Historia Mundial do Design

Entrevista a Victor Margolin em rela√ß√£o ao seu livro ¬ęWorld History of Design¬Ľ, uma obra inigual√°vel onde apresenta a sua extensa pesquisa e opini√£o sobre o tema.

Retrato de Félix Beltrán Félix Beltrán Ciudad de México Seguidores: 51

Opini√Ķes:
1
Votos:
9
Compartir:
Ilustração principal do artigo Historia Mundial do Design

O que o motivou a uma obra de tamanha import√Ęncia?

Primeiro, sendo professor de história do Design por muitos anos, me sentia frustrado pela falta de materiais disponíveis para fins acadêmicos que refletissem a diversidade do mundo, assim como a do meu próprio país, EUA. Quase 15 anos atrás eu tive a oportunidade de passar um ano pesquisando os designers afro-americanos de Chicago e encontrei um ambiente rico em gente e material. Desde então tenho incluído esses materiais em vários artigos e também nesta grande história do mundo. Comecei a escrever um livro, mas conforme pesquisava, o livro crescia mais e mais. Percebi que entre a minha curiosidade e meu desejo de ser abrangente, acabaria escrevendo um livro grande. Na verdade, a ideia de produzir um magnus opus parecia muito atraente, especialmente nesta fase da minha carreira onde eu teria a oportunidade de usar tudo o que aprendi e todos os contatos feitos com os colegas ao longo de muitos anos.

Que import√Ęncia tem uma hist√≥ria mundial¬†do design?

O design tornou-se uma atividade global, no entanto, as hist√≥rias, pelo menos no idioma ingl√™s at√© agora, n√£o refletem a sua extens√£o. T√™m se concentrado principalmente nos EUA, Europa (e nem mesmo em toda a Europa) e, em certa medida, no Jap√£o. No entanto, existem muitos pa√≠ses com tradi√ß√Ķes ricas em design que n√£o s√£o conhecidas. Em pa√≠ses como M√©xico, Col√īmbia, Brasil, Nova Zel√Ęndia, China e Espanha, existem hist√≥rias em seus respectivos idiomas e algumas dessas hist√≥rias s√£o bastante detalhadas e muito bem documentadas. Mas o material √© totalmente desconhecido para as pessoas fora desse contexto especifico. As hist√≥rias em Ingl√™s como Hist√≥ria do Design Gr√°fico por Philip Meggs se tornou o √ļnico texto-refer√™ncia; embora n√£o mencione muitos ou nenhum dos designers dos pa√≠ses em que foram traduzidos.

Na minha hist√≥ria mundial tentei abarcar todas as suas partes. Consultei muitos livros em Espanhol, Portugu√™s, Franc√™s, Alem√£o, Italiano e Ingl√™s. Usei tamb√©m hist√≥rias e reportagens sobre economia, tecnologia e neg√≥cios, que cont√™m muito material relacionado com o design. A internet tamb√©m √© uma grande e boa fonte de informa√ß√Ķes sobre design e os designers de v√°rios pa√≠ses. Na verdade, fui constantemente surpreendido pela quantidade de informa√ß√Ķes na net, especialmente biografias e datas de nascimento e morte de designers de v√°rios pa√≠ses.

No que respeita a sua obra supera o anteriormente publicado sobre design?

As √ļltimas hist√≥rias como mencionei, raramente trazem materiais fora do c√Ęnone convencional americano, europeu, e at√© certo ponto, japon√™s. Eu tenho tentado ser amplamente inclusivo, abrangendo at√© mesmo pa√≠ses como a Tail√Ęndia e Gr√©cia, onde a atividade do design √© pouco conhecida. Acontece que h√° estudantes e estudiosos de todo o mundo que est√£o investigando o design em seus pr√≥prios pa√≠ses. Por exemplo, eu tenho recebido muita ajuda de duas estudiosas gregas do design grego. Uma deles escreveu uma colet√Ęnea de ensaios sobre o assunto e a outra uma tese de doutorado em Ingl√™s sobre o design gr√°fico grego p√≥s-guerra.

Parte da razão pela qual eu escrevi uma história tão ampla é que aproveitei a rede de estudiosos e designers de todo o mundo que encontrei em minhas viagens e como editor acadêmico do Design Issues. Ao longo dos anos temos procurado publicar artigos sobre a história do design em lugares que não foram previamente bem documentados. Agora me encontrei usando muitos dos artigos que publicamos como materiais de referência para a minha pesquisa.

Qual seria a consequência de não existir uma história mundial do design?

Sem uma hist√≥ria mundial do Design n√£o ter√≠amos a documenta√ß√£o que reconhece as contribui√ß√Ķes que os designers de todo o mundo fizeram nessa hist√≥ria particular. Resumindo, n√£o n√≥s entender√≠amos como um mundo no qual muitas pessoas diferentes t√™m contribu√≠do significamente. Imagine uma hist√≥ria do mundo, que n√£o inclui a √Āsia ou √Āfrica. Seria apenas uma vis√£o parcial do que somos. Resumindo, como cidad√£os de um mundo global n√£o entender√≠amos a rela√ß√£o do / de ¬ętudo¬Ľ o que foi contribu√≠do por muitas pessoas diferentes. Haveria uma falsa sensa√ß√£o de superioridade das pessoas cujas contribui√ß√Ķes foram reconhecidas, enquanto outras seriam relegadas.

Uma verdadeira história mundial do Design ou de qualquer outra forma de produção cultural reconhece todos que são significativos em seu próprio ambiente, e, ao mesmo tempo, fazem parte de uma história maior.

Qual foi o método aplicado para a elaboração deste trabalho?

Baseei a estrutura narrativa nas hist√≥rias globais que j√° foram escritas. Come√ßando com os primeiros seres humanos e passando para as grandes civiliza√ß√Ķes, nacionalismo, colonialismo, p√≥s-colonialismo, para o mundo global. Conto a hist√≥ria, primeiro em termos de civiliza√ß√Ķes, e depois na√ß√Ķes e regi√Ķes. Ent√£o, h√° cap√≠tulos sobre a Am√©rica Latina, com se√ß√Ķes sobre pa√≠ses espec√≠ficos; igualmente com a √Āfrica, √Āsia e Oriente M√©dio. Eu fa√ßo o mesmo com a Europa, embora alguns pa√≠ses t√™m seus pr√≥prios cap√≠tulos, pelas suas hist√≥rias de design particularmente ricas. Eu tamb√©m incluo cap√≠tulos - em ambos volumes - sobre os pa√≠ses da Commonwealth Brit√Ęnica, que nunca s√£o mencionados nas hist√≥rias de design.

Desde qual perspectiva você partiu para a interpretação da história do design?

Minha perspectiva inicial foi baseada em três conceitos de design:

  1. Design com "d" min√ļscula que tem acontecido em todo o mundo e a todo momento. As pessoas t√™m feito artefatos que necessitam para viver e tamb√©m inventaram meios de comunica√ß√£o para interagir uns com os outros;

  2. Design com "D" mai√ļsculo √© a hist√≥ria do design, desde a Revolu√ß√£o Industrial, incluindo as origens da produ√ß√£o em massa, ainda que tenha acontecido antes da Revolu√ß√£o Industrial e a comunica√ß√£o em massa;

  3. Design moderno que se enraizou em todo o mundo desde o fim da II Guerra Mundial.

  4. Eu mesmo não tenho uma ideia rígida do Design e a mantenho fluida para contar a história de como as pessoas têm produzido artefatos que precisam para a sua vida diária.

Quais as dificuldades que enfrentou na pesquisa e coleta do extenso material para esta história?

Há materiais em idiomas que eu não entendo. Posso usar materiais em Inglês, Espanhol, Português, Francês, Alemão e Italiano e com um pouco de acesso ao Holandês. Mas há muitos materiais em muitas outras línguas, que não são acessíveis para mim. Felizmente eu encontrei bastante material em línguas que eu entendo e por isso que a história global do Design não é deficiente.

Tamb√©m √© extremamente dif√≠cil conseguir as imagens. Embora existam muitas imagens de baixa resolu√ß√£o na Internet, encontrar fotos em alta resolu√ß√£o e obter permiss√£o para us√°-los √© uma tarefa dif√≠cil. Tenho trabalhado com um pesquisador de imagens para os dois primeiros volumes e temos encontrado muitos obst√°culos intranspon√≠veis, seja porque n√£o foi poss√≠vel encontrar a fonte da imagem que quer√≠amos, ou porque os propriet√°rios da imagem exigiam um pagamento alto para o seu uso. No entanto, em geral, j√° h√° muito material escrito, tanto em vers√£o impressa como na web, que eu tenho usado. Tamb√©m recebi ajuda de v√°rios colegas no exterior que t√™m sugerido materiais ou j√° leram minhas se√ß√Ķes ou cap√≠tulos fornecendo corre√ß√Ķes valiosas. Os servi√ßos da biblioteca da minha universidade (UIC) tem sido incr√≠vel para obter materiais de outras bibliotecas em nossa regi√£o (meio oeste) e de outras partes dos Estados Unidos e, por vezes, no exterior. Eles tamb√©m foram capazes de rastrear os artigos que eu estava procurando.

De um modo geral, como você definiria o design?

Essa √© uma pergunta dif√≠cil e que ao mesmo tempo n√£o me preocupa muito. No meu livro eu considero o Design de forma muito abrangente como toda a gama de artefatos e imagens e at√© sistemas n√£o materiais que as pessoas criaram para viver. Inclui artesanato, no que se refere √† produ√ß√£o de objetos de uso, mas n√£o como uma forma de arte; e eu tamb√©m incluo engenharia e outras formas de tecnologia, quando o resultado foi de m√°quinas e aparelhos que s√£o √ļteis. No entanto, considerei o uso de forma muito mais ampla. Eu escrevo sobre a hist√≥ria das armas e os artefatos que as pessoas usam no cotidiano. Acredito que no geral Design √© concebido como algo que tem como¬†finalidade ¬ęa inven√ß√£o ou formula√ß√£o de um produto¬Ľ, seja ele material ou imaterial.

Como história desde quando surge o design gráfico?

Semelhante ao Meggs, eu come√ßo com as primeiras imagens que os seres humanos conceberam para a sua comunica√ß√£o; ou seja, as pinturas de pontos e gravuras nas cavernas de Lascaux e √Āfrica do Sul. Eu escrevo sobre o in√≠cio da hist√≥ria da escrita e da transforma√ß√£o da escrita cuneiforme e hier√≥glifos em alfabetos fon√©ticos. Na medida do poss√≠vel, falo dos alfabetos e sistemas de signos das diferentes culturas: os alfabetos coreanos, chin√™s, japon√™s, √°rabe, hebraico e romano. A imprensa surgiu em mais de uma cultura, tal como a reprodu√ß√£o de imagens em massa. Ao longo do tempo, a impress√£o moderna de livros, publicidade, revistas, ocorreu em todas as partes do mundo.

At√© que ponto uma cr√≠tica pertinente ao Design influi para que ele possa elevar suas contribui√ß√Ķes sociais?

√Č dif√≠cil saber. Por enquanto, o mundo est√° passando por uma s√©rie de crises pol√≠ticas, sociais e ambientais. O design pode ter um papel importante nessa crise global. Hoje √© maior do que antes o n√ļmero de designers que pensam como contribuir ; mas ainda h√° o problema de como financiar o trabalho dos designers que querem trabalhar para causas sociais.

Num sentido amplo, quais as √°reas do Design que considera ter mais resultados em¬†contribui√ß√Ķes sociais?

Acho que todas as √°reas do Design t√™m a contribuir. √Č verdade que a arquitetura desempenha um papel importante, especialmente no design de estruturas tempor√°rias de habita√ß√£o ap√≥s desastres naturais e nos campos de refugiados. O trabalho de Shigeru Ban √© um bom exemplo, como todas as habita√ß√Ķes sociais sendo constru√≠das por grupos como Architecture for Humanity. Os designers gr√°ficos e web-designers podem ajudar a comunicar informa√ß√Ķes importantes sobre a situa√ß√£o do mundo, para grandes audi√™ncias; e os designers podem criar produtos,ferramentas, aplicativos em redes sociais como o Kickstarter, que permitem que as pessoas financiem, conhe√ßam e compartilhem projetos socialmente ben√©ficos. Precisamos tamb√©m de computadores baratos e dispositivos m√≥veis, para garantir que mais pessoas tenham acesso a todo este tipo de informa√ß√£o.

Qual você considera o principal defeito da prática do design em termos de suas consequências sociais?

H√° ainda muitos designers e seus clientes que percebem o Design principalmente como uma ferramenta de vendas; seja para cria√ß√£o de um aplicativo para smartphone ou anunciando um novo pr√©dio. O design continua sendo uma atividade secund√°ria, que tende a obedecer √†s instru√ß√Ķes de outros que n√£o s√£o designers. Poder√≠amos ter mais autonomia, principalmente, para os designers que concebem valiosos projetos sociais, e, em seguida, encontrar maneiras de torn√°-los realidade.

Por que a ênfase no design gráfico?

Na verdade não enfatizo o design gráfico. Dou cobertura igual ao design produto desde xícaras de chá até mísseis guiados.

Desde que perspectiva √© valorizada a hist√≥ria do design nas suas contribui√ß√Ķes sociais?

O design √© o meio que temos para organizar recursos, a fim de atender √†s necessidades humanas. A verdadeira quest√£o √© como podemos definir o que as pessoas precisam ou simplesmente desejam. N√£o quero ser muito espec√≠fico nessa distin√ß√£o, mas apenas dizer que temos grandes quantidades de ¬ęexcedentes¬Ľ no mundo, com produtos que ningu√©m precisa ou n√£o quer.

N√≥s tamb√©m estamos em um ciclo acelerado de atualiza√ß√£o tecnol√≥gica que cria grandes fluxos de descart√°veis, como telefones, computadores, tablets e outros dispositivos obsoletos. Um problema deste fluxo de desperd√≠cio √© que muitos desses produtos cont√™m merc√ļrio ou outros materiais que n√£o s√£o facilmente descartados; e j√° temos tamb√©m um enorme problema com res√≠duos. Seria muito melhor se pud√©ssemos encontrar maneiras de conservar nossos produtos b√°sicos e simplesmente os atualizar√≠amos com um novo software, mas n√£o acho que isso seja poss√≠vel, dada a rapidez da evolu√ß√£o tecnol√≥gica. No entanto, ainda precisamos de um sistema melhor que o atual para a introdu√ß√£o de novos artefatos.

Nessa historia mundial estão bem representados os países periféricos?

Totalmente. Tentei ser o mais abrangente, como pode ser alguém que escreve uma história global do design.

Que bases usa para avaliar o design dos países da periferia?

Eu vejo o Design de qualquer pa√≠s em termos do que fazia sentido l√°, em um dado momento historico. Embora¬†poucos pa√≠ses tinham avan√ßadas escolas de design como Bauhaus ou a Hochschule f√ľr Gestaltung em Ulm, a maioria dos pa√≠ses desenvolveu escolas de arte nas quais muitos designers foram treinados. As ideias avan√ßadas do design n√£o chegaram a muitos pa√≠ses at√© depois da Segunda Guerra Mundial, mas antes disso, j√° havia muitos desenvolvimentos nas artes decorativas e comerciais, impressionantes em um sentido global e n√£o apenas local. Infelizmente, muitos pa√≠ses eram col√īnias ou eram economicamente dependentes at√© a Segunda Guerra Mundial, mas como col√īnias tamb√©m desenvolveram estrat√©gias para a cria√ß√£o de objetos e design visual.

Você acha que os efeitos do design têm a suas origens na educação?

Educa√ß√£o √© crucial para treinar designers. A escola de design √© o lugar onde voc√™ deve expor os alunos para as possibilidades de suas profiss√Ķes e aprender sobre o futuro e como agir no presente. H√° designers que aprendem por conta pr√≥pria, mas um programa de estudos √© essencial para o ¬ęentender¬Ľ dos alunos em suas profiss√Ķes de design. Neste sentido, √© importante ter um programa que prepara os alunos para fazer uma contribui√ß√£o significativa em um mundo extremamente complexo.

Você gostaria de atualizar a sua história mundial do design no futuro?

Ainda não pensei sobre isso. Na verdade, gostaria de terminar o terceiro volume, no qual eu estou trabalhando atualmente e, em seguida, prosseguir com outros projetos. Eu não tenho certeza do que planeja o editor quanto a atualização dos volumes; mas eu preciso completar o terceiro volume e então verei o que fazer a seguir.

Saiba mais

Retrato de Félix Beltrán Félix Beltrán Ciudad de México Seguidores: 51

TraduçãoMarcio Dupont São Paulo Seguidores: 65

Opini√Ķes:
1
Votos:
9
Compartir:

Colabore com a difus√£o deste artigo traduzindo-o

Traduzir ao inglês Traduzir ao intaliano
Código QR para acesso ao artigo Historia Mundial do Design

Este artigo não expressa a opinião dos editores e responsáveis de FOROALFA, os quais não assumem qualquer responsabilidade pela sua autoria e natureza. Para reproduzi-lo, a não ser que esteja expressamente indicado, por favor solicitar autorização do autor. Dada a gratuidade deste site e a condição hiper-textual do meio, agradecemos que evite a reprodução total noutros Web sites.

Debate

Logotipo de
Minha opini√£o:

Ingresse com sua conta para opinar neste artigo. Se não a tem, crê sua conta grátis agora.

Retrato de Maria Aparecida Brandao Bonadio Keppler
1
Maria Aparecida Brandao Bonadio Keppler
Fev 2015

Importante a publicação da História mundial do Design com a inclusão de outros países e culturas, como também a abordagem do papel social do Design, algo a ser valorizado na formação dos designers.

0
Responder

Lhe poderiam interessar

Retrato de Pablo √Ālvarez
Autor:
Pablo √Ālvarez
Título:
10 objetos fundamentais para o designer
Resumo:
A minha lista de objetos favoritos e indispens√°veis.
Tradu√ß√Ķes:
Compartilhar:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
15
Seguidores:
181
Retrato de Rique Nitzsche
Autor:
Rique Nitzsche
Título:
A interseção entre arte e tecnologia
Resumo:
O design no desenvolvimento dos negócios da Sony e da Apple.
Compartilhar:
Intera√ß√Ķes:
Votos:
11
Opini√Ķes:
1
Seguidores:
269