O design na sociedade do espet√°culo

O design deve modificar sua imagem fr√≠vola e l√ļdica, por a de uma disciplina disciplina √ļtil ao desenvolvimento e ao progresso.

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A sociedade ocidental √©, no tempo em que vivemos, um lugar que reivindica fortes emo√ß√Ķes aonde os pequenos prazeres se tornaram ainda menores. Uma sociedade de pessoas sem grandes problemas para se aborrecerem. Pessoas que precisam ser¬†surpreendidas com o intuito de ficarem¬†distra√≠das. Espectadores passivos que pedem que lhes sejam oferecidos algo novo todo dia, algo diferente, incomum: aut√™nticos consumidores de not√≠cias impactantes, de esc√Ęndalos e desastres. Gra√ßas a¬†inter-rela√ß√£o¬†imediata que existe entre povos e culturas, por mais distantes que estejam, o mundo de hoje √© um territ√≥rio¬†para se encontrar assuntos. Nada nos passa despercebido, em qualquer momento sabemos o que se passa em qualquer lugar. A globaliza√ß√£o da informa√ß√£o facilita essa enxurrada de not√≠cias, sempre haver√° algo sensacional para chamar a nossa¬†aten√ß√£o. De tal maneira que o sensacional se tornou¬†normal e o que era normal j√° n√£o nos interessa mais. A todo momento haver√° um¬†scoop¬†que os meios de comunica√ß√£o se ocupar√£o em difundir, interessados em manter a audi√™ncia.

Acreditamos saber mais sobre mais coisas. Por√©m, esse saber √© t√£o superficial e ef√™mero ‚Äď assim como essa infla√ß√£o de not√≠cias ‚Äď que √© imposs√≠vel se interessar por um assunto em particular. Frequentemente um acontecimento importante √© ¬ęentendido¬Ľ apenas pelo t√≠tulo da not√≠cia, sem aprofundar-se em detalhes. Sempre h√° algo que est√° a ponto de acontecer para substituir o que acaba de ocorrer. Essa maneira de conhecer levianamente qualquer tema ‚Äď por vezes temas s√©rios e graves ‚Äď nos leva a olhar a vida, os acontecimentos, como parte de um espet√°culo do qual somos meros expectadores. J√° n√£o nos sentimos envolvidos com o que est√° ocorrendo. Houve um tempo em que pod√≠amos nos sentir¬†participantes do que acontecia em nossa pr√≥pria ¬ęaldeia¬Ľ. As not√≠cias eram menores em n√ļmero e em √°reas de cobertura. Assim n√£o era poss√≠vel ficar indiferente. Eram not√≠cias pr√≥ximas, em todo o seu significado. Havia tempo para atend√™-las e para reagir diante pequenos acontecimentos, onde o lado afetivo de nossa natureza entrava diretamente em jogo. Isso mudou. Da mesma maneira em que se aumentou o horizonte do nosso mundo, tamb√©m fomos nos distanciando emocionalmente do que nos ocorre. Foram se estruturando comportamentos individuais ou¬†coletivos adaptados a esse estado de coisas.¬†¬†

Essa sociedade que prima pelos fortes impactos, aqueles que querem ser convidados para o banquete informativo devem assumir as regras do sistema chamando aten√ß√£o a qualquer custo para assim chegarem a ser not√≠cia. Hoje tudo √© notici√°vel, n√£o somente as pessoas, mas tamb√©m as coisas, os objetos. Ultimamente n√£o √© novidade uma obra ser not√≠cia. O que importa √© o seu descaramento e n√£o sua qualidade. O que nos √© apresentado em exposi√ß√Ķes e publica√ß√Ķes s√£o obras que se destacam por serem ainda mais bizarras que as que at√© ent√£o haviam sido apresentadas.¬†¬†Como se os autores buscassem superar todo o desvario dos seus precedentes.

√Č certo que sempre houve criativos que se rebelam por sua conta e risco. A novidade √© que s√£o os pr√≥prios meios de comunica√ß√£o os que estimulam e nutrem¬†essa banaliza√ß√£o. Em uma sociedade t√£o havida de espet√°culo s√≥ se mostra aquilo de mais ¬ęsurpreendente¬Ľ para alcan√ßar audi√™ncia. Assim obras bizarras s√£o exaltadas em um sistema de perfeita simbiose entre aqueles que apostam na ousadia e os meios que buscam o mais ousado. Um sistema que se auto alimenta com designs que o pr√≥prio sistema criou.¬†

As coisas estando desse jeito n√£o √© de se estranhar que o p√ļblico (e tamb√©m as empresas) vejam o design como algo f√ļtil. N√£o √© esse o caminho para que o design ocupe o papel criativo ponderado que lhe √© correspondente. Creio que se cumpriu uma etapa, talvez necess√°ria, pois esse arranque midi√°tico permitiu que se conhe√ßa o design. Mas agora √© hora de mudar o rumo. Temo que fazer com que o design seja visto como um disciplina a mais que a sociedade possui para desenvolver-se e progredir. O design tem de atrair o interesse para al√©m das cadeiras e lumin√°rias, que j√° possuem um repert√≥rio farto. Deveria agora centrar-se em atender a esses outros produtos menos vistosos, b√°sicos, que a maioria da popula√ß√£o usa diariamente. As institui√ß√Ķes precisam investir para que o bom design chegue a estes outros produtos populares que n√£o s√≥ melhoram a qualidade de vida coletiva, mas s√£o em √ļltima an√°lise, os que impulsionam a economia de um pa√≠s. Uma economia que n√£o vive do espet√°culo midi√°tico de alguns produtos ¬ęde design¬Ľ e sim de uma excelente qualidade de sua produ√ß√£o industrial de base.

Retrato de André Ricard André Ricard Barcelona Seguidores: 454

TraduçãoLucas Monteiro Rocha Faria Belo Horizonte Seguidores: 6

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André Ricard

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Retrato de Marcos Esquef
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Marcos Esquef
Sep 2013

Excelente reflex√£o. Concordo plenamente. Basta de vivermos o ¬ęmito da caverna¬Ľ de Plat√£o. O Design precisa ser reconhecido para o qual foi desenvolvido. Cabe, ao menos, √†s institui√ß√Ķes formadoras de designers incluir, ou intensificar um pensamento filos√≥fico acerca dessa profiss√£o e sua contradi√ß√Ķes de base.

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