O pensamento ancestral

Sobre como o primal instinto de sobrevivência do homem dava lugar à uma primitiva cultura projetual e da razão.

Retrato de Andre Bello Andre Bello Rio de Janeiro

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Come on baby, light my fire
come on baby, light my fire
try to set the night on fire
‚Äčmy Fire

The Doors

Imagine como era a vida dos homens das cavernas. Coloque-se momentaneamente em seu lugar. Imagine a quantidade de adversidades que era obrigado a enfrentar diariamente. Forças da natureza, predadores naturais e a busca incessante pela comida. Doenças, acidentes, enfim, eram literalmente sobreviventes do ambiente. Era matar ou morrer.

Quando encontravam algum abrigo adequado ‚Äď uma caverna, por exemplo ‚Äď certamente ocupavam o espa√ßo e ali se mantinham em seguran√ßa pelo maior tempo poss√≠vel. Talvez pudessem at√© esbo√ßar alguma log√≠stica para armazenar alimentos e aumentar suas chances de sobreviv√™ncia. Provavelmente desfrutavam por alguns momentos uma sensa√ß√£o de seguran√ßa enquanto as feras espreitavam do lado de fora, numa disputa para saber quem resistiria √† fome por mais tempo.

A sensa√ß√£o de seguran√ßa logo passava e dava lugar √† necessidade de¬†alimento. N√£o poderiam ficar muito tempo enclausurados dentro de uma caverna e precisavam enfrentar o mundo do lado de fora. Pelo menos at√© conseguir mais alimento e voltar para a tempor√°ria seguran√ßa de suas incipientes moradias ou migrar para outras √°reas em busca de mais alimentos. Eram n√īmades. A fome fez o homem sair das cavernas para um ambiente onde os erros eram imperdo√°veis. Eram fatais. E de alguma forma o homem passou gera√ß√Ķes e gera√ß√Ķes, milhares de anos, aperfei√ßoando a arte de n√£o errar, sob a pena de pagar com a pr√≥pria vida.

Surge ent√£o a figura do primeiro ser que, pela necessidade, deveria transformar a natureza. Foi o primeiro homem que fez valer seu poder de observa√ß√£o, explorou as possibilidades naturais e as adaptou para sua sobreviv√™ncia. Criou¬†o n√£o natural ‚Äď o artificial ‚Äď e se transformou assim¬†no primeiro designer da hist√≥ria, num pico de criatividade instintiva for√ßada pela sobreviv√™ncia. A pedra lascada foi seu primeiro projeto, mas como todo grande projeto, n√£o era definitivo. Vieram depois artefatos de osso e madeira, auxiliando na ca√ßa, nas vestimentas, etc. Estava se adaptando para permanecer mais tempo fora da caverna, numa jornada mais longa. O jogo estava virando √† favor do homem. Neste momento entra em cena mais uma vari√°vel: matar, morrer ou moldar-projetar¬†a natureza a seu favor.

A conquista e controle do fogo foram sem d√ļvida grandes passos para o desenvolvimento do homem e potencializou sua voca√ß√£o de mero sobrevivente, colocando-o no potencial patamar de intelig√™ncia dominante. Extraindo a energia dos materiais o fogo protegia os homens do frio, dos predadores e era usado como ferramenta estrat√©gica para encurralar a ca√ßa. Como se n√£o bastasse, a digest√£o dos alimentos cozidos ficou mais eficiente. A mesma quantidade de alimentos agora proporcionava mais energia. Era como se o homem literalmente se alimentasse do fogo.

No entanto, talvez a maior contribuição que o fogo possa ter prestado ao desenvolvimento do homem enquanto espécie, foi a possibilidade de se reunirem ao redor de uma fogueira, em relativa segurança e poderem iniciar um relacionamento de fato social. O fogo agregou as pessoas. O fogo catalisou relacionamentos e permitiu que as experiências pessoais de cada indivíduo pudessem ser trocadas através de uma linguagem até então muito rudimentar, com poucos sons emitidos. Em algum momento começaram a raciocinar. O instinto primitivo de sobrevivência dava lugar à uma primitiva cultura da razão.

A sociedade começava a se modelar. A agricultura e a domesticação de animais possivelmente decorreram da troca do rarefeito conhecimento, quem sabe até ao redor de uma fogueira. O homem passava da Idade da Pedra Lascada e chegava à Idade da Pedra Polida.

Editor: Marcio Dupont S√£o Paulo

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