Design e dinheiro

Para que seguimos a carreira de designers? Por lucro ou altruismo? O que passamos com o dinheiro é o que subordina as respostas destas perguntas.

Retrato de Alvaro Maga√Īa Alvaro Maga√Īa Santiago

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Ara√≠z do artigo Todas esas cosas que no son dise√Īo¬†que eu publiquei no FOROALFA rendeu uma breve troca de opini√Ķes por e-mail com uma designer colombiana que me dava como promotor do¬†Design Cartesiano por causa do conte√ļdo de meu texto. Design Cartesiano √© um conceito usado por Ramiro Espinoza1 para se referir a quem, tendo abandonado o altru√≠smo, faz design ¬ęcomo se fossem t√©cnicos¬Ľ, veiculando ¬ęexpectativas alheia, renunciando a toda sublima√ß√£o e podando seu Eros criativo [...] um sujeito alienado que n√£o ter√° consci√™ncia de seu papel na sociedade e que, portanto, ser√° incapaz de reformul√°-lo¬Ľ.

Eu n√£o poderia estar mais de acordo com o processo descrito no artigo de Espinoza a respeito das evolu√ß√Ķes e finalidades do design, mas, naturalmente em completo descordo com as conseq√ľ√™ncias e defini√ß√Ķes derivadas deste ponto de vista, como as que, certamente, trazem consigo n√£o somente as palavras que descrevem uma situa√ß√£o que, para Espinoza e para a designer que opinou sobre meu texto, n√£o poderiam ser mais indesej√°veis (designers trabalhando apenas por dinheiro) mas tamb√©m uma cren√ßa sobre o que √© a t√©cnica, a depend√™ncia a criatividade e o papel econ√īmico do design.

A designer me dizia que, no fundo, lhe causava tristeza o fato de que h√° designers que somente trabalham por dinheiro. Esta constata√ß√£o, da qual n√£o posso me esquivar nem mesmo desvalorizar, creio que √© um exemplo muito claro da profunda crise das voca√ß√Ķes profissionais em paralelo √°s promessas sociais relacionadas com a educa√ß√£o, dilema que n√£o √© exclusivo do design.

Para muitos a voca√ß√£o, ou o chamado para exercer uma determinada disciplina, n√£o est√° associada √† recompensa econ√īmica como padr√£o de medida de √™xito. Esta id√©ia aparece freq√ľentemente em discursos, por vezes com aspectos m√≠sticos e voluntarista, de pessoas que tiveram consider√°vel sucesso (quase todo mundo j√° deve ter ouvido o discurso de Steve Jobs em Stanford, ou, em uma menor escala, a prostitui√ß√£o de alma de Frederico Luppi no filme ¬ęLugares Comuns¬Ľ2). Luppi faz o papel de Fernando, um pai que diz ao filho que ele o traiu por n√£o ter seguido sua voca√ß√£o: ¬ęo que gosta¬Ľ, o que o ¬ęcomove¬Ľ. Seu filho responde que seu trabalho ¬ęo entret√©m e lhe faz bem¬Ľ, que est√° dando ¬ęum futuro¬Ľ a seus filhos e esposa (voc√™s t√™m que ver esse filme!). Ou discursos de pessoas que muito possivelmente amam seu trabalho sem ter tido o mesmo √™xito de Jobs.

Concordo que a maior parte da contribui√ß√£o que o trabalho pode fazer na vida de uma pessoa √© independente da recompensa econ√īmica. De fato, a auto-realiza√ß√£o, em sua mais ampla acep√ß√£o, permite abranger diversas recompensas: reconhecimento (que nem sempre resulta em riqueza material), comodidade existencial (sentir-se bem independente da situa√ß√£o), sentimento de dever cumprido, etc. Ao mesmo tempo, esse sentimento de estar bem consigo mesmo implica em uma dose de liberdade que na sociedade de mercado ‚ÄĒque viu nasceu o design e que o nutre permanentemente est√° relacionada ao poder aquisitivo, √† gest√£o do dinheiro e habilidade financeira em todos os n√≠veis: desde fazer maravilhas com um or√ßamento baixo at√© saber investir os excedentes em uma bem sucedida opera√ß√£o comercial.

Tudo que foi dito est√° muito bom, ainda que n√£o tenhamos falado de formar comunidades auto-abastecidas e baseadas na troca ou de explodir o sistema econ√īmico para ¬ęliberar¬Ľ a ningu√©m, como fala o filme Clube da Luta.3

Estamos falando de uma sociedade em que a aprendizagem de uma profissão deriva de uma necessidade social ou de uma falha de mercado, que requer pessoas capacitadas e com as competências adequadas para resolver tais necessidades e falhas. Além disso, devemos considerar que neste mesmo cenário, a educação também é um negócio legítimo, e, como todo negócio, se sustenta nas promessas de satisfação do consumidor e na troca de dinheiro.

Certamente as escolas de design exploram argumentos para atrair matr√≠culas como cumprir sonhos, seguir a voca√ß√£o, explorar os talentos e, por consequ√™ncia, ser √ļtil ao pa√≠s, √† empresa, ao futuro, etc. Assim ‚ÄĒmesmo que na promo√ß√£o da educa√ß√£o profissional nunca se fale em assegurar trabalho, campo ocupacional nem op√ß√Ķes de desenvolvimento que n√£o sejam acad√™micas (exceto poucas exce√ß√Ķes)‚ÄĒ, creio que √© justo que a educa√ß√£o do design se encarregue da complexidade em compatibilizar voca√ß√£o, talentos reais, desenvolvimento de habilidades t√©cnicas e sociais com as demandas reais, sejam elas j√° explicitas na ind√ļstria e no com√©rcio, ou sejam elas necessidades concretas da popula√ß√£o sem acesso ao apoio do estado.

Uma opção não descarta a outra. Acredito que o ensino humanista, em sua definição mais genérica, é necessário para qualquer tipo de educação. Mas o foco desmedido que ele recebeu em nossa disciplina gerou um problema duplo para quem exerce a profissão: a conversão (que é quase uma apostasia às crenças acadêmicas com raízes antigas) do mundo ideal da academia ao mundo cru do trabalho e da imagem arraigada de que o perfil do designer se aproxima mais a de um anarquista boêmio (geralmente mal preparado para enfrentar o mercado, os clientes ou qualquer tipo de instituição não educativa) para uma imagem de assessor estratégico ao serviço das empresas e de seu país.

Isso √© sinal, em minha opini√£o, de um conflito muito estranho entre as cren√ßas acerca daquilo que representa o conhecimento ¬ęhumanista¬Ľ e art√≠stico para o designer e o que na realidade s√£o ¬ęas artes e as humanidades¬Ľ, se √© que tais conceitos s√£o fact√≠veis de serem definidos com um objetivo claro para o design (se √© que, por sua vez, este √© fact√≠vel de ser definido para o bem estar de quem o exerce).

Ser√° que, ao contr√°rio, temos que definir a rela√ß√£o das profiss√Ķes (a nossa em particular) com o dinheiro?

Traduzido por Abc Design Curitiba

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  1. Designer e tipógrafo argentino atualmente baseado na Holanda na Re-Type.
  2. Lugares Comunes ‚Äď Dir. Adolfo Aristarain, Argentina, 2002. Cena:
  3. Filme¬†1999, de David Fincher, no romance de Chuck Palahniuk. Parlamento da cena citada: ¬ęNo mundo que vejo, voc√™ est√° perseguindo alce pelas florestas √ļmidas ao redor das ru√≠nas em torno Rockefeller Center. Est√° vestido com roupas de couro que v√£o durar para o resto de sua vida, voc√™ subir as videiras de espessura que envolvem a Torre Sears. E quando voc√™ olha para baixo, voc√™ v√™ figuras min√ļsculas batendo milho e tiras de coloca√ß√£o de veado na pista vazia de uma estrada abandonada¬Ľ.
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Alvaro Maga√Īa

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√Ās vezes √© bom fazer um exerc√≠cio de descarrego sincero que nos permita criticar com precis√£o as defini√ß√Ķes fundamentais das nossas trincheiras cotidianas.
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Retrato de Renzo Vargas Bejarano
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Renzo Vargas Bejarano
Mar 2012

buena traducci√≥n para los colegas, brasileros y portugueses, muy bueno Alvaro Maga√Īa!

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Daniel Campos
Mar 2012

¬ę(...) mesmo que na promo√ß√£o da educa√ß√£o profissional nunca se fale em assegurar trabalho (...)¬ę

No Brasil n√£o √© bem assim. O discurso que impera na publicidade de institui√ß√Ķes educacionais privadas √© a de ¬ęter bom emprego, subir de cargo¬Ľ e etc.

N√£o vejo nenhum problema quem trabalha com design por dinheiro. Vivemos numa sociedade capitalista e ¬ęganhar dinheiro¬Ľ √© a algema da qual ningu√©m pode se soltar. Ent√£o, por que n√£o fazer isso realizando um trabalho que se fa√ßa feliz?

Designer que reclama disso, ao meu ver, √© designer que s√≠ndrome de ¬ęart√≠sta¬Ľ. Ent√£o, encontre um mecenas.

1
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Retrato de Alfredo Gutiérrez Borrero
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Alfredo Gutiérrez Borrero
Mar 2012

Se FOROALFA traduz seu conte√ļdo em Portugu√™s, para n√≥s, abre enormes oportunidades para a comunica√ß√£o com os nossos colegas designers do Brasil e Portugal. De qualquer forma, √Ālvaro, um dos melhores finais que li neste f√≥rum √© de voc√™s: ¬ęEstamos sempre algo diferente para cada defini√ß√£o de design se destina a reduzir-nos e, como sempre √© o momento certo para n√≥s, para exercer o grau n√≥s concordamos para receber, teremos todo o tempo para repensar o que queremos dizer¬Ľ (de seu artigo: todas estas coisas que n√£o s√£o de design) na minha tradu√ß√£o muito pobre

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568
FOROALFA
Mar 2012

O texto foi traduzido pela revista abcDesign.

0
Retrato de Alfredo Gutiérrez Borrero
281
Alfredo Gutiérrez Borrero
Mar 2012

bem, então parabéns para a revista abcDesign. Bilinguismo e para continuar!

0
Responder

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