Hugo Moutinho

Design X Arte

Um breve ensaio sobre o desespero e a necessidade de ser artista

É curiosa a forma como a Arte toca, de alguma forma, a vida de todas as pessoas, ainda que por esporádicos momentos. Seja pela música, pintura, literatura ou qualquer outra vertente, todos já foram influenciados e transcendidos pela sensação de que quase  subliminarmente, pertencerem a um inconsciente coletivo proporcionado pela subjetividade de variadas obras. O que assusta, entretanto, é a incessante busca de algumas pessoas para permanecerem nesse campo etéreo, ainda que isso custe a dissolução de conceitos e supervalorização de casualidades.

Explico-me: o embate «Design X Arte» permanece fervoroso tantos nos meios acadêmicos quanto nos profissionais e, na realidade, chega a ser inconveniente pois, muitas vezes, a maioria dos argumentos se justifica pela desesperada tentativa de fusão de significados (o que vem a ser até preocupante, já que algumas opiniões são de profissionais reconhecidos) do que pela observação da realidade e da prática assim como ela é.

Mais explicitamente: o apelo é feito pela etimologia, datas históricas e estudos de comportamentos de quando nenhuma das duas atividades/práticas possuía definição própria ou reconhecimento oficial, seja empregatício ou meramente social. Com isso, alguns defensores da ideia «Design=Arte» forçam a sobreposição de conhecimentos que por si só não compõem um significado. Como poderíamos, então, a partir disso, obter uma conclusão lógica do que cada atividade representa? Por isso, é preciso tomar cuidado para que não se deixe o apego pessoal à arte, o desejo de pertencer a esse inconsciente coletivo, manipular a necessidade de enquadramento em determinado grupo.

«A Arte existe porque a vida não basta», como diz Ferreira Gullar. Para seu exercício, é preciso de prática, técnica, conhecimento de suas tecnologias, dedicação e inspiração. Assim como Design. E engenharia. E psicologia, farmácia, tecnologia da informação, ciências sociais, etc. A Arte está para o Design assim como está para qualquer outra atividade bem executada, que demande uma real apropriação da capacidade humana de pensar genuinamente. Simples assim. Isso, entretanto, não torna nenhuma profissão – nem mesmo o Design – essencialmente Arte.

As manifestações artísticas possuem um atributo único e intrínseco que as diferenciam de toda e qualquer profissão: liberdade de ser subjetiva. Pode ser uma cadeira e não ser ergonômica, pode ser um livro e não ser informativo. Pode ser um quadro, sem ser demonstrativo. Pode ser um texto, sem ter opinião, etc, etc. É assustador, portanto, a desesperada tentativa, de quem quer que seja, não importando a área de atuação, de definir seu trabalho como arte quando, deliberadamente, não é. Não são os meios - os métodos – que definem o propósito de uma atividade, e sim sua FINALidade.

Não: Design não é Arte. Não como conhecemos e desempenhamos ambos hoje, que é o que realmente os diferencia. Podem-se usar de alguns veículos e princípios artísticos de criatividade no Design, mas isso não o torna Arte. Design tem suas especificidades como qualquer outra profissão. Precisamos respeitar e conhecer a essencialidade da atividade que desempenhamos ou almejamos desempenhar para que, só assim, possamos ter o respeito e reconhecimento de outros profissionais. E, a menos que seja para fins meramente literários (artísticos) – parafraseando autores e se aproveitando de significados vagos –, essa comparação é, no mínimo, desequilibrada: ou se sabe muito pouco sobre o que se faz, ou se sabe muito pouco sobre o que deve ser feito.

Author
Hugo Moutinho São Gonçalo
Edition
Ana Bossler Porto Alegre

Published on 10/06/2015

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