O sistema

Sobre os modelos racionais e industriais na educação contemporânea e o quase fim dos caminhos emocionais.

Retrato de Andre Bello Andre Bello Rio de Janeiro

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«We don’t need no education,
We don’t need no thought control,
No dark sarcasm in the classroom,
Teachers leave them kids alone».

Another Brick In The Wall, Pink Floyd​​

Não por coincidência a influência dos fundamentos baseados na razão alcançaram os modelos educacionais que perduram até hoje. Na era medieval a educação formal era restrita à igreja e portanto ao catolicismo. Apesar de toda a pressão renascentista propondo uma escola distante das questões religiosas, o poder do conhecimento, já àquela época, começava a ficar evidente. As massas eram manobradas segundo interesses políticos da classe dominante. A educação e conhecimento eram privilégio de poucos e mesmo assim seguia premissas religiosas, talvez até tendenciosas.

A Revolução Francesa foi um grande passo para a educação livre. Em 1816 foi inaugurado o que seria a primeira escola nos moldes do que conhecemos hoje. Era um instituto de formação do caráter para jovens, que cuidava dos filhos dos operários de uma fábrica na Escócia. Dentro de um contexto totalmente impregnado pela indústria que se desenvolvia ao ritmo de uma revolução, por sorte ou azar, as escolas passaram a ser vistas como ambiente de treinamento dos jovens para engrossar as frentes de trabalho das fábricas, que por sua vez eram baseadas em… linhas de produção.

A consequência é fácil deduzir: um modelo de educação no qual o input era o cidadão miserável e explorável e o output eram mais peças para o grande arsenal industrial. Havia um explícito movimento de uniformização das pessoas. Os padrões eram rígidos, a cultura intransigente. Nessa época era pensada a quantidade e não a qualidade. E esta maneira de pensar influenciou diretamente o processo educacional. Observando uma antiga reprodução de uma sala de aula do século XIX nota-se alguns aspectos interessantes como a disposição em fila das carteiras dos estudantes, a postura clássica do professor autoritário. Um detentor do saber transmitindo, unidirecionalmente, o conhecimento para muitos.

Avancemos 150 anos no tempo. Haveria de se esperar que o processo educacional e o processo industrial avançassem no mesmo ritmo, na mesma direção. Ao que parece isso não ocorreu. Observando uma fotografia dos anos 50, nota-se exatamente as mesmas características: mesma forma de acomodar os alunos em sala de aula, mesma postura autoritária do professor. Como diferença sutil, no entanto, podemos observar que nas escolas do início e meados do século XX os alunos eram separados entre meninos e meninas, por idade, exigindo-se deles conhecimentos «formatizados». Usavam todos os mesmos uniformes, o mesmo corte de cabelo e obedeciam todos aos mesmos critérios para medir seus resultados. Não era sequer permitido escrever com a mão esquerda: todas as crianças deveriam ser destras!

Típica turma de estudantes. Somente mulheres. Mesmas roupas, mesmos cortes de cabelo. Foto de 1958.

Estávamos na mesma linha de montagem que se mantinha intocada por muitos e muitos anos. Fazendo uma analogia a celebre frase de Henry Ford — «O cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto» —, os alunos provavelmente poderiam se interessar e aprender o que quisessem, desde que estivesse na grade curricular.

Emoções postas de lado. Criatividade censurada. Individualidades ignoradas. Um exército marchando seus intelectos, todos, para a mesma direção. Um mecanismo denso e eficiente que não aceitava quem não andasse na linha.

O que diria um certo Professor Keating, interpretado por Robbin Willians no filme «A Sociedade dos Poetas Mortos» – ao constatar a morte de um aluno de um tradicionalíssimo internato, em 1959, que enveredou pelo campo das artes e cometeu suicídio devido às pressões sociais e familiares? Talvez tenha percebido que mais uma grande etapa da humanidade foi percorrida sem pisar naquele «primeiro grande caminho», primitivo, que era trilhado através do instinto e da intuição, da emoção e da criatividade. Esse caminho há muito fora esquecido…

Editor: Marcio Dupont São Paulo

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