Design, o que pode ser?

O quanto que o design contribuiu para a evolução da espécie.

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Para mim, cada palavra é uma jornada que se torna material. Meu grande desafio foi tentar entender a jornada da palavra design.

O fil√≥sofo e l√≥gico Willard Quine argumenta que as defini√ß√Ķes das palavras s√£o vari√°veis, imprecisas e discut√≠veis, o que pode impossibilitar a atingir a sinon√≠mia necess√°ria para tornar verdadeira uma afirma√ß√£o anal√≠tica. Para Quine, o √ļnico crit√©rio seguro, vi√°vel e aceit√°vel para se decidir entre a verdade ou falsidade de uma senten√ßa √© o crit√©rio de evid√™ncia emp√≠rica, ou seja, baseado na experi√™ncia e na observa√ß√£o, met√≥dicas ou n√£o. Quine √© um caminho √† busca da perfei√ß√£o ou da precis√£o.

Meus textos não são dedicados a estabelecer verdades, nem a construir um dicionário sobre o design. Me dá prazer em navegar no conhecimento que existe, juntando o que diversos especialistas já pensaram sobre o assunto. Depois, filtrar através da minha observação e experiência para gerar um novo pensamento.

Meus assuntos n√£o s√£o focados em neg√≥cios, mas em seres humanos. √Č verdade que um bom design aumenta o valor dos empreendimentos humanos. Bom design √© sempre bom neg√≥cio. Mau design √© irrelevante e desperd√≠cio de tempo e energia, as duas vari√°veis mais valiosas para a vida humana. Meu objetivo √© mostrar como o design sempre foi indispens√°vel para a sobreviv√™ncia da nossa esp√©cie. Acredito que o design consciente ainda pode salvar o planeta do design inconsciente, r√°pido, desleixado, reativo e ego√≠sta que est√° tornando material uma crosta s√≥lida ao redor do planeta.

¬ęEm todo o curso da hist√≥ria humana, a deliberada e sistem√°tica produ√ß√£o de ferramentas √© o maior e evidente exemplo de processo de envolvimento entre humanos (ou homin√≠deos) e o mundo material. Retirar um objeto do ambiente tang√≠vel para format√°-lo e us√°-lo [de volta] para agir sobre o mundo real, √© uma etapa fundamental [da hist√≥ria da humanidade]¬Ľ.

Colin Renfrew, arqueólogo, em 2007.

¬ęSe voc√™ voltar seis milh√Ķes de anos no tempo, o que nos tornava humanos era estarmos andando eretos. Se for para 2,6 milh√Ķes de anos atr√°s, seria o fato de estarmos projetando [designing] e produzindo ferramentas de pedra¬Ľ.

Donald C. Johanson, paleoantropologista, em 2009.

¬ęOs primeiros ind√≠cios de produ√ß√£o de ferramentas datam de aproximadamente 2,5 milh√Ķes de anos atr√°s, e a manufatura e o uso de ferramentas s√£o os crit√©rios pelos quais os arque√≥logos reconhecem humanos antigos¬Ľ.

Yuval Noah Harari, historiador, em 2012.

Os atuais aparelhos de registro de neuro-imagem funcional revelam que a capacidade de projetar e usar ferramentas surgiu do desenvolvimento evolutivo de um ¬ęsistema operacional¬Ľ mental. O comportamento no uso de ferramentas atravessam as fronteiras tradicionais entre os processos sociais, cognitivos, motores e perceptivos. Sem um manual de uso dispon√≠vel, nossos antepassados intu√≠ram que as pedras poderiam ser transformadas. A iniciativa em tentar e continuar tentando tanto gerou um conhecimento sobre as ferramentas e seus usos como desenvolveu a compet√™ncia necess√°ria para executar essas a√ß√Ķes. Simultaneamente, est√°vamos criando ferramentas e construindo uma parte do c√©rebro para lidar com isso.

O uso de ferramentas entre os humanos antigos nos traz uma percep√ß√£o de que a pr√°tica do design √© t√£o antiga no tempo que nem √© mais percebida. Como o ar que, depois de entrar nos pulm√Ķes de um rec√©m-nascido, deixa de ser um elemento estranho, frio e ardido. Nos acostumamos a respirar sem prestar aten√ß√£o que o ar est√° fora e dentro de n√≥s simultaneamente. Alimentamo-nos dele, sem sentir. Nos assustamos quando o ar nos falta, ou est√° polu√≠do ou frio demais. Assim, tamb√©m somente percebemos o design que nos envolve quando ele nos falta ou nos encanta.

¬ęA lista completa de atributos comportamentais, unicamente humanos, recentemente adquiridos devem ter surgido durante o longo processo de crescimento do c√©rebro que come√ßou com a expans√£o do novo uso de ferramentas inovadoras e criativas pelo H. habilis¬Ľ. O conceito do neurologista Frank Wilson √© que a m√£o pode n√£o ser um legado incidental do nosso patrim√īnio f√≠sico, mas uma for√ßa elementar na g√™nese da mente, da linguagem e da cultura.

A atividade de construir instrumentos tanto serve hoje para que n√≥s possamos localizar os humanos antigos no tempo como serviu para ajud√°-los a construir seu pr√≥prio c√©rebro: a atividade do software contribuindo para a evolu√ß√£o do hardware, a din√Ęmica do conte√ļdo formatando o continente. A pr√°tica di√°ria do design tanto gera algo para fora do indiv√≠duo (no caso, as ferramentas), como ajuda a alterar o pr√≥prio funcionamento do c√©rebro e a anatomia do corpo humano (para dentro do indiv√≠duo). As habilidades manuais e a lingu√≠stica dependem das mesmas estruturas cerebrais que aumentam a capacidade de interagir com o meio ambiente.

Uma outra pesquisa dos biólogos evolucionistas Katherine Zink e Daniel Lieberman, mostra que a inter-relação entre as ferramentas líticas e a ingestão de carne criaram um círculo virtuoso. Algumas ferramentas nos permitiam caçar animais de maior porte o que melhorava a alimentação do grupo. Outras ferramentas de corte mais eficientes ofereciam uma oportunidade de diminuir os pedaços de carne que ingeríamos o que facilitava a digestão. A proteína alimentava o corpo, o que ocasionou a diminuição do processo digestivo e o aumento do cérebro que, por sua vez, era estimulado a desenvolver ferramentas cada vez mais precisas que melhoravam o exercício da caça. Melhores instrumentos reduziam o consumo de energia na mastigação o que transformou a estrutura dos dentes, da boca e do pescoço, auxiliando o desenvolvimento dos órgãos relacionados à fala.

Assim, a prática do design contribuiu para o desenvolvimento do cérebro e salvou a espécie do quase colapso há 70 mil anos atrás na longa seca africana. O exercício do design está intrinsicamente fundido na formatação do comportamento humano. Praticamos design sem perceber, assim como o peixe não percebe o líquido no qual está imerso. A diferença é que o processo do design está dentro da espécie humana, impregnada no nosso cérebro.

O design começou a conquistar valor quando construímos instrumentos que repetiam mecanicamente as atividades humanas. Na Revolução Industrial, as máquinas imitavam o trabalho dos braços e das mãos. Hoje, a inteligência artificial é encarada como uma possível ameaça à nossa espécie.

Inventamos a palavra design e, com o tempo, agregamos outras palavras diferenciais que nos interessavam. Como o design √© onipresente em todas as atividades humanas, n√£o √© surpresa que ele seja infinitamente m√ļltiplo. Fica mais f√°cil descobrir o design em profiss√Ķes projetuais, como a arquitetura e a engenharia nas quais as manifesta√ß√Ķes s√£o f√≠sicas. Mas design est√° presente nas mais variadas atividades como cozinhar, escrever ou resolver problemas matem√°ticos. Podemos fazer isso com mais ou menos arte, com mais ou menos dedica√ß√£o, superficialmente ou com profundidade, de forma banal ou sublime.

Não foi isso o que aprendi na minha escola de formação, mas é o que penso e acredito hoje. Para chegar aqui me interessei por outras disciplinas e, principalmente, conversei com muitas outras pessoas que tinham pontos de vista e habilidades mentais diferentes das minhas. Aprendi com os outros, aos quais agradeço a generosidade em compartilhar conhecimento.

Design é tornar tangível uma intenção de transformação. Para tal, precisamos uns dos outros, dos diferentes saberes, das diferentes tendências, da irreverência corajosa dos jovens e da experiência cautelosa dos mais velhos. Somos todos designers à procura da sobrevivência.

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Rique Nitzsche

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Nelson Graubart
H√° um ano

O homem sempre fez design conforme suas necessidades e seus recursos. Design do necess√°rio.

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Retrato de Rique Nitzsche
269
Rique Nitzsche
H√° um ano

√Č verdade Nelson, o design √© a intera√ß√£o do homem com seu ambiente, uma ponte entre a inten√ß√£o e a realiza√ß√£o, usando os recursos ao redor. Tecnologia √© somente a consequ√™ncia da pr√°tica do design.

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Retrato de Roberto Magalhaes Silva
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Roberto Magalhaes Silva
H√° um ano

Que visão profunda. Gostei muito do artigo caro Rique! Estou sempre postando no meu Instagram @roberto_dsr - trexos de artigos do foroalfa. Só gente boa por aqui!

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