Formação cultural do designer

Reflexão motivada por uma consulta realizada por Fabián García, Coordenador do curso de Design Gráfico da Fundación Área Andina, Bogotá.

Retrato de Norberto Chaves Norberto Chaves Barcelona

Seguidores:
3076
Opiniões:
1
Votos:
11
Compartir:
Ilustração principal do artigo Formação cultural do designer

Entre as várias acepções do termo cultura (todas legítimas), a mais útil a nossa problemática profissional e docente é a mais «antropológica». Quando me refiro à necessidade de se capacitar culturalmente, refiro-me ao conhecimento e domínio dos códigos que regem o universo simbólico, desde os «usos e costumes» até os grandes gêneros, e desde suas manifestações históricas até as contemporâneas.

No caso específico do design gráfico, considero que o profissional deve conhecer as manifestações gráficas, desde as pinturas rupestres até as correntes do design gráfico contemporâneo e as produções extra-acadêmicas: vernacular, espontânea ou marginal. Para contextualizar tais conhecimentos, o profissional deve estra familiarizado com campos culturais contíguos: artes plásticas, arquitetura, cinema, entre outras, e sua história. Apenas para exemplificar: um designer não pode confundir uma peça neoplástica com uma construtivista. Muito menos, desconhecer estas correntes estéticas.

Este volume de conhecimentos se adquire tanto através da documentação (bibliografias, museus, arquivos, exposições, etc.) como através da experiência cotidiana (observação atenta dos fatos sociais e seus contextos). Diante de ambas as fontes é necessária uma sólida capacidade analítica que facilite a compreensão do sentido daquilo que se observa. E aqui entra em ação outra dimensão da formação: a capacitação, não apenas cultural mas também intelectual (que não são a mesma coisa); o domínio de categorias teóricas que permitam esmiuçar e interpretar os fatos.

Um profissional bem formado deve conhecer e saber aplicar pelo menos os conceitos básicos da sociologia, da psicologia, da antropologia, da semiótica e da linguística. As escolas de design habitualmente desdenham esse tipo de ensino. Criam, desse modo, uma espécie de operador superficial de formas, um inculto rebuscado que acredita que para projetar é suficiente «ser designer».

Parte importante dessa formação é responsabilidade específica do ensino secundário. A adolescência é o período exato para a «paideia», ou seja, para a transformação da criança em cidadão culturalmente integrado. Mas é de domínio público a profunda crise desse ensino, que deve enfrentar a concorrência desleal do consumo de «penduricários» e pseudocultura «na rede», que tem o adolescente como alvo, precisamente por encontrar nele «um alvo».

A universidade não pode suprir totalmente essas carências, por duas razões: primeiro, porque seus programas de estudo ficariam «inchados» de matérias e o curso se estenderia para além do aceitável; e, segundo, porque para parte dos estudantes – adeptos e satisfeitos com os consumos de aculturados – já seria tarde demais para motivá-los para a cultura.

Somente podemos aspirar que, proporcionando-lhes contatos potentes, mobilizadores, com as melhores obras da cultura, parte do alunado desenvolva avidez cultural e lhe seja oferecido em sua agenda «tarefas» para se encantar com elas, que é a melhor maneira de educar.

Traduzido por Luiz Claudio Gonçalves Gomes Campos Dos Goytacazes

Seguidores:
3076
Opiniões:
1
Votos:
11
Compartir:
Código QR para acesso ao artigo Formação cultural do designer

Este artigo não expressa a opinião dos editores e responsáveis de FOROALFA, os quais não assumem qualquer responsabilidade pela sua autoria e natureza. Para reproduzi-lo, a não ser que esteja expressamente indicado, por favor solicitar autorização do autor. Dada a gratuidade deste site e a condição hiper-textual do meio, agradecemos que evite a reprodução total noutros Web sites.

Norberto Chaves

Mais artigos de Norberto Chaves

Título:
Arte, design e ideologia
Resumo:
Sobre o preconceito tenaz que atribui ao design o caráter de área artística.
Compartilhar:
Título:
Com meu design não se intrometa!
Resumo:
O tabu da crítica interprofissional: insegurança, paranoia e refúgio no corporativismo.
Compartilhar:
Título:
Iconicidade e velocidade de leitura
Resumo:
As virtudes da mensagem gráfica não verbal.
Compartilhar:
Título:
O símbolo de uma comunidade
Resumo:
A capacidade emblemática de um identificador social: motivação e convencionalização.
Compartilhar:

Debate

Logotipo de
Minha opinião:

Ingresse com sua conta para opinar neste artigo. Se não a tem, crê sua conta grátis agora.

Retrato de Lucas Feijó
0
Lucas Feijó
Set 2015

Excelente artigo! Concordo que as universidades não podem suprir tal preenchimento cultural, mas a mesma deve ser propulsora e incentivadora deste movimento. De forma geral o ensino como um todo deve ser. Concordo que para o designer é peça fundamental, mas para quem não é também. Boa cultura não faz mal a ninguém! Pelo contrário, só nos enriquece,

0
Responder

Lhe poderiam interessar

Retrato de Serafim Da Silva Nossa
Autor:
Serafim Da Silva Nossa
Título:
Prova de habilidade para ingresso em cursos de design
Resumo:
A necessidade de provas de habilidade específica em processos seletivos para cursos de design no Brasil. Levantamos, aqui, algumas questões ou argumentos que permitem pensar tal idéia de necessidade como requisito artificial, senão mesmo uma cláusula ideológica.
Compartilhar:
Interações:
Votos:
14
Opiniões:
5
Seguidores:
3
Retrato de Norberto Chaves
Autor:
Norberto Chaves
Título:
Iconicidade e velocidade de leitura
Resumo:
As virtudes da mensagem gráfica não verbal.
Traduções:
Compartilhar:
Interações:
Votos:
7
Seguidores:
3076