O instante criativo

A fé excessiva que muitos designers e estudantes depositam na criatividade, muitas vezes distrai sua atenção e reduz sua efetividade profissional.

Retrato de Fabi√°n Bautista Fabi√°n Bautista Tijuana

Seguidores:
49
Opini√Ķes:
11
Votos:
10
Compartir:

Em meu trabalho como docente na Licenciatura em Design Gr√°fico, me deparei muitas vezes com protestos dos alunos, ao pedir a eles que pesquisem sobre o trabalho de algum designer, ou que visitem a exposi√ß√£o de um artista. Muitos manifestam abertamente seu desinteresse a respeito de conhecer o trabalho de outros. ¬ęN√£o quero me influenciar¬Ľ, dizem. Resultado curioso esse enfoque, evidentemente baseado na cren√ßa de uma ¬ęid√©ia pura¬Ľ, surgida de um momento de ilumina√ß√£o criativa, que seria a g√™nesis das melhores cria√ß√Ķes em design.

Trata-se de uma id√©ia muito difundida, tanto no √Ęmbito educativo com na pr√°tica profissional do design. Alguns recusam com desprezo a an√°lise de antecedentes, preferindo crer apenas naquilo que seu cora√ß√£o lhes dita e evitando de ¬ęcontaminar-se¬Ľ com a produ√ß√£o que os precede. √Č como se temessem perder sua ¬ęvirgindade criativa¬Ľ ao entrar em contato com solu√ß√Ķes pr√©-existentes e problemas similares.

A fantasia de um instante criativo quase m√°gico deve ser refor√ßada na maioria dos congressos de design, onde muitos conferencistas provenientes do mundo profissional se limitam a mostrar seus portf√≥lios com divertidas anedotas de como se ¬ęinspiraram¬Ľpara alcan√ßas tais resultados. Desta forma, os estudantes se enfrentam com um abismo entre as hist√≥rias apresentadas pelos seus √≠dolos e os exerc√≠cios realizados em sala de aula, onde suas tarefas nem sempre consistem em desenhar capas de m√ļsica pop. Algo parecido ocorre ao jovem profissional, que n√£o tarda em dar-se conta que a pr√°tica real, as margens e as exig√™ncias da criatividade n√£o s√£o iguais em todos os casos.

A supervalorização do instante criativo não é outra coisa que um menosprezo pelo conhecimento e pela formação cultural, tanto geral como específica (visual, musical, literária, etc.): para quê estudar e compreender o funcionamento das variáveis culturais, se existe uma força mágica, um lampejo criativo, que iluminará a mente do designer/criador?

A fantasia da inspira√ß√£o criativa est√° ligada a uma forte necessidade de express√£o que freq√ľentemente perambula nas aulas das escolas de design. Muitos estudantes t√™m uma verdadeira voca√ß√£o art√≠stica, e encontram no design um meio com relativas perspectivas econ√īmicas, que os permitir√° ‚Äúmatar dois coelhos com uma s√≥ cajadada‚ÄĚ: ter um espa√ßo para manifestar seus sentimentos e emo√ß√Ķes, al√©m de se construir um futuro. Como no mundo de arte contempor√Ęnea, a originalidade √© o mais valorizado, sentem-se na obriga√ß√£o de buscar sempre ¬ęa id√©ia √ļnica¬Ľ que lhes consentir√° o reconhecimento que tanto anseiam e merecem.

Como o design √© uma disciplina que muitas vezes apela √† mobilidade emocional, isso n√£o implica que o desenvolvimento de todos seus processos requeira um compromisso sentimental do profissional. Colocar o foco na aura emotiva do criador distrai a aten√ß√£o do verdadeiro sentido da interven√ß√£o: resolver o problema de OUTRO e em TODOS os seus aspectos. √Č absurdo confiar que a inspira√ß√£o casual e incontrol√°vel possa ser o caminho para ter resultado.

N√£o pretendo desdenhar o valor da cria√ß√£o: etapa fundamental e inevit√°vel e todo trabalho de design; sim, colocar as coisas em seu justo lugar. O instante criativo quase sempre tem muito pouco de m√°gico e muito pouco de instante. As solu√ß√Ķes devem surgir como resultado de processos nos quais a destreza pl√°stica e a inspira√ß√£o criativa somente tenham sentido na medida em que est√£o bem orientados. E para determinar o rumo correto √© fundamental:

  • saber escutar o cliente e compreender sua necessidade;
  • estar disposto a ajud√°-lo;
  • poder manter uma dist√Ęncia razo√°vel e objetiva a respeito do produto ‚Äď na obra ‚Äď que se est√° gestando;
  • conhecer as melhores solu√ß√Ķes pr√©-existentes para eventualmente poder super√°-las;
  • ter sensibilidade para pr√©-visualizar seu poss√≠vel funcionamento na realidade.

Muito pouco disso pode dar resultado sem ter um conhecimento profundo da cultura visual, conforme corresponda a cada profissional.

Na ess√™ncia, a busca pela originalidade √© imposs√≠vel. Estamos constantemente influenciados, n√£o s√≥ pelo trabalho de outros designers ou artistas, mas tamb√©m por tudo que nos rodeia. Cada produto que utilizamos, cada rua em que passamos, a m√ļsica que n√≥s escutamos, o caf√© que bebemos, tudo aquilo com que interagimos diariamente, nos prov√™ de um ac√ļmulo de influ√™ncias que modifica a nossa maneira de ser, de pensar, e, evidentemente tamb√©m de desenhar. Nesse sentido, nossa produ√ß√£o n√£o √© estritamente nossa.

N√£o se trata ent√£o de negar a criatividade, mas sim, compreender que esta s√≥ tem sentido na medida em que ajude a resolver adequadamente o problema do cliente. Em geral, ¬ęser criativo¬Ľ contribui quando coincide com o ¬ęser eficiente¬Ľ, quanto mais culto, melhor. Da mesma forma que, na escrita, quanto maior o vocabul√°rio e o dom√≠nio da l√≠ngua, mais ricas e acertadas s√£o as obras.

Traduzido por Abc Design Curitiba

Seguidores:
49
Opini√Ķes:
11
Votos:
10
Compartir:

Este artigo foi escrito em co-autoria com Natalia Delgado.

Código QR para acesso ao artigo O instante criativo

Este artigo não expressa a opinião dos editores e responsáveis de FOROALFA, os quais não assumem qualquer responsabilidade pela sua autoria e natureza. Para reproduzi-lo, a não ser que esteja expressamente indicado, por favor solicitar autorização do autor. Dada a gratuidade deste site e a condição hiper-textual do meio, agradecemos que evite a reprodução total noutros Web sites.

Debate

Logotipo de
Minha opini√£o:

Ingresse com sua conta para opinar neste artigo. Se não a tem, crê sua conta grátis agora.

Retrato de Manolo Goulart
3
Manolo Goulart
Abr 2012

¬ęA inspira√ß√£o sempre vem, mas tem que te pegar trabalhando¬Ľ palavras de Pablo Picasso.

A intuição também da um jeito ao trabalho, mas não é certeiro também não.

Ta certo meu amigo, sempre que vem, da uma mão, mas não resolve os aspeitos mais importantes da comunicação nem da produção gráfica.

Somente se pode falar de inspiração se você vai pintar uma tela ...

0
Responder
Retrato de Angela Maria Medina Olano
25
Angela Maria Medina Olano
Abr 2012

Interesante articulo Fabi√°n, pienso que muchas veces el ¬ęmomento creativo¬Ľ no da se√Īales, por esta raz√≥n pienso que como dise√Īadores debemos aprender a buscar ese momento, y para buscarlo tenemos que sumergirnos en un mar de conocimiento, ya que los buenas ideas no est√°n flotando, sino est√°n enterradas en el fondo del mar y por esta raz√≥n tenemos que hacer un gran esfuerzo para encontrarlas, darles forma y as√≠ lograr que se convierta en un gran dise√Īo.

Así que el momento creativo no se espera, como obra y gracia, sino que se busca y se trabaja para obtener el resultado deseado.

0
Responder
Retrato de Miguel Angel Aguilera Aguilar
67
Miguel Angel Aguilera Aguilar
Abr 2012

En el pasado el potencial creativo no era visto como tema de inter√©s ¬ę‚Ķlas sociedades eran demasiado tradicionales como para interesarse en promover los cambios¬Ľ. Sin embargo, a medida que fueron evolucionando, se dieron cuenta de la importancia de crear nuevas ideas para satisfacer nuevas necesidades de desarrollo. Como consecuencia de esto, la creatividad dejo de ser un tema secundario y se convierte en un objeto importante de estudio.

0
Retrato de Fabi√°n Bautista
49
Fabi√°n Bautista
Abr 2012

Hola Miguel √Āngel. Coincido en que la creatividad se ha convertido en una m√°xima de nuestra √©poca. Espero que podamos convocarla de manera consciente para que nos asista en nuestro desarrollo profesional.

Saludos desde Tijuana.

0
Retrato de Miguel Angel Aguilera Aguilar
67
Miguel Angel Aguilera Aguilar
Abr 2012

Saudos Fab√≠an Bautista, ejerzo la docencia en el Posgrado en Arte y Dise√Īo de la Academia de San Carlos de la UNAM

0
Responder
Retrato de Monica Raiberti
58
Monica Raiberti
Abr 2012

La creatividad es un continuum para aquellos que la poseen.

Es posible que alguien llame ¬ęinstante creativo¬Ľ al momento en que puede conectarse con su propia sensibilidad.

Creo que el camino no es a trav√©s de algo externo, sino a trav√©s del contacto con el propio cuerpo. Quiz√°s la m√ļsica, u otro estrategia pueda acercarnos, pero siento que sobre este tema hay mucho ¬ęfetichismo¬Ľ.

Me parece que es sano que incluyamos que no es la misma capacidad creativa que cualquier dise√Īador tiene, a la que tuvieron Einstein, Picasso o Fukuda, etc., etc... Mal que nos pese!!!

1
Retrato de Fabi√°n Bautista
49
Fabi√°n Bautista
Abr 2012

Hola Mónica.

Cierto que tenemos muchos fetiches en torno a la creatividad. El colmo, es cuando se llega a pensar que una marca de computadoras te hace m√°s creativo. Lo que debemos fomentar como bien mencionas, es un sentido hol√≠stico de la creatividad. De modo que debemos ser creativos para construir marcos te√≥ricos que se alejen de los lugares comunes del dise√Īo. Muy valioso cuando mencionas la importancia de conectar con nuestro esp√≠ritu creativo. Eso nos ayudar√° para ser buenos dise√Īadores y mejores seres humanos.

¬°Saludos!

0
Responder
Retrato de Fabio Lopez
58
Fabio Lopez
Abr 2012

saludos Fabi√°n, √≥timo texto! O instante criativo existe e faz parte do processo, mas nem sempre acontece diante de press√Ķes e prazos apertados. O aluno - e o profissional tamb√©m - precisa aprender a desenvolver um bom projeto mesmo quando esse instante  ľm√°gico ľ n√£o acontece. Aprender a convencer pela solidez, e n√£o apenas a conquistar pelo encantamento. Ou saber conduzir um processo de trabalho coletando todas as informa√ß√Ķes necess√°rias que permita o instante acontecer. Nesse sentido, m√°gico √© o processo, o instante √© s√≥ parte dele - nem sempre fundamental.

1
Retrato de Fabi√°n Bautista
49
Fabi√°n Bautista
Abr 2012

Obrigado Fabio pelo seu coment√°rio.

O que voc√™ menciona √© algo muito importante para os designers. Com meus alunos eu enfatizo a import√Ęncia de ser capaz de resolver problemas o tempo todo, se estamos inspirados ou se as estrelas se alinharam favoravelmente.

O projeto deve resolver problemas de comunicação o tempo todo.

Uma saudação grande do México.

0
Retrato de Manolo Goulart
3
Manolo Goulart
Abr 2012

Hoje eu acordei com a ideia na cabeça, com a solução para o trabalho que tinha que ter feito na semana, mas tive que trabalhar o dia todo (domingo) pra fazer-lo.

Fica melhor se é assim, mas leva mais tempo, porque a gente quer fazer igualsinho do que imaginou, não é?

0
Responder
Retrato de Joaquín Eduardo Sánchez Mercado
537
Joaquín Eduardo Sánchez Mercado
Abr 2012

Un artículo del 2006 ahora en portugués (?)

0
Responder

Lhe poderiam interessar

Retrato de Andre Bello
Autor:
Andre Bello
Título:
A cultura da raz√£o
Resumo:
Sobre o declínio dos instintos primitivos e a ascenção dos fundamentos racionalistas, analíticos e cartesianos.
Intera√ß√Ķes:
Votos:
5
Seguidores:
6
Ilustração principal do artigo 30 frases de Bill Bernbach sobre criatividade na publicidade
Autor:
Joaquín Eduardo Sánchez Mercado
Título:
30 frases de Bill Bernbach sobre criatividade na publicidade
Resumo:
Uma seleção de ideias do renomado publicitário americano, para quem a publicidade não é uma ciência, mas uma arte sutil.
Tradu√ß√Ķes:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
7
Opini√Ķes:
1
Seguidores:
537
Ilustração principal do artigo Corpo Tipográfico
Autor:
Buggy Costa
Título:
Livro: Corpo Tipogr√°fico
Resumo:
Apresenta√ß√£o do primeiro livro da S√©rie LTA ‚Äď Laborat√≥rio de Tipografia do Agreste ‚Äď da editora brasileira Serifa Fina.
Tradu√ß√Ķes:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
17
Opini√Ķes:
12
Seguidores:
9
Ilustração principal do artigo A inovação no design de produtos
Autor:
Rê Gastal
Título:
A inovação no design de produtos
Resumo:
No mercado de hoje é preciso ser inovador em vários aspectos e em grande velocidade, em cada ponto do processo de produção.
Intera√ß√Ķes:
Votos:
7
Seguidores:
0
Retrato de Rique Nitzsche
Autor:
Rique Nitzsche
Título:
Qual é a diferença entre arte e design?
Resumo:
Mergulhando na origem das palavras e no conceito do design thinking.
Tradu√ß√Ķes:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
21
Opini√Ķes:
6
Seguidores:
266
Retrato de Rique Nitzsche
Autor:
Rique Nitzsche
Título:
Design √© a adapta√ß√£o criativa √†s restri√ß√Ķes
Resumo:
Desde sempre o ser humano se adaptou e transformou dificuldades em oportunidades.
Intera√ß√Ķes:
Votos:
6
Seguidores:
266
Ilustração principal do artigo O passado sombrio do currículo
Autor:
Marco Rinaldi
Título:
O passado sombrio do currículo
Resumo:
O currículo, como o conhecemos, chegou ao fim.
Tradu√ß√Ķes:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
10
Opini√Ķes:
1
Seguidores:
73
Retrato de Felipe Jimenez Cano
Autor:
Felipe Jimenez Cano
Título:
7 conselhos para obter espaços criativos
Resumo:
Algumas ideias para fazer com que os espaços de trabalho atraiam criatividade.
Tradu√ß√Ķes:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
7
Opini√Ķes:
3
Seguidores:
49