Design X Arte

Um breve ensaio sobre o desespero e a necessidade de ser artista

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√Č curiosa a forma como a Arte toca, de alguma forma, a vida de todas as pessoas, ainda que por¬†espor√°dicos¬†momentos. Seja pela¬†m√ļsica, pintura, literatura ou qualquer outra vertente, todos j√° foram influenciados e transcendidos pela sensa√ß√£o de que¬†quase ¬†subliminarmente, pertencerem a um inconsciente coletivo proporcionado pela subjetividade de variadas obras. O que assusta, entretanto, √© a incessante busca de algumas pessoas para permanecerem nesse campo et√©reo, ainda que isso custe a dissolu√ß√£o de conceitos e supervaloriza√ß√£o de casualidades.

Explico-me: o embate ¬ęDesign X Arte¬Ľ permanece fervoroso tantos nos meios acad√™micos quanto nos profissionais e, na realidade, chega a ser inconveniente pois, muitas vezes, a maioria dos argumentos se justifica pela desesperada tentativa de fus√£o de significados (o que vem a ser at√© preocupante, j√° que algumas opini√Ķes s√£o de profissionais reconhecidos) do que pela observa√ß√£o da realidade e da pr√°tica¬†assim como ela √©.

Mais explicitamente: o apelo √© feito pela etimologia, datas hist√≥ricas e estudos de comportamentos de quando nenhuma das duas atividades/pr√°ticas possu√≠a defini√ß√£o pr√≥pria ou reconhecimento oficial, seja empregat√≠cio ou meramente social. Com isso, alguns defensores da ideia ¬ęDesign=Arte¬Ľ for√ßam a sobreposi√ß√£o de conhecimentos que por si s√≥ n√£o comp√Ķem um significado. Como poder√≠amos, ent√£o, a partir disso, obter uma conclus√£o l√≥gica do que cada atividade representa? Por isso, √© preciso tomar cuidado para que n√£o se deixe o apego pessoal √†¬†arte, o desejo de pertencer a esse inconsciente coletivo, manipular a necessidade de enquadramento em determinado grupo.

¬ęA Arte existe porque a vida n√£o basta¬Ľ, como diz Ferreira Gullar. Para seu exerc√≠cio, √© preciso de pr√°tica, t√©cnica, conhecimento de suas tecnologias, dedica√ß√£o e inspira√ß√£o. Assim como Design. E engenharia. E psicologia, farm√°cia, tecnologia da informa√ß√£o, ci√™ncias sociais, etc. A Arte est√° para o Design assim como est√° para qualquer outra atividade bem executada, que demande uma real apropria√ß√£o da capacidade humana de pensar genuinamente. Simples assim. Isso, entretanto, n√£o torna nenhuma profiss√£o ‚Äď nem mesmo o Design ‚Äď essencialmente Arte.

As manifesta√ß√Ķes art√≠sticas possuem um atributo √ļnico e intr√≠nseco que as diferenciam de toda e qualquer profiss√£o: liberdade de ser subjetiva. Pode ser uma cadeira e n√£o ser ergon√īmica, pode ser um livro e n√£o ser informativo. Pode ser um quadro, sem ser demonstrativo. Pode ser um texto, sem ter opini√£o, etc, etc. √Č assustador, portanto, a desesperada tentativa, de quem quer que seja, n√£o importando a √°rea de atua√ß√£o, de definir seu trabalho como arte quando, deliberadamente, n√£o √©. N√£o s√£o os meios - os m√©todos ‚Äď que definem o prop√≥sito de uma atividade, e sim sua FINALidade.

N√£o: Design n√£o √© Arte. N√£o como conhecemos e desempenhamos ambos hoje, que √© o que realmente os diferencia. Podem-se usar de alguns ve√≠culos e princ√≠pios art√≠sticos de criatividade no Design, mas isso n√£o o torna Arte. Design tem suas especificidades como qualquer outra profiss√£o. Precisamos respeitar e conhecer a essencialidade da atividade que desempenhamos ou almejamos desempenhar para que, s√≥ assim, possamos ter o respeito e reconhecimento de outros profissionais. E, a menos que seja para fins meramente liter√°rios (art√≠sticos) ‚Äď parafraseando autores e se aproveitando de significados vagos ‚Äď, essa compara√ß√£o √©, no m√≠nimo, desequilibrada: ou se sabe muito pouco sobre o que se faz, ou se sabe muito pouco sobre o que deve ser feito.

Retrato de Hugo Moutinho Hugo Moutinho Niterói Seguidores: 4

EdiçãoAna Bossler Porto Alegre Seguidores: 71

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Retrato de Bruno Porto
35
Bruno Porto
Jun 2015

Prezado Hugo, dado o interesse sugiro a leitura de "Design e arte: campo minado. Uma antologia de discursos comentados e uma proposta disciplinar" (2012), dissertação de mestrado de André Stolarski na FAU/USP, orientado pelo Agnaldo Farias:

http://www.teses.usp.br/teses/...

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Retrato de Fabio Lopez
58
Fabio Lopez
Jun 2015

Hugo, por defini√ß√£o, design √© projeto. E engenharia cont√©m projeto, arquitetura cont√©m projeto, gastronomia, cinema, urbanismo tamb√©m. O termo  ľdesign ľ sem um qualificador √© extremamente vago e pode ser ajustado a qualquer √°rea do saber. Inclusive √† arte, o que torna a discuss√£o sobre certas dicotomias algo bastante vago. Arte e design s√£o √°reas muito pr√≥ximas, com fronteiras l√≠quidas e enormes sobreposi√ß√Ķes. Gui Bonsiepe afirma que "o design √© uma atividade fundamental, com ramifica√ß√Ķes capilares em todas as atividades humanas; por isso nenhuma profiss√£o pode pretender ter o monop√≥lio do design". Arte e design podem ser a mesma coisa, ou podem ser coisas muito distintas, dependendo da orienta√ß√£o filos√≥fica e das premissas t√©cnicas que movem cada profissional, bem como prioridades e saberes. Eu ensino projeto. Se o aluno vai usar essa habilidade para desenvolver um produto funcional ou um objeto art√≠stico, faz pouca diferen√ßa conceitual. √Č importante atualizar a compreens√£o dos termos.

2
Retrato de Hugo Moutinho
4
Hugo Moutinho
Jun 2015

Concordo plenamente, Fabio.

Justamente por isso defendo a ideia de que Design não é essencialmente Arte.

Agradeço pelo comentário.

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