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O tabu da cr√≠tica interprofissional: inseguran√ßa, paranoia e ref√ļgio no corporativismo.

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Em alguns setores profissionais da publicidade e do design gráfico dissemina-se uma sorte de norma deontológica que obriga a guardar silêncio a respeito dos trabalhos dos colegas. Esta norma parte do pressuposto da solidariedade obrigada entre pares. O profissional deve ser leal, antes de tudo, a seus colegas e jamais criticar o trabalho deles, qualquer que seja a qualidade desse.

Mas,¬†quem¬†est√£o¬†mais¬†autorizados que os bons¬†profissionais de uma especialidade para detectar defeitos¬†e¬†virtudes nos servi√ßos de seus colegas? Aplicando aquela norma, para criticar, por exemplo, uma campanha¬†publicit√°ria, os √ļnicos autorizados seriam¬†os m√©dicos, os advogados e engenheiros,¬†em¬†tanto livres¬†do¬†compromisso de lealdade a um¬†colega que n√£o √©¬†tal.

Esta cren√ßa¬†e¬†conduta resultante, exp√Ķem¬†assim, um¬†grave problema¬†√†¬†sociedade: uma¬†√°rea chave de seu desenvolvimento¬†(a comunica√ß√£o) percebe-se¬†privada do¬†papel transformador¬†e¬†otimizador da avalia√ß√£o¬†de qualidade¬†e¬†o¬†conseguinte assinalamento das ¬ęm√°s¬†pr√°xis¬Ľ.

A¬†cr√≠tica, por outra parte, n√£o¬†√©¬†uma pr√°tica externa, alheia¬†ou opcional: forma parte intr√≠nseca do¬†processo do¬†design. O que¬†√© design¬†sen√£o¬†uma sequ√™ncia de cr√≠ticas¬†e¬†corre√ß√Ķes¬†a cada projeto anterior, realizadas pelo¬†o¬†pr√≥prio autor ou¬†por seus¬†assessores¬†com o fim de alcan√ßar¬†o¬†melhor¬†ajuste ao¬†programa?

Essa cr√≠tica, inevit√°vel¬†no¬†desenvolvimento¬†do¬†projeto, n√£o¬†se limita¬†ao¬†pr√≥prio¬†design¬†sen√£o¬†que, normalmente, deve tamb√©m¬†se comprometer¬†com¬†a obra dos¬†outros. Tal √©¬†o¬†caso das interven√ß√Ķes sobre¬†uma marca¬†¬†pr√©-existente. Pe√ßa chave dessa interven√ß√£o √©¬†o¬†pr√©vio diagn√≥stico¬†da mesma¬†marca. Na¬†maioria¬†dos casos, essa marca pr√©via saiu¬†de m√£os de um designer. O que¬†faz¬†ent√£o¬†o¬†profissional? Se inibe por lealdade a esse colega? N√£o: dever√° assinalar os defeitos¬†da marca existente como condi√ß√£o¬†t√©cnica¬†inevit√°vel¬†para abordar¬†o¬†novo¬†design. E, em¬†muitos casos, aqueles defeitos prov√™m¬†de erros¬†cometidos¬†pelo¬†designer¬†anterior. √Ȭ†dizer: o¬†pacto de sil√™ncio¬†√©¬†tecnicamente disfuncional¬†e¬†deontologicamente desleal ao¬†cliente.

O¬†profissional que, al√©m disso, exerce responsavelmente a cr√≠tica da obra dos¬†outros n√£o faz¬†sen√£o¬†p√īr¬†em conceito¬†e socializar o que ele¬†aprendeu¬†na autocr√≠tica, e conseguir transmitir uma¬†avalia√ß√£o¬†s√©ria¬†da pe√ßa analisada. Tarefa¬†na qual¬†deveriam¬†praticar¬†todos os profissionais. Conseguir verbalizar os par√Ęmetros de avalia√ß√£o¬†corretos acelera os processos¬†de design¬†e incrementa a qualidade do¬†produto final.

O¬†car√°cter paradoxal¬†daquele mandato¬†percebe-se¬†quando se leva em¬†conta uma institui√ß√£o¬†absolutamente legal e¬†essencial da sociedade de livre concorr√™ncia: o¬†concurso. Todo concurso de servi√ßos profissionais¬†-se¬†est√° corretamente organizado-¬†estabelece um¬†j√ļri de especialistas na mat√©ria, dentre¬†os quais figuram¬†os profissionais do¬†ramo com¬†maior autoridade. Precisamente¬†o¬†questionamento dos j√ļris mal¬†convocados apoia-se, geralmente, na den√ļncia da aus√™ncia de especialistas entre seus membros.

No¬†caso, por exemplo, de um¬†concurso de design, dentre os¬†jurados haver√°¬†designers de alto n√≠vel¬†que julgar√£o¬†os¬†seus colegas com objetividade. Redigir√£o¬†uma¬†ata assinalando¬†as virtudes do¬†projeto ganhador e, implicitamente, por compara√ß√£o, ficar√£o evidenciadas as limita√ß√Ķes¬†ou¬†erros dos perdedores. E, bem¬†possivelmente, a mesma ata ser√°¬†publicada, pelo¬†simples¬†crit√©rio de transpar√™ncia da¬†gest√£o.

Se¬†a¬†rejei√ß√£o¬†da cr√≠tica interprofissional fosse coerente, todo designer deveria¬†se privar¬†de fazer¬†parte de um¬†j√ļri¬†no¬†qual¬†um¬†colega seja julgado; mas¬†aquele¬†colega, por¬†sua¬†vez,¬†absteria-se¬†de concursar se¬†n√£o¬†fosse¬†julgado¬†por esses especialistas. Ou seja, a norma cria um¬†paradoxo¬†que √© prova de sua¬†falsidade.

Qual ser√°, ent√£o, a¬†origem¬†desta flagrante contradi√ß√£o¬†que suscita¬†o¬†¬ętabu¬†da cr√≠tica¬Ľ? N√£o¬†√©¬†dif√≠cil de detectar. Trata-se¬†da superviv√™ncia de uma ideologia instaurada pelos gr√™mios medievais: o¬†corporativismo, conceito vigente¬†e¬†em¬†uso at√©¬†os dias¬†de hoje. O¬†pacto de sil√™ncio, pr√≥ximo¬†√†¬†omert√†1¬†da camorra,2 prescreve: ¬ęn√£o¬†me delate¬†e¬†eu¬†n√£o¬†delatarei¬†voc√™; com o meu¬†sil√™ncio compro¬†o seu¬Ľ.

Em uma sociedade que orgulha da democrática, em que o livre exercício da opinião e a crítica constitui a base, tal pacto de silêncio não representa só um anacronismo senão uma prática absolutamente antidemocrática e, além disso, prejudicial para a comunidade.

O¬†profissional n√£o¬†somente¬†tem¬†o¬†direito¬†√†¬†cr√≠tica sen√£o¬†a obriga√ß√£o¬†de faz√™-la. Sua¬†lealdade n√£o¬†√© s√≥¬†¬†com o¬†gr√™mio ‚ÄĒcomo na Idade¬†M√©dia‚ÄĒ mas tamb√©m com¬†a sociedade √†¬†qual serve¬†e¬†da qual vive. Um¬†profissional servil a¬†seu gr√™mio¬†√©¬†um¬†traidor¬† com sua¬†sociedade.

Assim, ao mesmo tempo que¬†quem¬†produz¬†exp√Ķe-se √†¬†cr√≠tica¬†dos demais,¬†quem¬†critica exp√Ķe-se¬†a ser rebatido. Nessa exposi√ß√£o¬†entram em jogo e se moldam¬†os sistemas de valores. O¬†sil√™ncio, a omert√†,¬†√©¬†um¬†v√≠rus letal que deixa √†¬†sociedade √≥rf√£ de par√Ęmetros¬†e¬†arrojada ao¬†caos do¬†¬ętudo vale¬Ľ.

Ao¬†realizar uma cr√≠tica¬†fundamentada, o¬†profissional desprende-se¬†de suas¬†inclina√ß√Ķes¬†pessoais e¬†assume a responsabilidade de desenvolver crescentes n√≠veis¬†de objetividade, aperfei√ßoando¬†nesse exerc√≠cio, par√Ęmetros de validez general. Precisamente, FOROALFA¬†ter¬†nascido¬†e¬†crescido com¬†esta voca√ß√£o¬†e¬†abre um¬†espa√ßo no¬†que todos aprendemos de todos.

Na realidade, por tr√°s das¬†supostas¬†lealdades ao¬†gr√™mio, opera uma descarada aspira√ß√£o¬†√†¬†impunidade, que pode¬†equivocar-se sem¬†risco de ju√≠zo; ¬ęeu¬†n√£o critico voc√™, e voc√™¬†n√£o¬†me critica; e¬†que os clientes¬†se¬†fodam¬Ľ.

H√°¬†muitos anos publiquei, numa entidade¬†profissional,¬†uma cr√≠tica a tr√™s an√ļncios institucionais que continham¬†s√©rios desvios em¬†sua¬†√©tica social; especialmente graves porque¬†era¬†o¬†discurso de uma institui√ß√£o¬†de governo¬†que¬†faltava implicitamente¬†com¬†respeito a seus governados.

Os tr√™s an√ļncios eram¬†obra de uma mesma ag√™ncia de publicidade l√≠der, fato que eu ignorava porque a publicidade de √≥rg√£os¬†p√ļblicos n√£o¬†costuma¬†estar vinculada¬†√†s¬†ag√™ncias. Seu presidente, um¬†cordial colega meu¬†em¬†trabalhos conjuntos, convidou-me¬†para um jantar¬†no¬†qual¬†transmitiu-me¬†sua¬†preocupa√ß√£o. Este homem, obnubilado pelo¬†corporativismo, n√£o p√īde¬†nem sequer¬†pensar que minha¬†cr√≠tica era honesta. E¬†perguntou-me¬†se¬†eu¬†tinha¬†algo¬†contra a¬†sua¬†ag√™ncia. Ele suponha¬†que eu¬†era t√£o¬†mediocre ao ponto¬†de¬†usar minha¬†palavra para desprestigiar a um¬†colega¬†em favor¬†dos¬†outros.

Quem¬†duvida, a priori, da honestidade de um¬†cr√≠tico, apesar do embasamento¬†dos¬†seus argumentos, p√Ķe¬†em¬†evid√™ncia sua¬†pr√≥pria desonestidade. Uma resposta madura, culta¬†e¬†leal dele,¬†teria sido¬†me convidar¬†para uma reuni√£o¬†de trabalho com¬†seus criativos para trocar ideias¬†a respeito de uma ret√≥rica v√°lida das comunica√ß√Ķes¬†institucionais.

A¬†hist√≥ria da cultura¬†tem¬†a¬†cr√≠tica como¬†um¬†de seus pilares de autorregula√ß√£o, pelo¬†menos desde S√≥crates. M√ļsicos, escritores, pintores, fil√≥sofos, cientistas¬†tem exercido publicamente¬†e¬†durante s√©culos sua¬†responsabilidade cr√≠tica.

Mas, pelo¬†visto, a Idade¬†M√©dia n√£o¬†acabou¬†para todos. Nossa √©poca respalda, n√£o por acaso,¬†a aceita√ß√£o¬†acr√≠tica de todo o consumado: ¬ęJust do it¬Ľ. Tamb√©m¬†desse¬†jeito¬†avan√ßa em¬†sua irrevers√≠vel¬†decad√™ncia‚Ķ Com os corporativistas como aliados incondicionais.¬†

Traducido por Camila Hernández Bento Gonçalves

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  1. Omertà: Pacto de silêncio. Código de honra siciliano que proíbe informar sobre as atividades delitivas.
  2. Camorra: organização criminosa italiana, vinculada à Máfia Siciliana.
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Retrato de Gisela Abad
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Gisela Abad
Hace un a√Īo

Excelente, isso foi muito bem tratado por você Norberto no ultimo curso que fiz no foroalfa. A crítica expecializada em design é de fato uma carência. Fala-se de design nas mídias para elogiar e muito dificilmente para analisar. Isso reduz a massa critica e num crescente de causa e efeito decresce a qualidade geral do produto dos designers.

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