Retórica e design: a experiência brasileira

O Brasil mostra como o auge do seu design está enraizado em uma conexão com a cultura bem como numa vinculação benéfica entre teorias e prática.*

Retrato de Alejandro Tapia Alejandro Tapia Ciudad de México

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A retórica deve ser entendida como a habilidade de descobrir os lugares de pensamentos que movilizam um grupo a alcançar seus objetivos e projetá-los na vida cotidiana dos cidadãos de uma forma acessível e prática.

No passado, por exemplo, durante a coloniza√ß√£o de Am√©rica, esse princ√≠pio abrangia as palavras, as imagens, os modelos arquitet√īnicos e urbanos e, por isso, temos de pens√°-lo como uma disciplina relevante ao design. Contudo, no mundo hispano-americano a profiss√£o de designer tem sido desvinculada da ret√≥rica e, por consequ√™ncia, desarticulada das demais disciplinas relacionadas √† cultura, com o design sendo visto como alheio a outros assuntos decisivos dos pa√≠ses. Os debates sobre design no mundo hispano-americano continuam sendo muito pobres, pios, se movem em torno da tradi√ß√£o formalista em que o design se inscreveu em nossa academia, ou os debates concebem o design como uma atividade muito sofisticada de servi√ßo, ao qual n√£o se pode propor metas maiores.

Observamos que, entre n√≥s, o design se discute a partir do design, com o design e para o design, fazendo com que as discuss√Ķes sejam sempre pouco f√©rteis. Nos acostumamos a isso da maneira em que fizemos com, por exemplo, a televis√£o, que consideramos intrinsecamente pobre, mas n√£o lhe exigimos que seja mais do que isso. A perspectiva ret√≥rica justamente nos obriga a perguntar se isso realmente √© inevit√°vel, ou se foram as civiliza√ß√Ķes que constru√≠ram isso dessa maneira, considerando que esse cen√°rio tamb√©m pode ser repensado.

Observando essa situa√ß√£o, decidimos voltar nossos olhos a um dos nossos vizinhos latino-americanos onde as coisas poderiam estar acontecendo de outra maneira. Da fato, os √ļltimos eventos que realizamos em nossa Universidade contaram com designers brasileiros, e suas palestras enriqueceram nosso campo, contribuindo para iniciarmos pesquisas e nos permitido conhecer outro contextos. Essa experi√™ncia tamb√©m nos trouxe novos projetos, oportunidades que foram criadas a partir de visitas ao Brasil e lugares onde se faz e se pensa design.

Todos reconhecem que o design brasileiro vive um auge significativo. Podemos considerar que essa boa fase √© o resultado de uma fecunda atividade ret√≥rica, porque o design se assume como uma atividade relacionada √† cultura, em que se estuda a condi√ß√£o civilizat√≥ria na qual se movem seus projetos a fim de postular as coloca√ß√Ķes conceituais pr√≥prias frente ao mundo e para sua gente. Em seu livro ¬ęO Ef√™mero e o Par√≥dico, cr√īnicas e ensaios sobre design¬Ľ, Claudio Ferlauto, professor da Universidade de S√£o Pablo (USP), assinala a necessidade de formar designers em fun√ß√£o das habilidades ret√≥ricas, pois esse profissional deve ser capaz de dispor suas linguagens e estimular a percep√ß√£o sobre o que √© necess√°rio ver e sobre o que √© desconhecido. Isso implica saber utilizar as met√°foras, as ironias, as meton√≠mias.

O designer Andr√© Stolarsky mostrou isso bem no Congresso realizado em Aguascalientes, em 2007, pela Associa√ß√£o de Escolas Mexicanas (Encuadre). Seus projetos falavam dessa posi√ß√£o, em que o movimento cultural do pa√≠s √© visto no design com uma alta qualidade gr√°fica, como seu projeto para o CD ¬ęA pessoa √© para o que nasce¬Ľ ou suas embalagens para produtos agr√≠colas de fam√≠lias rurais.

Andr√© tamb√©m mostrou trabalhos de outros designers brasileiros onde a habilidade ret√≥rica foi ressaltada pela aud√°cia de compreender o ambiente. Um deles foi a ambienta√ß√£o de um evento de negocia√ß√£o da Nokia, desenvolvido com as caracter√≠sticas tradicionais das feiras de rua. Os visitantes se sentiram muito mais c√īmodos e relaxados em suas posturas de negocia√ß√£o porque o ambiente informal aproximou as empresas de seus clientes.

Guia Marketing Promocional, MG. Ambiênte informal para aproximar a uma empresa com os seur clientes, ano 2003
Guia Marketing Promocional, MG. Ambiênte informal para aproximar a uma empresa com os seur clientes, ano 2003.

A índole do design brasileiro tem essa característica porque sua produção está vinculada à reflexão teórica e acadêmica. O Brasil conta com vários mestrados e doutorados em design, com muitas teses, editoriais especializados e seminários de estudo acontecendo no conjunto de suas universidades. O design se faz nesses ambientes para postular um ponto de vista próprio, competitivo e que procura seus próprios elementos para relacionar-se com o mundo.

Paula Delecave, Favelit√©, Collage para representar uma favela na esta√ß√£o do metr√ī Luxenbourg, em Par√≠s, ano 2005.
Paula Delecave, Favelit√©, Collage para representar uma favela na esta√ß√£o do metr√ī Luxenbourg, em Par√≠s, ano 2005.

O ponto fundamental é que o país tem um projeto cultural e político mais amplo do que o próprio design, que o envolve e o conduz a afinar seus próprios marcos de referências conceituais, dando-lhe um respaldo de pensamento ao combinar fortemente teoria e prática.

√Č claro que esse projeto do pa√≠s tem bases hist√≥ricas, tendo sido desenhado ao longo do tempo com o trabalho de historiadores, antrop√≥logos, liter√°rios, fil√≥sofos, humanistas e cr√≠ticos sociais que tra√ßaram a dire√ß√£o para ganhar autonomia frente √†s diretrizes tra√ßadas pela cultura ocidental, como aconteceu nas obras de Luis da C√Ęmara Cascudo, Darcy Ribeiro, S√©rgio Buarque de Holanda, Guimar√£es Rosa ou Milton Santos, que perfilam uma maneira estimulante de confrontar o pr√≥prio futuro do pa√≠s.

Uma linha de trabalho plenamente constitu√≠da √©, por exemplo, a que articula a literatura com o design. Tivemos uma experi√™ncia muito significativa ao visitar Minas Gerais, em convite do arquiteto Luis Antonio Jorge, da USP. Luis Antonio trabalhou em cima da literatura de Jo√£o Guimar√£es Rosa para realizar o projeto da Casa Cultura do Sert√£o, uma arquitetura baseada nos carros de bois que figuram nos textos de G. Rosa. A casa n√£o s√≥ d√° um forte sentido de pertencimento aos habitantes, como tamb√©m est√° em sincronia com o conjunto de atividades da popula√ß√£o rural do lugar: a m√ļsica, a comunica√ß√£o visual, os produtos culin√°rios, o teatro, o trabalho e a administra√ß√£o local. Isso gera uma sofisticada articula√ß√£o que resulta em uma identidade n√£o-corporativa baseada na literatura e na cultura e n√£o em marketing urbano.

O carro dos bois descrito em G. Rosa, ilustração de Luis. A. Jorge.
O carro dos bois descrito em G. Rosa, ilustração de Luis. A. Jorge.
Artesanía rosiana; Interior e exterior da Casa da Cultura, homenajeando o Morro que dá nome ao conto e uma das Contadoras de Estórias Miguilim.
Artesanía rosiana; Interior e exterior da Casa da Cultura, homenajeando o Morro que dá nome ao conto e uma das Contadoras de Estórias Miguilim.

O que se destaca desta experiência é que uma abordagem erudita da literatura produziu um design eficiente para a população, colocando o interior do Brasil como parte da matriz relevante de identidade ao país. Em São Paulo, já dentro da esfera urbana, esta matriz do interior seco e rural do sertão motivou também obras de arquitetura como o centro cultural SESC Pompeia, um dos mais visitados na cidade.

Sem d√ļvida, a aflu√™ncia constante entre as investiga√ß√Ķes te√≥ricas e as decis√Ķes pr√°ticas foi o que deu ao design brasileiro o car√°ter que possui hoje, um dos elementos vitais da vida cultural e econ√īmica do pa√≠s. Por esse motivo que n√£o s√≥ o Minist√©rio da Economia aprovou Pol√≠ticas de Design que interessam a toda Am√©rica Latina, como tamb√©m o Minist√©rio da Cultura incluiu design como parte de seu programa.

O paradoxo no caso brasileiro é que, apesar de uma história problemática e cheia de violência, a conexão entre design e cultura se tornou forte, mobilizando amplamente o país, o que não parecia possível há poucas décadas. E isso coincide com a definição de retórica de autores como Donald Bryan, que disse:

¬ęA ret√≥rica √© o m√©todo, o organismo dos princ√≠pios para decidir melhor as quest√Ķes que s√£o indecis√≠veis, para chegar a solu√ß√Ķes perante os problemas que s√£o insol√ļveis, para instituir um m√©todo nessas fases vitais da atividade humana onde n√£o existe um m√©todo inerente √† mat√©ria de que se ocupa uma decis√£o. A arte de resolver esse tipo de problemas √© a ret√≥rica¬Ľ.

O design brasileiro é um bom caso para se observar esse princípio. A fertilidade desse design é mantida por meio de sua relação viva com as disciplinas humanísticas. A América Latina deveria incluir essa experiência em sua reflexão.

Traduzido por Abc Design Curitiba

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Retrato de Alejandro Tapia
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Alejandro Tapia
Out 2012

Agradeco o seus comentarios. Realmente gosto de muitos fenomenos que ocorrem con o design no Brasil, e penso que √© util a reflexao sobre eles no contexto latinamericano. A referenca de Ferlauto partilhou do seu livro, mais √© boa a aclaracao. Concordo con o que diz Magno Silveira e conheco bem o Museu da Lingua Portuguesa, que tem proyetos bem interessantes, uma nova forma de comprender os museus. E M√°rcio, por favor env√≠e aqui a refer√©ncia do projeto de leitura, seria bem √ļtil para mim conhecer.

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Retrato de Olivia Pezzin
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Olivia Pezzin
Out 2012

Claudio Ferlauto não é professor da USP. Ele deu aula na FAU-USP de 1976 a 1988. Hoje ele dá aula na FAAP e Anhembi-Morumbi.

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Retrato de Alejandro Tapia
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Alejandro Tapia
Out 2012

Agradeco o seus comentarios. Realmente gosto de muitos fenomenos que ocorrem con o design no Brasil, e penso que é util a reflexao sobre eles no contexto latinamericano. A referenca de Ferlauto partilhou do seu livro, mais é boa a aclaracao.

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Retrato de M√°rcio Moreira Lambert
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M√°rcio Moreira Lambert
Set 2012

Alejandro, muito oportuna a leitura de seu artigo. Aqui na Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG, onde leciono, desenvolvemos no √ļltimo ano um projeto muito rico em rela√ß√£o √†s quest√Ķes que voc√™ pontua. Um projeto de leitura e desenvolvimento de produtos e comunica√ß√£o para um significativo trecho do circuito Estrada Real (antigo caminho de transporte do ouro do interior para o litoral). Analise do ambiente, cultura, manifesta√ß√Ķes vernaculares...enfim, um projeto para o seu pr√≥prio ambiente. Vou ver se consigo lhe enviar via Foro Alfa.

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Retrato de Alejandro Tapia
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Alejandro Tapia
Out 2012

M√°rcio, por favor env√≠e aqui a refer√©ncia do projeto de leitura, seria bem √ļtil para mim conhecer.

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Retrato de Magno Silveira
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Magno Silveira
Set 2012

Alejandro, seu artigo é muito pertinente. Existem projetos ambientais muito bem elaborados no Brasil, como o da inauguração do Museu da Língua Portuguesa, com o Grande Sertão: Veredas e a grande exposição Brasil 500. Mas quando olhamos as marcas da Copa 2014 e a Rio2016, eventos importantes e mundiais, vemos como o Brasil ainda é fraco no design das marcas gráficas e de identidade visual. Lamentável, porque são 2 eventos que poderiam nos afirmar como um país amadurecido na sua identidade. As duas marcas citadas são simplesmente tímidas e não inovam em nada. Há 20 anos atuo no mercado de marcas

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Retrato de Alejandro Tapia
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Alejandro Tapia
Out 2012

gradeco o seus comentarios. Realmente gosto de muitos fenomenos que ocorrem con o design no Brasil, e penso que é util a reflexao sobre eles no contexto latinamericano. Concordo con o vc diz e conheco bem o Museu da Lingua Portuguesa, que tem proyetos bem interessantes, uma nova forma de comprender os museus.

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