Menos é menos, mais é mais

Est√° na hora de aposentar o quase centen√°rio lema ¬ęmenos √© mais¬Ľ.

Retrato de Luciano Cassisi Luciano Cassisi Buenos Aires

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Qual √© o melhor design? O barroco, sobrecarregado e complexo? Ou o simples, austero? A resposta do arquiteto e designer alem√£o Ludwig Mies van der Rohe foi: ¬ęmenos √© mais¬Ľ.1 Este famoso lema teve sucesso ao instalar, desde as primeiras d√©cadas do ¬īseculo XX, a ideia de que as coisas simples s√£o melhores que as complexas, que o adorno √© sempre demasiado. A pouco tempo de completar um s√©culo desde que os designers - de muitas √°reas - adotaram aquele lema moderno, √© curioso notar que seguimos reproduzindo-a inclusive quando nossa pr√≥pria realidade cotiadiana demonstra sua falsidade. O decorativo e o complexo conformam as produ√ß√Ķes humanas provavelmente na mesma medida que o austero e simples. (Voc√™¬†tenta). Eleja qualquer espa√ßo que tenha por perto e fa√ßa um invent√°rio de quantas coisas s√£o simples e quantas s√£o complexas, e pergunte-se se as √ļltimas realmente melhorariam se fossem como as primeiras.

As ¬ęm√°ximas¬Ľ, os lemas, as ideias dogm√°ticas, em determinados momentos podem resultar √ļteis para combater outros dogmas instalados anteriormente. por exemplo, no tempo de van der Rohe, da Bauhaus, o dogma reinante impunha o floreado. O lema ¬ęmenos √© mais¬Ľ representou um forte golpe ao estilo dos criadores da √©poca, e serviu para tir√°-los da reclus√£o em que se encontravam. Deu lugar a uma nova est√©tica, t√£o dogm√°tica quanto a anterior, e em total conson√Ęncia com a nova necessidade de programar a obsolesc√™ncia e renova√ß√£o dos objetos impostos pelo sistema econ√īmico que come√ßava a se estabelecer no mundo: a economia de consumo de produtos industrializados.

Se bem que o lema ¬ęmenos √© mais¬Ľ resultou muito mais √ļtil durante v√°rios anos, enquanto as profiss√Ķes dedicadas ao design se desenvolviam muit√≠ssimo. N√≥s, designers, j√° n√£o trabalhamos tateando, temos conhecimentos comprovados empiricamente por uma infinidade de projetos realizados durante mais de um s√©culo. Antes de come√ßar um trabalho, definimos junto ao cliente um programa de necessidades espec√≠fico e √ļnico para cada projeto, que determina, entre outras coisas, quando conv√©m utilizar a simplicidade ou a complexidade, com total independ√™ncia de dogmas e lemas marqueteiros.

J√° n√£o √© sem tempo de colocar o lema ¬ęmenos √© mais¬Ľ na estante de lembran√ßas, uma vez que sua fun√ß√£o conscientizadora n√£o √© mais necess√°ria, inclusive vem sobrando. √Č tempo de abandonar o sentido figurado e dar √†s palavras o sentido que tem: ¬ęmenos √© menos¬Ľ e ¬ęmais √© mais¬Ľ.

A quest√£o √© t√£o simples que todos a conhecemos: quando se necessita menos se desenha de forma mais simples, mais austera, e quando se necessita mais, se desenha de maneira mais complexa, incluindo recursos decorativos. Se fosse necess√°rio contar com um lema no sentido anterior, este poderia ser: ¬ęmenos quando conv√©m menos, mais quando conv√©m mais¬Ľ.

Nota

Sempre que vou publicar um artigo o comento com meus amigos. Neste caso em particular tenho especial interesse em compartilhar o que me escreveu Norberto Chaves: ¬ęo problema com os ‚Äėdogmas corretivos‚Äô √© que rapidamente perdem seu car√°ter corretivo e se tornam dogmas¬Ľ. Al√©m disso, me recordo de uma frase de Thomas Henry Huxley que citou em seu livro¬†Desafueros: ¬ęO destino recorrente das novas verdades √© come√ßar como heresias e acabar como supersti√ß√Ķes¬Ľ.

Traduzido por Mariane Garcia Unanue Juiz de Fora

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  1. A express√£o¬†¬ęmenos √© mais¬Ľ frequentemente atribu√≠da a Ludwign¬†Mies van der Rohe, que a tornou famosa, tem sua autoria pr√©via pelo poeta alem√£o Christoph Martin¬†Wieland (1733-1813). ‚ÄčSeja ou n√£o o criador do lema, h√° aqueles que consideram que o significado dela n√£o coincide plenamente com o sentido que queria dar van der Rohe. Devfato, sua obra arquitet√īnica n√£o √© nada simples. Ao contr√°rio, incorpora a sua √©poca complexidades que n√£o se percebem √† primeira vista e muito menos cem anos depois. Seu ¬ęmenos √© mais¬Ľ n√£o se concentrava na est√©tica despojada mas em otimizar o uso de materiais e instala√ß√Ķes para obter benef√≠cios em rendimento, economia, conforto, etc.
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Luciano Cassisi

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Retrato de Alexandre Fontes
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Alexandre Fontes
Mar 2014

Achei bastante pertinente seu ponto de vista. Acredito também que o design tem facetas suficientes para ser mostrar ora complexidade, ora simplicidade. Ora tornar o simples robusto, ora simplificar o complicado.

Mesmo assim, acabei por chegar em outra reflexão: O que será que podemos exprimir da frase de Van der Rohe "Menos é mais"?

O que é mais? O ardono sempre é complexo? O ardono não pode fazer parte da essência daquele objeto? Tornando-o então simplório, ao invés de simples quando se retira o adorno necessário?

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Retrato de Chico Neto
2
Chico Neto
Jan 2014

Maravilhoso.

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