J√° n√£o sou somente um designer

A experi√™ncia pessoal de um jovem designer a quem a realidade ¬ęobrigou¬Ľ a redefinir seu perfil profissional.

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Em 2007, comecei a trabalhar como designer em uma companhia de seguros. Com esta experi√™ncia completei um ciclo de tr√™s inst√Ęncias bem definidas na minha carreira profissional: a primeira de freelancer, a segunda como funcion√°rio de um est√ļdio de design e, agora, o trabalho em uma grande empresa.

Essas experi√™ncias, que na faculdade pareciam t√£o distantes, deixaram em mim boas recorda√ß√Ķes no lado pessoal e bons aprendizados para a pr√°tica. Nossa querida profiss√£o apresenta diversos modos de ser exercida, tanto no que diz respeito √†s rela√ß√Ķes laborais, quanto aos ramos de servi√ßo, √© essa diversidade a que nos obriga a ser flex√≠veis para poder entender as possibilidades de cada uma.

A √ļltima das minhas experi√™ncias, dentro do contexto da empresa, serviu como prova de fogo para essa flexibilidade. Quando eu era freelancer, o circuito b√°sico girava em torno ao √™xito do cliente e da resolu√ß√£o ¬ęexpress¬Ľ das suas necessidades. A quantidade de clientes definia a qualidade de vida do m√™s, gerando uma equa√ß√£o √†s vezes perigosa, cujo resultado podia ser algo como ¬ępegar o trabalho que tem¬Ľ. A experi√™ncia como empregado em um est√ļdio incorporou a vari√°vel atribui√ß√£o de tarefas, as quais eu n√£o sa√≠a para procurar, e com tempos fixados por uma organiza√ß√£o que eu n√£o controlava. Nesses dois tipos de exerc√≠cio profissional, predominou em mim a fun√ß√£o operacional, sendo que eu era o √ļltimo elo da cadeia de decis√Ķes envolvidas com o projeto.

Na grande companhia de seguros, em pouco tempo descobri que nada funcionava como antes. As peças criadas tinham pouca resistência às críticas das outras áreas, todos opinavam sobre design e todos, de alguma maneira queriam e deveriam expor seu ponto de vista. O excesso de demandas gerava a terceirização, com frequentes desajustes quanto alinhamento gráfico institucional e muito manejo dos prazos de entrega.

A fun√ß√£o de oper√°rio de design estava se tornando insustent√°vel para mim na hora de coordenar todos esses fatores. Eu precisava da colabora√ß√£o de designes externos que estavam ansiosos por regras claras, tempos e programas definidos. A principal ordem do meu chefe me preocupava e era um tanto il√≥gica: ¬ęo designer dentro da empresa tem que criar o menos poss√≠vel¬Ľ. Ou seja, eu havia sido contratado para n√£o fazer o que eu sabia fazer! Com o tempo entendi que o papel convencional de designer n√£o me levaria longe naquele contexto. Por isso, considerei a especializa√ß√£o em gest√£o e decidi me capacitar. Logo, o panorama mudou e as regras do jogo estavam melhor definidas.

Se colocar dentro da gest√£o estrat√©gica de design √© compreender uma nova possibilidade no contexto das atividades do designer. √Č redefinirmos em nossa fun√ß√£o, j√° que a gest√£o envolve diferentes tarefas e a√ß√Ķes para a coordena√ß√£o de projetos de design, e tem como pilares a multidisciplinaridade e a concilia√ß√£o dos aspectos distintos implicados no projeto.

Para entender claramente a diferença entre o design e sua gestão estratégica, basta pensar na diferença que existe entre preparar um bolo de aniversário e organizar uma festa. Quem elaborou o bolo contemplou aspectos concretos e suas propriedades de sabor, cozimento e decoração de acordo com o tipo de festa, e o tamanho de acordo com a quantidade de convidados.

Quem organizou o evento pensou em aspectos mais globais, por exemplo, o pressuposto geral para a festa, a tem√°tica, o momento das apresenta√ß√Ķes, a ambienta√ß√£o do sal√£o, etc. Tanto o confeiteiro como o organizador foram indispens√°veis para o sucesso do acontecimento, mas seus perfis e suas fun√ß√Ķes, mesmo que conectadas, s√£o distintas.

Evidentemente, o ato de se envolver em outros aspectos do contexto pede uma adequa√ß√£o, que aqui vamos a chamar de ¬ęestrat√©gica¬Ľ, ou seja, decisiva para o desenvolvimento de um projeto de maneira optimizada e com o menor margem de erro poss√≠vel.

De maneira concreta, estamos falamos de uma perspectiva ampliada, conciliadora, interativa e que fica mais na análise crítica do processo integral do produto ou das mensagens do que seu design propriamente dito, Isso inclui um conjunto de atividades de diferentes índoles, como diagnóstico, estudos de mercado, pesquisas de opinião, comunicação, coordenação, contratação e design levados a cabo e interagindo com a empresa ou instituição.

Por outro lado, quando falamos de design estratégico, devemos nos apropriar da ideia, criar propostas de valor agregado e que vão além das telas e tablets dos designers, e que nos obrigam a nos transformarmos em verdadeiros intérpretes de uma realidade cada vez mais complexa e integrada, cujo caminho não se vê com tanta clareza.

Se colocar dentro da gest√£o estrat√©gica de design √© compreender uma nova possibilidade no contexto das atividades do designer. √Č nos redefinirmos em nossa fun√ß√£o, j√° que a gest√£o envolve diferentes tarefas e a√ß√Ķes para a coordena√ß√£o de projetos de design, e tem como seus grandes pilares a multidisciplinaridade e a concilia√ß√£o dos aspectos distintos implicados no projeto.

Estamos falando de uma função pró-ativa, em que o projeto não fica à espera de aprovação externa. O gestor deve buscar se sentir confiante em sua proposta, consciente de ter abrangido a maior quantidade possível de atores e fatores no seu desenvolvimento, seja qual for a sua área.

Desta maneira, o projeto tem menos margem de erro e enriquece com a inclus√£o dos demais pontos de vista, como, por exemplo, o econ√īmico, o do marketing, o do financeiro, o produtivo, o inovador, o da comunica√ß√£o, entre outros. √Č uma disciplina em dia com as intera√ß√Ķes e as necessidades, disposta a fazer o melhor para concretizar solu√ß√Ķes efetivas, e n√£o uma reposta final isolada do contexto.

Se nos damos conta de que a maioria das propostas de design criticadas e fracassadas √© fruto de uma m√° compreens√£o do briefing, de erros em sua formula√ß√£o ou de uma m√° interpreta√ß√£o das necessidades funcionais, econ√īmicas e comunicacionais e/ou simb√≥licas da organiza√ß√£o, √© impens√°vel (e incorreto) seguir encarando os projetos de design √† margem dos interesses e perspectivas das demais disciplinas envolvidas. E para complicar ainda mais, a rela√ß√£o entre esses fatores s√≥ tende a aumentar, porque o mundo em que vivemos est√° cada vez mais complexo e integrado. O avan√ßo √© irrefre√°vel e estamos marchando ao seu lado, especialmente nos quesitos de tecnol√≥gicia, globaliza√ß√£o e sustentabilidade.

A gestão estratégica implica em uma atitude distinta frente ao design e uma compreensão global do contexto e das especialidades envolvidas na concretização de projetos. Analisa-se o antes, o durante e o depois, e em vez do caminho ser da prancha de desenho até o protótipo, agora vai da prancha para a sociedade com o prototipo no meio.

A maior diferen√ßa est√° entre o designer que projeta algo novo alheio aos outros fatores e atores que, por sua vez, instrumental pol√≠tica e decis√Ķes √† margem da atua√ß√£o do designer, e a concep√ß√£o din√Ęmica e interativa entre designer e o aspectos metodol√≥gicos, tecnol√≥gicos e inovadores do projeto e da organiza√ß√£o.

Meu caminho na especialidade da gestão estratégica de design implicou uma mudança pessoal de atitude no momento de enfrentar os problemas.

Antes, como designer:

  • Tarefas espec√≠ficas de design.
  • Fechado em mim mesmo.
  • Resposta reativa.
  • Proposta plana.
  • Improvisa√ß√£o, objetivos curtos.
  • Respostas de dentro para fora.
  • Inflexibilidade.

Depois, na gestão estratégica de design:

  • Variedade de tarefas.
  • Vis√£o multidisciplinar.
  • Pr√≥-atividade, antecipa√ß√£o.
  • Propostas de valores e sentidos.
  • Vis√£o e objetivos de longo prazo.
  • Respostas de fora para dentro.
  • Adaptabilidade e reinven√ß√£o.

Como vimos, para que um pedido ou um briefing chegue √†s m√£os do designer muitas e complexas decis√Ķes foram tomadas antes, e outras ser√£o tomadas depois que os originais forem aprovados. Minha experi√™ncia e a de outros colegas indicam que a partir da nossa forma√ß√£o como designers ¬ępuros¬Ľ temos que nos preparar para aproveitar as oportunidades de mudan√ßa no perfil profissional. No meu caso, segui a dire√ß√£o do design estrat√©gico. Mas n√£o √© o √ļnico salto poss√≠vel.  

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TraduçãoAbc Design Curitiba Seguidores: 23

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Rodrigo Utopia
Sep 2012

Parabéns pelo post, você teria o link de um case em gestão do design que você admira e pode compartilhar? Qual literatura nesse sentido você recomenda?

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