Objetos que são avatares dos serviços

Uma reflexão acerca dos objetos que, no século XXI, se tornam avatares de serviços, como o carro para o serviço de locomoção entre dois lugares.

Retrato de Érico Fileno Érico Fileno Curitiba

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Será possível viver em uma grande cidade e não possuir um automóvel particular para se locomover dentro do espaço urbano? Se você mora em uma cidade onde há uma boa infraestrutura de transporte coletivo ou um fomento pelo uso da bicicleta, a resposta afirmativa fica mais simples. Caso contrário, o uso do carro até se torna aceitável pelas pessoas. Mas será que as cidades comportam o número crescente de carros em suas ruas?

Para tentar responder isso, devemos olhar para o carro não como um objeto ou um bem de consumo. Essa relação material entre nós e os carros nos leva a criar outros links relacionais: «O carro me dá poder», «Eu posso ir e vir com ele», «É um símbolo de liberdade», «É um sinal de status», «É minha conquista financeira e profissional». Todos esses argumentos sustentam a posse de ter um carro. Será?

Construir coisas faz parte da nossa constituição social e é um dos pilares da nossa evolução cultural. Nós, seres humanos, somos construtores de coisas. E da mesma forma que os carros nas cidades, será que o nosso mundo comporta mais coisas que construímos?

Precisamos refazer a pergunta para as coisas que encontramos no nosso dia a dia. Ao ver um carro, devemos perguntar para que serve. O real sentido da existência daquele carro é a sua utilidade. Ao nos perguntarmos para que serve um carro, a resposta é mais direta: «Um carro serve para nos locomover».

Por essa ótica, podemos pensar o carro como uma materialização de uma utilidade, de um serviço. Da mesma maneira que um avatar é a personificação de um deus dentro da tradição religiosa do hinduísmo, um carro é um avatar do serviço de locomoção. E dentro da rede desse serviço, podemos encontrar muitos outros avatares, que podem ou não estarem conectados para construir uma experiência de uso mais rica e mais significativa para as pessoas.

Foi com esse olhar e essa liberdade projetual que uma consultoria inglesa conseguiu compreender a rede de valor do transporte e conseguiu ajudar uma startup local a repensar o uso dos carros nas cidades. Isso só foi possível ao enxergar o carro como um avatar, uma personificação do serviço de mobilidade.

Ao propor que um carro poderia ser alugado de uma forma mais simples e que ele poderia estar conectado à rede de transporte urbano, foi desconstruído a figura do carro como um bem de consumo e o colocou no patamar de um avatar de um serviço bem maior: locomover-se dentro da cidade e por fora dela.

Que outros avatares podemos pensar que personificam o serviço de locomoção dentro das cidades do século XXI?

Editor: Ines Reis London

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Érico Fileno

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