Livro: Ser pós-moderno

Um argumento em favor da lucidez crítica dos designers.

Retrato de Norberto Chaves Norberto Chaves Barcelona

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Ilustração principal do artigo Ser pós-moderno

Ignorar as consequ√™ncias √©ticas, culturais e econ√īmicas das novas tend√™ncias sociais e suas respectivas origens significa que s√£o consideradas sem import√Ęncia. Isso √© observado tanto nos usos e costumes da vida cotidiana quanto na pol√≠tica, na ideologia e na cria√ß√£o do pensamento e da arte.

Nossa √©poca nos confronta com um ac√ļmulo de eventos inesperados e surpreendentes que excedem nossas capacidades de interpreta√ß√£o; fatos que nos s√£o impostos como verdades hist√≥ricas irrefut√°veis e imut√°veis. E isso nos leva a aceit√°-los e aderir √† tend√™ncia, mesmo que seja para n√£o ir na contram√£o e ser visto como atrasado. √Č o fen√īmeno que os te√≥ricos chamam de ¬ęmimese¬Ľ: cont√°gio passivo e irrefletido.

No entanto, o fato de n√£o podermos descobrir suas origens ou suas implica√ß√Ķes nos permite atribuir tend√™ncias positivas e negativas. N√£o √© um problema pequeno: ignoramos o significado das nossas pr√≥prias ades√Ķes.

O atual cen√°rio social √© marcado pelo modelo da p√≥s-modernidade, que n√£o √© um mero estilo ou moda, mas, segundo Fredric Jameson, a ¬ęl√≥gica cultural do capitalismo avan√ßado¬Ľ. Este modelo condiciona todos os comportamentos sist√™micos, n√£o marginais ou aned√≥ticos. E entre eles, a comunica√ß√£o tem um protagonismo absoluto; n√£o s√≥ a comunica√ß√£o social, mas at√© a comunica√ß√£o interpessoal.

O design, portanto, recebe esse impacto e, em seus campos predominantes, n√£o responde mais aos padr√Ķes da modernidade. Essa mudan√ßa, pode, e muitas vezes, ser interpretada erroneamente como uma mera moda passageira ou evolu√ß√£o do gosto, √© um fato revolucion√°rio, ela envolve uma mudan√ßa radical nos padr√Ķes de produ√ß√£o, distribui√ß√£o e consumo de bens sociais, no sentido mais amplo da express√£o

O escasso desenvolvimento dos recursos te√≥rico-ideol√≥gicos na profiss√£o de design √© o lado fraco atrav√©s da qual essas tend√™ncias caem. Os projetistas (exceto nos casos excepcionais de forma√ß√£o humanista autodidata) carecem de anticorpos para garantir uma autonomia m√≠nima diante dessas condi√ß√Ķes. E aderem n√£o apenas na produ√ß√£o dentro da tend√™ncia (comportamento praticamente inevit√°vel), mas em sua alegre celebra√ß√£o e legitima√ß√£o (atitude colaboracionista claramente evit√°vel).

A obsequiosidade diante da oferta tecnol√≥gica; a apologia n√£o cr√≠tica da inova√ß√£o; o regozijo nos caprichos da criatividade banal, s√£o todos produtos do mercado de simula√ß√£o que levantam reivindica√ß√Ķes que n√£o podem ser ignoradas sem perder o emprego. Mas √© importante estar ciente de seus efeitos degradantes, mesmo que apenas por dignidade.

Em um dos meus √ļltimos livros, Ser P√≥s-Moderno: Dilemas culturais do capitalismo financeiro, analiso os pr√≥s e contras dessa mudan√ßa. Sinteticamente, eu aponto, por um lado, a n√£o viabilidade de qualquer inten√ß√£o de reverter o processo e, por outro lado, a natureza suicida de uma ades√£o acr√≠tica a ele. Existe o conflito. Este conflito √© o que encoraja a fuga para a utopia ou reformismo ing√™nuo, presente por tr√°s das propostas de ¬ędesign alternativo¬Ľ. Independentemente da sua viabilidade, tais propostas n√£o resolvem o problema subjacente. Mas eles mitigam a culpa. Eles fornecem sa√≠das de emerg√™ncia para uma consci√™ncia desarmada, incapazes de detectar a dimens√£o da crise e suas causas.

Eu sou membro de uma gera√ß√£o militante em que a cr√≠tica era um comportamento generalizado, desde minhas origens na ocupa√ß√£o pedag√≥gica, nos anos 60, eu tenho trabalhado principalmente sobre estas quest√Ķes. Op√ß√£o que transformei em uma tentativa, n√£o muito bem-sucedida, de contribuir para a lucidez dos designers.Ser p√≥s-modernofoi uma √ļltima tentativa.

Trabalhe contra esse combate (que todos os dias vejo como mais quixotesco) a Paideia negativa exercida pela atmosfera ideol√≥gica dominante. A isto se soma o pragmatismo tecnocr√°tico e a ideologia neoliberal predominante nas escolas de design. Apenas excepcionalmente as academias alertam seus alunos sobre as amea√ßas √©ticas impl√≠citas em seus mercados. Incautos para atrair clientes, oferecem a consci√™ncia pedag√≥gica reconfortante de jovens vend√™-los utopias hip√≥critas (¬ęProjeto pode mudar o mundo¬Ľ, Istituto Europeo di Design). E priv√°-los de um conhecimento da sociedade, objetivo e radical, isto √©, suas ra√≠zes. E as terapias paliativas sem diagn√≥stico agravam o quadro.

Trabalhar √© colaborar, direta ou indiretamente, com um mercado real que imponha suas condi√ß√Ķes, normalmente injustas ou conflitantes. N√£o √© grave: o mais grave √© ignor√°-lo e celebrar sua pr√≥pria aliena√ß√£o.

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Traduzido por Gisela Abad Recife

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Norberto Chaves

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