudança de paradigma de produção desde a eficiência econômica/necessidade social se possa realmente ter uma produção sustentável.

0
Retrato de Priscila Lima Pereira
12
Priscila Lima Pereira
Dez 2013

Para a concepçao de desenhos critérios como funcionalidade e custo sao sempre avaliados. Muito se discute e ainda existe a idéia errônea de que desenhos comprometidos com a sustentabilidade sao mais caros ou nao sao vendáveis. Ainda estamos em uma sociedade que prioriza o que seja fácil de ser consumido, agradável aos olhos e quase sempre descartável ou que possa ser facilmente substituido por otro objeto mais recente. Porém, como vc disse estamos em um caminho +sustentável. Discutir a necessidade social aliada a sustentabilidade é o primeiro passo na difusao de desenhos sustentáveis.

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