Formação cultural do designer

Reflex√£o motivada por uma consulta realizada por Fabi√°n Garc√≠a, Coordenador do curso de Design Gr√°fico da Fundaci√≥n √Ārea Andina, Bogot√°.

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Entre as v√°rias acep√ß√Ķes do termo cultura (todas leg√≠timas), a mais √ļtil a nossa problem√°tica profissional e docente √© a mais ¬ęantropol√≥gica¬Ľ. Quando me refiro √† necessidade de se capacitar culturalmente, refiro-me ao conhecimento e dom√≠nio dos c√≥digos que regem o universo simb√≥lico, desde os ¬ęusos e costumes¬Ľ at√© os grandes g√™neros, e desde suas manifesta√ß√Ķes hist√≥ricas at√© as contempor√Ęneas.

No caso espec√≠fico do design gr√°fico, considero que o profissional deve conhecer as manifesta√ß√Ķes gr√°ficas, desde as pinturas rupestres at√© as correntes do design gr√°fico contempor√Ęneo e as produ√ß√Ķes extra-acad√™micas: vernacular, espont√Ęnea ou marginal. Para contextualizar tais conhecimentos, o profissional deve estra familiarizado com campos culturais cont√≠guos: artes pl√°sticas, arquitetura, cinema, entre outras, e sua hist√≥ria. Apenas para exemplificar: um designer n√£o pode confundir uma pe√ßa neopl√°stica com uma construtivista. Muito menos, desconhecer estas correntes est√©ticas.

Este volume de conhecimentos se adquire tanto atrav√©s da documenta√ß√£o (bibliografias, museus, arquivos, exposi√ß√Ķes, etc.) como atrav√©s da experi√™ncia cotidiana (observa√ß√£o atenta dos fatos sociais e seus contextos). Diante de ambas as fontes √© necess√°ria uma s√≥lida capacidade anal√≠tica que facilite a compreens√£o do sentido daquilo que se observa. E aqui entra em a√ß√£o outra dimens√£o da forma√ß√£o: a capacita√ß√£o, n√£o apenas cultural mas tamb√©m intelectual (que n√£o s√£o a mesma coisa); o dom√≠nio de categorias te√≥ricas que permitam esmiu√ßar e interpretar os fatos.

Um profissional bem formado deve conhecer e saber aplicar pelo menos os conceitos b√°sicos da sociologia, da psicologia, da antropologia, da semi√≥tica e da lingu√≠stica. As escolas de design habitualmente desdenham esse tipo de ensino. Criam, desse modo, uma esp√©cie de operador superficial de formas, um inculto rebuscado que acredita que para projetar √© suficiente ¬ęser designer¬Ľ.

Parte importante dessa forma√ß√£o √© responsabilidade espec√≠fica do ensino secund√°rio. A adolesc√™ncia √© o per√≠odo exato para a ¬ępaideia¬Ľ, ou seja, para a transforma√ß√£o da crian√ßa em cidad√£o culturalmente integrado. Mas √© de dom√≠nio p√ļblico a profunda crise desse ensino, que deve enfrentar a concorr√™ncia desleal do consumo de ¬ępenduric√°rios¬Ľ e pseudocultura ¬ęna rede¬Ľ, que tem o adolescente como alvo, precisamente por encontrar nele ¬ęum alvo¬Ľ.

A universidade n√£o pode suprir totalmente essas car√™ncias, por duas raz√Ķes: primeiro, porque seus programas de estudo ficariam ¬ęinchados¬Ľ de mat√©rias e o curso se estenderia para al√©m do aceit√°vel; e, segundo, porque para parte dos estudantes ‚Äď adeptos e satisfeitos com os consumos de aculturados ‚Äď j√° seria tarde demais para motiv√°-los para a cultura.

Somente podemos aspirar que, proporcionando-lhes contatos potentes, mobilizadores, com as melhores obras da cultura, parte do alunado desenvolva avidez cultural e lhe seja oferecido em sua agenda ¬ętarefas¬Ľ para se encantar com elas, que √© a melhor maneira de educar.

Traduzido por Luiz Claudio Gonçalves Gomes Campos Dos Goytacazes

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Norberto Chaves

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Retrato de Lucas Feijó
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Lucas Feijó
Set 2015

Excelente artigo! Concordo que as universidades não podem suprir tal preenchimento cultural, mas a mesma deve ser propulsora e incentivadora deste movimento. De forma geral o ensino como um todo deve ser. Concordo que para o designer é peça fundamental, mas para quem não é também. Boa cultura não faz mal a ninguém! Pelo contrário, só nos enriquece,

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