O símbolo de uma comunidade

A capacidade emblemática de um identificador social: motivação e convencionalização.

Retrato de Norberto Chaves Norberto Chaves Barcelona

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Os signos instituídos como emblemas coletivos (ícones, bandeiras, selos, escudos) alcançam alta hierarquia graças a uma especial ligação do significante com seu referente (iconografia já instituída, tradição, história…). Sua eficácia metafórica ou sinedóquica inicial lhes garantem um reconhecimento generalizado e imediato como símbolo unívoco e legítimo daquilo que aspiram representar.

O gorro fr√≠gio da rep√ļblica, a cruz dos crist√£os, a flor de lis dos bourbons, a¬†arpa ou o trevo¬†dos irlandeses, a folha¬†de¬†√°cer dos canadenses, a concha de vieira dos que peregrinam¬†a¬†Santiago, a estrela de Davi¬†dos judeus‚Ķ nenhum¬†destes s√≠mbolos √©¬†arbitr√°rio; todos eles est√£o ancorados¬†a¬†um¬†evento¬†m√≠tico onde¬†apareceram, carregando-os de uma¬†aura mais forte que qualquer outro significante cont√≠guo; superam¬†a todos na fun√ß√£o¬†de simbolizar univocamente aquele contexto. Como s√≠mbolo da luta das M√£es da¬†Pra√ßa de Maio, nenhuma outra pe√ßa de vestu√°rio poderia se igualar ao len√ßo amarrado em volta da cabe√ßa.

Por puro sentido prático, o êxito inicial do signo força a sociedade a recorrer a ele para garantir uma leitura social imediata e unívoca de seu referente. E assim, pela repetição desse uso específico, estes signos se instituem como objetos irrepreensíveis: se naturalizam.

Estes processos, predominantemente espont√Ęneos, n√£o constituem¬†a¬†√ļnica forma de origem¬†destes emblemas. Muitos deles nascem¬†de uma cria√ß√£o¬†artificial, n√£o necessariamente fundada em¬†experi√™ncias coletivas; por√©m respaldadas pela legitimidade emblematizadora de seus criadores. A √Ęncora se desloca, assim, do contexto hist√≥rico para o do criador.¬†Em outras palavras, o¬†criador √© evidenciado¬†como¬†legitimador do¬†emblema criado.

Imaginemos¬†Guifr√© I ¬ęO Cabeludo¬Ľ (Conde de Barcelona, 840-897) convalescente em¬†seu leito, ferido em¬†batalha contra os normandos enquanto¬†defendia o¬†rei¬†dos francos, de quem¬†fora vassalo. De p√©, ao seu lado, o¬†rei, em¬†reconhecimento a sua lealdade¬†e¬†valentia, molha os quatro dedos de sua m√£o direita com o¬†sangue do¬†ferido¬†e¬†tra√ßa sobre o¬†escudo dourado de Guifr√©¬†quatro¬†listras paralelas, enquanto diz: ¬ęTu¬†ser√°s o¬†portador das quatro barras catal√£s¬Ľ. Dessa forma o liberava do¬†vassalado, outorgando-lhe soberania sobre seus dom√≠nios territoriais¬†e, como consequ√™ncia, criava um¬†emblema que at√© hoje¬†segue vivo. Esta cria√ß√£o¬†¬ęunipessoal¬Ľ da¬†bandeira¬†catal√£, mesmo improv√°vel e n√£o m√≠tica, ilustra¬†um¬†fen√īmeno plaus√≠vel: o¬†papel instituinte do¬†her√≥i¬†individual na hist√≥ria dos emblemas sociais.

No fundo, ambos os processos (o espont√Ęneo¬†e¬†o¬†volunt√°rio) respondem a uma mesma g√™nese¬†semi√≥tica: a pot√™ncia simb√≥lica do¬†significante emergente,¬†derivada de sua localiza√ß√£o¬†privilegiada dentro do¬†contexto de origem. Sempre existe uma motiva√ß√£o¬†que favorece a posterior convencionaliza√ß√£o do signo.

O signo identificador privado (pessoa, empresa, organismo¬†etc.) √©¬†produto de certa ¬ęsoberania autosimbolizadora¬Ľ e¬†se naturaliza pela¬†simples tenacidade do¬†uso. Por outro lado, o¬†identificador coletivo (cidade, pa√≠s, regi√£o, comunidade, congrega√ß√£o) encontra-se numa rela√ß√£o¬†de servid√£o com o¬†imagin√°rio de seus representados e¬†com as imagens¬†de seus respectivos contextos. A¬†identifica√ß√£o¬†coletiva s√≥¬†√©¬†eficaz¬†se¬†for¬†sustentada de maneira¬†evidente na conven√ß√£o, ou seja, em uma imag√©tica social institu√≠da. Em outras palavras, a cria√ß√£o¬†desse signo n√£o √©¬†fruto de uma inven√ß√£o,¬†mas sim, uma constata√ß√£o.

Moral: um¬†signo coletivo triunfante n√£o √©¬†prova da¬†genialidade¬†de seu autor, mas sim, de sua mod√©stia, objetividade¬†e¬†senso comum.¬†O designer que aspire, por exemplo, criar uma marca-pa√≠s dever√° fazer um¬†enorme esfor√ßo de igualar-se¬†√† gente¬†comum. A miss√£o¬†desse signo n√£o √©¬†surpreender, persuadir, nem mesmo descrever uma comunidade.¬†√Č muito menos ainda a de demonstrar a criatividade de seu autor. A¬†miss√£o¬†primeira de uma¬†marca-pa√≠s √©¬†ser aceita por sua comunidade como emblema pr√≥prio¬†e¬†leg√≠timo, n√£o arbitr√°rio e nem imposto.

A not√≥ria irrelev√Ęncia¬†e¬†fugacidade da maioria das marcas-pa√≠s, a absoluta indiferen√ßa que a popula√ß√£o¬†sente por elas (ou seja, o¬†fracasso desses signos) s√£o¬†prova de que nenhuma das op√ß√Ķes acima √© levada em conta pelos seus criadores.

Traducido por Rogério Torres Aracaju

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