Pesquisa em projeto

No √Ęmbito universit√°rio, o projeto enquanto objeto de pesquisa √© dificilmente discutido e aceito pela ci√™ncia, mas mesmo nas √°reas acad√™micas de design n√£o h√° consenso sobre o conte√ļdo e discurso que deva caracterizar uma tese de projeto.

Retrato de Reinaldo Leiro Reinaldo Leiro Buenos Aires

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Se aceitamos a defini√ß√£o de design proposto no meu artigo ¬ęLo espec√≠fico del dise√Īo¬Ľ, podemos avan√ßar na an√°lise da pesquisa em projeto em termos de tese para al√©m do que √© comumente chamado de ¬ęinvestiga√ß√£o projetual¬Ľ. Considerar a pesquisa em projeto envolve tamb√©m enfrentar uma quest√£o amplamente debatida que √© o funcionamento do mecanismo criativo.

Se al√©m disso concordamos que o projeto integra a ci√™ncia do artificial e, portanto, seu alvo √© centrado, n√£o em ¬ęcomo as coisas s√£o¬ę da ci√™ncia natural, mas em ¬ęcomo as coisas podem ser¬ę (seguindo o conceito de ¬ęconting√™ncia¬Ľ de Herbert Simon), o projeto √© uma das ¬ęalternativas prov√°veis¬ę do processo projetual. N√≥s dizemos ¬ęprov√°vel¬Ľ porque nenhuma das alternativas √©, ou pode tornar-se √ļnica alternativa relevante capaz de ser detectada. A possibilidade da descoberta √©, portanto, descartada e o projeto adquire a categoria leg√≠tima da ¬ęproposta prov√°vel¬Ľ.

Quando o designer, ap√≥s um per√≠odo de estudo do tema, inicia o projeto, disp√Ķe de informa√ß√£o e possibilidades extremamente complexas e muitas vezes contradit√≥rias. Normalmente, deduzir desses dados uma trajet√≥ria projetual n√£o √© poss√≠vel sem antes limitar o escopo para definir valores, objetivos, crit√©rios e gest√£o de prioridades. Essa ¬ęorienta√ß√£o de rota¬ę √© poss√≠vel uma vez que o designer gera, impl√≠cita ou explicitamente, estes objetivos e crit√©rios, formulando assim as hip√≥teses em que um projeto pode se materializar, como parte de um modelo ou interagindo com ele mesmo.

Essas hip√≥teses s√£o feitas √†s vezes expl√≠citamente na fase inicial do processo de projeto e em outros casos, ap√≥s ou simultaneamente ao processo. A estrutura l√≥gica desta ¬ęgera√ß√£o de hip√≥teses¬Ľ, chamada de ¬ęabdu√ß√£o¬Ľ por Charles Peirce, √© uma opera√ß√£o de indu√ß√£o1 (distinta da dedu√ß√£o e mesmo da indu√ß√£o) em que as hip√≥teses geradas s√£o o resultado de uma suspeita, um processo de infer√™ncia racional-intuitivo. De outro ponto de vista, podemos dizer que a abdu√ß√£o permite a redu√ß√£o de muitos valores, padr√Ķes e fen√īmenos diversos a um ¬ęcomum anal√≥gico¬ę, uma maneira de pensar sempre presente no processo de projeto. Este mecanismo de ¬ęabdu√ß√£o¬Ľ tem sido observado por v√°rios autores como caracter√≠stica da intelig√™ncia criativa de poesia, arte e at√© mesmo de descobertas cient√≠ficas.

Com refer√™ncia a intelig√™ncia criativa Karl Popper em seu livro ¬ęA l√≥gica da pesquisa cient√≠fica¬Ľ indica que o m√©todo cient√≠fico tem duas partes: uma inven√ß√£o e outra demonstra√ß√£o. Em seguida, ele esclarece que apenas o processo da segunda visa testar a hip√≥tese, porque a maneira de obt√™-la depende do g√™nio e n√£o pode ser ensinado. Esta declara√ß√£o faz a ponte entre as ci√™ncias exatas e o design.

Os pressupostos racional-intuitivos que conformam as hip√≥teses adquirem certeza atrav√©s do conhecimento e podem se tornar suposi√ß√Ķes espec√≠ficas. Mas, mesmo assim, a verifica√ß√£o ou valida√ß√£o de um modelo de projeto n√£o √© poss√≠vel nos termos requeridos pelos paradigmas da ci√™ncia da raz√£o.

Embora possamos dizer que o projeto √© em si uma ¬ęinvestiga√ß√£o¬Ľ que gera hip√≥teses e resultados, produzindo um modelo e um caso particular deste modelo, a ¬ęinvestiga√ß√£o projetual¬Ľ n√£o √© uma tese nos termos acad√™micos vigentes.

A contribui√ß√£o de novos conhecimentos, expl√≠citos e transmiss√≠veis (t√≠pico de uma tese de investiga√ß√£o) n√£o √© facilmente percept√≠vel no projeto. A avalia√ß√£o do projeto como um resultado concreto baseia-se em uma ou mais opini√Ķes qualificadas (um j√ļri), que o avaliam pelo que o projeto alcan√ßou, por sua coer√™ncia com as diretrizes do programa e sua proposta em rela√ß√£o ao contexto ambiental, social e cultural. Na avalia√ß√£o do projeto pelo j√ļri, as hip√≥teses as quais se refere o projeto s√£o avaliadas apenas atrav√©s do produto resultante. Um edif√≠cio, um produto, pode se comunicar, conotar novos c√≥digos s√≥cio-t√©cnicos e culturais, mas o conhecimento fornecido n√£o √© expl√≠cito ou categorizado e, portanto, n√£o √© um saber especificamente transmiss√≠vel. Continua a ser uma interven√ß√£o profissional.

A tese de um projeto consiste na ¬ęinvestiga√ß√£o projetual¬Ľ, ou seja, a investiga√ß√£o do ¬ęsistema de valores e decis√Ķes¬ę (processo interativo entre o ¬ęresultado do projeto¬Ľ e pressupostos do modelo que gerou a resposta).

Em tese, os aspectos sociais, culturais, inovadores, simb√≥licos, funcionais e tecnol√≥gicos do projeto e seus pressupostos devem ser avaliados especificamente por sua capacidade de estruturar, classificar e comunicar novos conhecimentos. Portanto, a qualidade da tese de um projeto n√£o coincide necessariamente com a avalia√ß√£o de um j√ļri j√° que se trata de julgamentos feitos sobre valores diferentes.

Em rela√ß√£o ao ensino do design, a ¬ęgera√ß√£o da hip√≥tese¬Ľ √© uma opera√ß√£o muito importante onde se d√° in√≠cio ao processo de projeto atrav√©s da defini√ß√£o de conceitos estrat√©gicos e valores, aprofundando a compreens√£o do assunto em estudo atrav√©s do uso do pensamento abstrato e descontamina√ß√£o de configura√ß√Ķes pr√©-existentes.

Sem a pretensão de cobrir todo o campo de uma tese propomos uma síntese da informação que deveria incluir:

Hipótese, definida com relação a:

  • a pertin√™ncia projetual e tem√°tica
  • os valores e conte√ļdos
  • a conceitua√ß√£o de design
  • os objetivos funcionais, tecnol√≥gicos e de significado 
  • o contexto sociedade, mercado e empresa,
  • o contexto cidade
  • o contexto local / global
  • a solidariedade e universalidade de design
  • a sustentabilidade do projeto
  • a gest√£o do projeto
  •  a categoriza√ß√£o formal-espacial
  • a  categoriza√ß√£o de habitat

Sistema de decis√Ķes do Projeto

  • aspectos de rede e conhecimento considerado de experi√™ncia e pre-configura√ß√Ķes
  • atores do projeto: privado, comunidade, p√ļblico, pol√≠tico
  • sistema de prioridades referente aos objetivos do projeto
  • objetivos priorit√°rios estrat√©gicos
  •  resultados concretos a serem obtidos em cada um dos objetivos do projeto
  •  desempenho funcional, a tecnologia, o significado

Informação relativa à configuração e a construção do produto:

A tese pode ser desenvolvida:

  • ap√≥s a conclus√£o do projeto em etapas anteriores ou durante o seu desenvolvimento
  • referindo-se a quest√Ķes de urbanismo, arquitetura e design
  • com rela√ß√£o a fatores funcionais, de significado, tecnol√≥gicos e morfol√≥gicos
  • em centros de design, neg√≥cios, industriais, tecnol√≥gicos

A vincula√ß√£o da pesquisa em projeto com a empresa e com a ind√ļstria pode produzir conhecimento sobre o ensino do design.

Traduzido por Ana Leticia Perosa Ravagnani Urupês

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  1. No campo do design, quando Leon Battista Alberti afirma (no Renascimento italiano), "quanto menos escadas tenha um pr√©dio e menos espa√ßo ocupem, melhor" est√° declarando uma hip√≥tese que faz parte de um modelo de arquitetura. O mesmo pode ser dito sobre o Modulor de Le Corbusier, em seus v√°rios escritos sobre a casa e a cidade, e o sistema pedag√≥gico na Escola de Ulm. Como em muitos outros casos, as realiza√ß√Ķes s√£o hip√≥teses que s√£o suportadas pela hist√≥ria da arquitetura e do design.
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Reinaldo Leiro

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