O design das experiências humanas

O futuro do design está sendo plantado há muitos milhares de anos. Invenção tecnológica é só uma consequência do design da vida.

Retrato de Rique Nitzsche Rique Nitzsche Rio de Janeiro Seguidores: 268

Opini√Ķes:
2
Votos:
1
Compartir:

Na entrada de uma palestra, um ex-aluno me perguntou o que iria acontecer com os designers que se formaram em design estrat√©gico. No final, que era sobre a emergente tecnologia de chatbot, algu√©m da plateia perguntou ao palestrante o que seria necess√°rio para se ter acesso √† esse novo mercado de intelig√™ncia artificial. O palestrante respondeu que a disciplina era um somat√≥rio de diversas outras, como lingu√≠stica, programa√ß√£o e an√°lise do comportamento humano. Ou seja, a conversa interativa entre rob√ī e ser humano, necessita de um somat√≥rio de conhecimentos que oferecem oportunidade para profissionais de diversas √°reas.

Acredito nisso, por√©m de forma mais radical. Naturalmente, crian√ßas s√£o capazes de realizar opera√ß√Ķes complexas de reconhecimento de padr√Ķes. No c√©rebro humano, n√£o existem etiquetas que nos orientem indicando qual disciplina deve ser usada em que momento. O processamento mental √© um ininterrupto processo de intera√ß√Ķes interdependentes que mistura as nossas habilidades.

√Č o que acontece na pr√°tica da vida. Design gr√°fico ou antropologia s√£o fatias do repert√≥rio humano. As pessoas n√£o precisam de permiss√£o para serem curiosas ou criativas. Nascemos assim. Sempre respondo que somos animais que aprendem. N√£o fiquem acomodados, continuem aprendendo, √© o meu incentivo permanente. Pessoas h√°beis com as m√£os costumam ser intelectualmente mais seguras. Isso os qualifica a aprender com mais facilidade. Portanto, designers aproveitem para aprender mais sobre comportamento humano, ci√™ncia, lingu√≠stica, arte, neg√≥cios, estrat√©gia e hist√≥ria.

Os cientistas comportamentais costumam classificar o que fazemos em duas categorias de atividades: algorítmica e heurística.

Correndo o risco de resumir demais, atividade algor√≠tmica √© a que segue uma sequ√™ncia definida pr√©-estabelecida. Cozinhar seguindo uma receita escrita √© um exemplo t√≠pico. A M√°quina de Touring tamb√©m era um sistema mec√Ęnico algor√≠tmico que encurtou a Segunda Grande Guerra em dois anos. Sua representante atual √© o chatbot na qual o rob√ī que aprendeu sobre a intersubjetividade humana, a pratica com um indiv√≠duo que aceita interagir com uma m√°quina. O trabalho tradicional das empresas do s√©culo XX pode ser classificado como algor√≠tmico porque na maioria das vezes as tarefas eram rotineiras para atender uma necessidade de controle de execu√ß√£o. Agora, a rotina est√° sendo transferida para os equipamentos inteligentes.

A atitude heur√≠stica n√£o √© o oposto, mas uma alternativa de a√ß√£o diante da din√Ęmica da vida. Existem situa√ß√Ķes que n√£o apresentam um padr√£o claro anterior. Assim, voc√™ dever√° testar hip√≥teses e tentar uma solu√ß√£o original. Mesmo diante de situa√ß√Ķes que j√° foram mapeadas e padronizadas, um indiv√≠duo com caracter√≠sticas heur√≠sticas se arrisca em apresentar alguma coisa in√©dita. Ao inv√©s de aceitar solu√ß√Ķes imediatas, tenta-se o diferente. Acomoda√ß√£o n√£o √© uma atitude habitual dos heur√≠sticos que est√£o sempre desafiando o senso comum e os padr√Ķes pr√©-estabelecidos.

O marketing algor√≠tmico √© quando a Amazon ou a Netflix sugerem um produto ou servi√ßo seguindo uma s√©rie de a√ß√Ķes praticadas anteriormente por voc√™ no site delas. Por√©m, uma equipe heur√≠stica gerou um aprendizado para que os algoritmos entrem em contato com voc√™ nas plataformas digitais.

A BBC fez a seguinte pergunta a sete dos maiores experts do mundo em cognição:

Todos sabem que as atividades inconscientes s√£o em maior n√ļmero do que as conscientes. Pela sua experi√™ncia, qu√£o maior √© o inconsciente em rela√ß√£o √† a√ß√£o consciente? Pela estimativa dos especialistas, a consci√™ncia ocupa no m√°ximo 5% do c√©rebro. Todo o resto (95%) √© o reino do inconsciente. Portanto, para economizar energia cerebral e facilitar a sua vida, um humano regular aceitar√° cada vez mais as sugest√Ķes algor√≠tmicas para suas experi√™ncias de tomada de decis√£o.

Seu c√©rebro n√£o consegue administrar bem as 35 mil decis√Ķes di√°rias da sua vida. No balc√£o da sorveteria voc√™ se encolhe diante de dezenas de ofertas de sabores e acaba escolhendo algum padr√£o que j√° lhe satisfez em uma experi√™ncia anterior.

A NASA desenvolveu uma pesquisa para descobrir cientistas e engenheiros criativos. Esse procedimento foi adaptado e aplicado por um casal de psicólogos na população norte-americana. O resultado foi bastante revelador: 98% das crianças entre 3 e 5 anos são altamente criativas. Porém, somente 2% dos adultos de 25 anos foram considerados altamente criativos. Na opinião dos pesquisadores, o declínio da criatividade não é devido à idade, mas aos bloqueios mentais que a educação tradicional infringiu aos estudantes. Ou seja, aprendemos na escola a não sermos criativos e heurísticos.

Se Druker tiver razão e a função básica dos negócios devesse ser somente Marketing e Inovação, quem vai se dedicar à essas atividades? Os 98% não criativos da população usando os 5% da atividade consciente do cérebro? Ou os 2% mais criativos?

Os profissionais algorítmicos conseguem melhorar os processos de controle do mundo que existe, mas são os profissionais heurísticos que criam novos designs de experiências e novos modelos de negócios. Algorítmicos podem ajudar a nossa vida já mapeada. São os heurísticos que criam o que ainda não existe.

Cada vez mais, os designers de experi√™ncia est√£o sendo convocados para participar do redesenho dos produtos e servi√ßos com foco no relacionamento das pessoas, dos grupos, das organiza√ß√Ķes governamentais e n√£o governamentais e da iniciativa privada. Para qu√™? Para recriar o admir√°vel mundo novo, de forma mais sustent√°vel.

¬ęAs habilidades do design e as dos neg√≥cios est√£o convergindo. Para ser bem sucedido no futuro, o pessoal dos neg√≥cios precisa se transformar em designers: mais mestres em heur√≠stica e menos gerentes de algoritmos¬Ľ.

Roger Martin, pensador, autor, consultor de negócios, ex-reitor de uma universidade de administração no Canadá.

Isso já está acontecendo hoje. As empresas da nova economia norte-americana já possuem 52% da sua força de trabalho ocupada por engenheiros de programação e designers de produto com um mindset empático, colaborativo e criativo. O presente está construindo o futuro com profissionais heurísticos e algorítmicos acostumados a trabalhar em equipes transdisciplinares.

A ciência já vem dizendo que o Antropoceno, a Era do Homem, já começou. Já existem indicadores suficientes mostrando que o Holoceno acabou porque o impacto humano já mudou o curso do planeta. Em palavras bem cruas, o design humano mudou o planeta, estamos entrando na Era do Design. O mundo está mudando lá fora, cada vez mais rápido, mude você também.

Retrato de Rique Nitzsche Rique Nitzsche Rio de Janeiro Seguidores: 268

Opini√Ķes:
2
Votos:
1
Compartir:

Colabore com a difus√£o deste artigo traduzindo-o

Traduzir ao espanhol Traduzir ao inglês Traduzir ao intaliano
Código QR para acesso ao artigo O design das experiências humanas

Este artigo não expressa a opinião dos editores e responsáveis de FOROALFA, os quais não assumem qualquer responsabilidade pela sua autoria e natureza. Para reproduzi-lo, a não ser que esteja expressamente indicado, por favor solicitar autorização do autor. Dada a gratuidade deste site e a condição hiper-textual do meio, agradecemos que evite a reprodução total noutros Web sites. Publicado em 03/05/2018

Rique Nitzsche

Mais artigos de Rique Nitzsche

Título:
O design dos negócios
Resumo:
Design não é mais uma estética que se aplicava ao final de um processo. Design é o próprio processo.
Compartilhar:
Título:
Design desde o início da Humanidade
Resumo:
Somos viciados em novidades. ¬ęStorytelling¬Ľ √© uma das novas tend√™ncias do presente. Mas, ela n√£o nasceu ontem.
Compartilhar:
Título:
A interseção entre arte e tecnologia
Resumo:
O design no desenvolvimento dos negócios da Sony e da Apple.
Compartilhar:
Título:
Empatia e design na evolução humana
Resumo:
Empatia é o primeiro atributo que um designer deve possuir.
Compartilhar:

Debate

Logotipo de
Minha opini√£o:

Ingresse com sua conta para opinar neste artigo. Se não a tem, crê sua conta grátis agora.

Retrato de Maria do Carmo Curtis Curtis
0
Maria Do Carmo Curtis Curtis
H√° 11 meses

A sugestão é bastante pertinente, design para experiência é a expressão mais adequada.

0
Responder
Retrato de Ricardo Martins
82
Ricardo Martins
H√° 11 meses

Achei o artigo bem oportuno, e bastante informativo. Concordo 100% com as informa√ß√Ķes sobre como nosso c√©rebro funciona. Pe√ßo permiss√£o para respeitosamente sugerir um ajuste no artigo. Ao inv√©s de dizer ¬ędesign de experi√™ncias¬Ľ, dizer ¬ędesign para experi√™ncia¬Ľ pois n√£o √© poss√≠vel projetar a experi√™ncia de um ser humano, podemos no m√°ximo influenci√°-la.

1
Responder

Lhe poderiam interessar

Retrato de M√°rio Verdi
Autor:
M√°rio Verdi
Título:
Quem inventou que simples não é bom?
Resumo:
Reflex√£o sobre o antigo dilema entre simplicidade e complexidade.
Tradu√ß√Ķes:
Compartilhar:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
15
Opini√Ķes:
9
Seguidores:
7
Retrato de Mariane Garcia Unanue
Autor:
Mariane Garcia Unanue
Título:
Arquitetura, marketing e o design nas cidades
Resumo:
A maneira com que enxergamos nossa cidade depende de como a observamos. Com o projeto dos pontos comerciais não é diferente: eles se comunicam através do design e da arquitetura.
Compartilhar:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
3
Seguidores:
22
Ilustração principal do artigo O passado sombrio do currículo
Autor:
Marco Rinaldi
Título:
O passado sombrio do currículo
Resumo:
O currículo, como o conhecemos, chegou ao fim.
Tradu√ß√Ķes:
Compartilhar:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
10
Opini√Ķes:
1
Seguidores:
73
Retrato de Mariane Garcia Unanue
Autor:
Mariane Garcia Unanue
Título:
A relação entre as pessoas e os espaços que habitam
Resumo:
Pensar a casa nos dias de hoje nos faz refletir como as rela√ß√Ķes entre as pessoas e os lugares mudaram nos √ļltimos anos. O design busca respostas para as demandas atuais.
Compartilhar:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
8
Seguidores:
22