A tomada de decisão por trás da inovação

Por trás do sucesso, existe um empreendedor que, mesmo diante de um risco considerável, acredita em uma hipótese criativa que fara a diferença.

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O governo ingl√™s estava diante de um evento hist√≥rico¬†complicado que tinha tudo para dar errado. Empolgados por uma ideia inicial contagiante, os respons√°veis come√ßaram finalmente a perceber que realmente¬†n√£o haveria¬†solu√ß√£o poss√≠vel para tal¬†complexidade in√©dita no mundo. O comit√™ respons√°vel pelo andamento da empreitada acabara de rejeitar todos os 245 impratic√°veis projetos recebidos em¬†concurso p√ļblico que pretendia resolver o problema. O des√Ęnimo do seleto grupo chegou ao m√°ximo ao perceber que estavam tratando com¬†uma vis√£o ambiciosa inating√≠vel.

Como eram pol√≠ticos, fizeram o que a pol√≠tica sugere diante das situa√ß√Ķes constrangedoras: fugiram da responsabilidade e criaram outra comiss√£o de especialistas com um t√≠tulo mais pomposo. Quatro homens foram escolhidos para enfrentar uma situa√ß√£o quase insustent√°vel. Eles deveriam criar e desenvolver um projeto para a realiza√ß√£o da maior exposi√ß√£o da hist√≥ria da humanidade a ser inaugurada em 10 meses, dentro de um or√ßamento j√° reduzido pelas anteriores tentativas frustradas.

Entre os especialistas que assumiram o desafio, estava um g√™nio criativo sem limites, um engenheiro capaz de vis√Ķes grandiosas com a capacidade de realiza√ß√£o inacredit√°vel. Por√©m, o resultado do trabalho em conjunto resultou em uma nova frustra√ß√£o. A solu√ß√£o projetada era inadequada, n√£o est√©tica e com caracter√≠sticas inadequadas¬†que ultrapassavam a verba e a tecnologia dispon√≠vel.

No impasse, que beirava o desespero, surgiu um humilde jardineiro que resolveu a crise.

Pode parecer um roteiro de filme, mas n√£o foi fic√ß√£o, foi uma hist√≥ria real de sucesso. Paxton, o jardineiro, criou, detalhou e gerenciou a constru√ß√£o do maior edif√≠cio criado pelo homem, sem tijolos, totalmente pr√©-fabricado, em 35 semanas com um or√ßamento modesto de 80 mil libras que atendia a todas as especifica√ß√Ķes e expectativas do governo ingl√™s. A m√≠dia criou um clich√™ para os problemas insol√ļveis: ¬ęPergunte ao Paxton¬Ľ. Depois desse feito tecnol√≥gico, foi reverenciado como arquiteto e nomeado para o Parlamento, transformado em Sir Joseph Paxton.

Essa √© uma vers√£o resumida e inacreditavelmente verdadeira sobre o Pal√°cio de Cristal,1 a maravilhosa edifica√ß√£o que encantou o mundo civilizado na Grande Exposi√ß√£o dos Trabalhos da Ind√ļstria de Todas as Na√ß√Ķes de 1851, erigida no Hyde Park em Londres. Nunca antes a humanidade havia empreendido um evento como esse. A ideia inicial era maravilhar o mundo com as inova√ß√Ķes do progresso da ind√ļstria. Mais ainda, fazia parte do evento, demonstrar o poderio do imp√©rio ingl√™s, a maior pot√™ncia econ√īmica daquela √©poca.

Se o edifício era uma inovação radical, a sua construção foi um exemplo de eficiência. Equipamentos, máquinas e plataformas foram inventadas somente para a instalação das 33 mil treliças de ferro e dos 90 mil m2 de painéis de vidro. A experiência de passear dentro do palácio, que incluía uma mini floresta, foi descrita na época como vertiginosa pelos usuários e confirmada pela imprensa boquiaberta.

A improv√°vel hist√≥ria serve de introdu√ß√£o para in√ļmeras conclus√Ķes. Talvez que pessoas desesperadas tamb√©m podem tomar decis√Ķes corretas. Ou que a cesta ou o gol decisivo podem acontecer nos √ļltimos segundos do jogo. Que a vida real √© mais surpreendente do que a arte. Enfim, podemos olhar a historia¬†e recont√°-la¬†como quisermos.

Mas, o que aconteceu? Em primeiro lugar, a solu√ß√£o veio de quem n√£o estava mergulhado dentro do problema. Todos os especialistas envolvidos s√≥ pensavam em erigir um enorme pr√©dio tradicional que, depois da exposi√ß√£o, deveria ser demolido gerando um entulho inc√īmodo. Paxton imaginou um pal√°cio et√©reo de vidro emoldurado de ferro, como uma esplendorosa estufa, que poderia ser desmontada e reciclada depois. Em segundo lugar, a iniciativa criativa surgiu de algu√©m que n√£o se intimidava em projetar arquitetura ou engenharia mesmo fora da sua ¬ęcaixa¬Ľ de jardineiro. Finalmente, um m√©rito para os respons√°veis, mesmo relutantes, que aceitaram uma inova√ß√£o vinda de ¬ęfora¬Ľ, como um processo de open innovation, mais de um s√©culo e meio antes da express√£o existir.

Atrav√©s da minha experi√™ncia pr√≥pria, com dezenas de anos envolvido em incont√°veis projetos, entendo essa hist√≥ria dessa forma. Posso afirmar que atr√°s de todos os desafios bem sucedidos dos quais participei sempre existiu um empres√°rio, um tomador de decis√£o admir√°vel. Por tr√°s de um sucesso, existe algu√©m que, mesmo diante de um risco consider√°vel, resolve acreditar em uma hip√≥tese criativa que fa√ßa a diferen√ßa. Mais do que tomar uma decis√£o, essas pessoas assumem a responsabilidade entre a falha e o sucesso. Mas, inova√ß√£o √© risco assumido. Reconhe√ßo que tomar decis√Ķes inovadoras pode assustar os homens de neg√≥cio, mesmo os mais ousados.

No caso do Pal√°cio de Cristal, quem aprovou o plano mirabolante de Paxton, com alguma compreensiva hesita√ß√£o, foi o Comit√™ de Edifica√ß√£o Real no qual estava o famoso engenheiro empreendedor Isambard Kingdom Brunel, her√≥i declarado de Tim Brown da IDEO. Parab√©ns para a decis√£o de entregar ¬ęo edif√≠cio mais ousado e emblem√°tico do s√©culo¬Ľ nas m√£os criativas de um jardineiro. Todos entraram para a hist√≥ria.

Aqui cabe o meu agradecimento aos empresários visionários que, durante a minha carreira, se arriscaram em aprovar planos nos quais nós não podíamos provar de antemão que iriam dar certo. Na metodologia do design thinking, usa-se a ferramenta da iteração científica que, de erro e acerto até o sucesso, diminui a incidência do fracasso. Paxton já havia tentado e conseguido projetar e implantar muitas estufas, algumas que aceitavam carruagens dentro de suas aléias e caminhos. Todas essas estufas anteriores serviram de protótipos para o grande projeto da sua vida. Errando e acertando, ele estava pronto quando a oportunidade surgiu. O primeiro esboço foi em um mata-borrão. Em duas semanas completou sua apresentação.

Em programa recente do jornalista e entrevistador Charlie Rose, Bill Gates falou sobre sua admira√ß√£o sobre Steve Jobs. Ele disse que a Microsoft havia desenvolvido muitos tablets antes da Apple. Mas foi Jobs que se arriscou e acreditou na inova√ß√£o, centrado na experi√™ncia do usu√°rio e no design diferenciado. ¬ęForam eles [Apple] que conseguiram fazer do dispositivo um sucesso. O senso de design de Jobs mostrava que tudo deveria atender uma est√©tica. E de fato ele, com sua pequena bagagem de engenharia, provou que o design pode conduzir um produto em uma dire√ß√£o certeira¬Ľ. Apesar do enorme e inc√īmodo sucesso de Jobs, Gates sempre se referiu a ele como um profissional com poucos conhecimentos t√©cnicos, como um ¬ęjardineiro¬Ľ no meio de engenheiros e programadores. J√° Jobs, em um document√°rio de 1996, dizia que ¬ęEles [Microsoft] n√£o colocam cultura em seus produtos¬Ľ.

No passado, inova√ß√Ķes simplesmente eram acontecimentos n√£o esperados. A evolu√ß√£o do conhecimento era uma constru√ß√£o linear, tijolo sobre tijolo. Hoje, a velocidade dos acontecimentos √© exponencial, tornando os problemas complexos demais para serem resolvidos de¬†forma linear. As vari√°veis n√£o sao est√°ticas, as metas podem ser confusas¬†e os processos n√£o s√£o mais lineares. Ao inv√©s de continuar tentando resolver problemas da forma tradicional, dever√≠amos investir na constru√ß√£o de uma cultura de inova√ß√£o aberta nas empresas, no governo, nas nossas vidas. Inova√ß√£o n√£o deve ser algo desconhecido, apenas para poucos ou um assombro, mas uma cont√≠nua forma de viver e melhorar o mundo. Posso afirmar que o processo do design thinking ajuda a entender e a organizar os neg√≥cios humanos. Atrav√©s de uma cultura de inova√ß√£o permanente, tanto o criador como o empres√°rio tornam-se c√ļmplices na aventura da transforma√ß√£o do mundo para melhor.

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Edición: Marcio Dupont São Paulo Seguidores: 65

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  1. Bill Bryson, Em casa. Uma breve história da vida doméstica, a partir da página 21, capítulo Aquele Ano, editora Companhia da Letras, 2010.
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Retrato de Gilberto Strunck
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Gilberto Strunck
Jul 2013

MUITO bom! Parabéns.

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Retrato de Jorge Monta√Īa
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Jorge Monta√Īa
Jun 2013

Muito bom.. Excelente artigo e uma bonita historia para compartilhar no futuro. Para nos designers fica a leição: As melhores ideias vem sempre de clientes, parceiros, meninos ou pessoas aparentemente ignorantes que por ser-lho estão libres de preconceitos que os designers bitolados por tanta metodologia as vezes nao percebem. Fica a nos facilitar os processos de innovação em um entorno horizontal. Parebens Rique. Do melhor que já lí por aqui, Nosso amigo Marcio devera fazer a tradução pois merece mesmo.

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