Arte, design e ideologia

Sobre o preconceito tenaz que atribui ao design o caráter de área artística.

Retrato de Norberto Chaves Norberto Chaves Barcelona

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Os anathemas extravagantes de Adolf Loos contra as artes aplicadas j√° t√™m mais de um s√©culo de exist√™ncia; mais precisamente, 119 anos. E a profusa bibliografia te√≥rica que, a partir de ent√£o, tem fundamentado a especificidade do design, n√£o conseguiu remover completamente esse preconceito tenaz que ¬ędetecta¬Ľ, nesta √°rea, uma natureza art√≠stica. H√°, portanto, mais de um motivo para supor que, por tr√°s dessa tenacidade, operam fatores condicionantes alheios √† raz√£o anal√≠tica e √† vontade de conhecimento. Procuremos, ent√£o, recriar os mecanismos desse preconceito.

A primeira coisa que se observa nas declara√ß√Ķes a favor do car√°ter art√≠stico do projeto √© a autossufici√™ncia das mesmas: uma taxatividade n√£o requerida de fundamenta√ß√£o. Trata-se de uma ¬ęquest√£o de princ√≠pio¬Ľ: uma cren√ßa. Pois tal hip√≥tese raramente √© submetida √† demonstra√ß√£o. Quema f√≥rmula n√£o apresenta provas; n√£o remete a afirma√ß√£o para o confronto com a realidade, com fatos nos quais isso resulte evidente. A ideia do design n√£o √© nutrida na objetividade de seus produtos, mas em uma representa√ß√£o ideal do seu modus operandi: imagina√ß√£o, criatividade, insight‚Ķ E esses mecanismos s√£o atribu√≠dos √† arte como caracter√≠sticas espec√≠ficas e exclusivas: onde quer que apare√ßa a imagina√ß√£o a arte estar√° operando.

Aqui est√° o primeiro deslize sem√Ęntico que apoia essa ¬ęassocia√ß√£o il√≠cita¬Ľ: considerar que as capacidades universais, presentes em todos os campos da atividade humana, como a imagina√ß√£o ou a criatividade, sejam atributos exclusivos da arte. Se isso √© verdade, todo ser humano seria um artista e todo trabalho humano arte. A arte, como uma categoria, se fundiria com o todo, isto √©, perderia toda especificidade.

Uma segunda opera√ß√£o mental a favor dessa identifica√ß√£o do design com a arte √© produzida por um mecanismo redutor dos referentes reais: a sin√©doque falsa, consistindo em decidir, a priori, quais elementos s√£o representativos do todo. Inconscientemente, s√£o realizadas uma sele√ß√£o e hierarquia dos temas de design em que predominam os aspetos est√©ticos. E elas s√£o elevadas √† gama de paradigmas de design. O espetador, ao pensar sobre o design como arte, pensa em arquitetura singular, moda de vanguarda, cartaz de autor ou mobili√°rio inovador. E, neles, ele ¬ęv√™¬Ľ a presen√ßa da arte. Portanto, prisioneiro de outro preconceito, identifica ¬ęest√©tica¬Ľ com ¬ęarte¬Ľ. Identifica√ß√£o falsa: o est√©tico n√£o √© um atributo exclusivo da arte e existem formas de arte que desdenham o est√©tico.

Para sustentar essa associa√ß√£o, omite espontaneamente, sem pensar, as √°reas do trabalho de design que perturbariam sua hip√≥tese. √Āreas t√£o importantes quanto os m√≥veis de uso atual, ferramentas, equipamentos eletr√īnicos, transportes, equipamentos ortop√©dicos, sistemas de sinaliza√ß√£o, publica√ß√Ķes, meios de informa√ß√£o p√ļblicos ou programas inform√°ticos. √Č uma sele√ß√£o intencional que exclui o que n√£o corresponde √† hip√≥tese. Um mecanismo espec√≠fico de preconceito: ¬ęaquela ra√ßa cheira mal¬Ľ.

Uma definição teoricamente rigorosa de qualquer conjunto deve ser verificada em todos os componentes desse conjunto. Lógica elementar: Teoria dos Conjuntos. Se alguém leva em conta o vasto campo do trabalho de design, os temas supostamente próximos da arte tornam-se anedóticos e sua conexão com ele, meramente aparente. Bem, como já foi dito, o estético também não é um atributo exclusivo da arte. Em suma: quem confunde o design com arte faz isso não só porque ignora o que é design, mas também porque ignora o que é arte.

E aqui cabe, ent√£o, ir mais longe e nos perguntar: como √© poss√≠vel que as pessoas normalmente educadas ‚Äď profissionais e at√© professores ‚Äď que n√£o s√£o estranhas ao fen√īmeno do design, cometem tantos erros na defini√ß√£o da disciplina? N√£o h√° outra resposta do que a latente em nossa hip√≥tese inicial: √© o efeito do condicionamento ideol√≥gico que confunde o exerc√≠cio da raz√£o anal√≠tica. Sob a press√£o dessas condicionantes, sem sequer perceb√™-las, vemos na realidade o que precisamos ver, antes de mir√°-la.

Essas falsas identifica√ß√Ķes de imagina√ß√£o e criatividade com a arte e aquela restri√ß√£o dos produtos de design a pe√ßas mais est√©ticas ou ¬ęinspiradas¬Ľ s√£o o resultado de uma necessidade ideol√≥gica de superestimar a disciplina, resgatando-a do n√≠vel ¬ęp√©-no-ch√£o¬Ľ do trabalho produtivo e artes√£o, para inclu√≠-lo em uma suposta forma suprema de cria√ß√£o cultural: a Arte. Outro preconceito.

Por tr√°s desse mecanismo mental n√£o √© dif√≠cil detectar uma ideologia do setor social: uma certa classe m√©dia profissional que vitalmente precisa legitimar sua superioridade social. Um setor da classe que n√£o pode suportar ser despojado dessa ¬ęaureola¬Ľ ‚Äď j√° descrita por Marx ‚Äď que o instala no Parnassus dos eleitos, separando-os dos trabalhadores modestos... Como se os verdadeiros artistas tamb√©m n√£o fossem trabalhadores modestos.

A classe m√©dia foge de suas origens como do inferno. Precisa ¬ędesproletarizar¬Ľ reivindicando para si a autonomia total e o privil√©gio da cria√ß√£o livre.

Traduzido por Luiz Claudio Gonçalves Gomes Campos Dos Goytacazes

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Norberto Chaves

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