Entre o natural e o artificial

No Carnaval, o artificial é levado ao extremo.

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A internet transformou-se numa plataforma inesgot√°vel de informa√ß√£o, a maioria sem valor ou significado. Com a aproxima√ß√£o do Carnaval, a maior festa popular brasileira, intensificam-se as mat√©rias sup√©rfluas. Por exemplo, pode-se acompanhar quais as celebridades ou candidatas √† fama que adicionaram algum acrescento est√©tico para acentuar as n√°degas ou os seios, que ser√£o expostos saltitantes nas nov√≠ssimas televis√Ķes LED full HD. O √°vido p√ļblico acompanha com deleite essa exposi√ß√£o de detalhes √≠ntimos artificiais.

Um casal celebridade de renome, ela modelo e ele cirurgi√£o pl√°stico, costuma divulgar nas v√©speras do Carnaval, mat√©rias que, fict√≠cias ou n√£o, servem para alimentar a imagina√ß√£o popular. Estes factos correm rapidamente pela internet. Os internautas gostam do bizarro e colaboram para a divulga√ß√£o dessas estranhezas pela media digital. Em 2012, a conhecida destaque de escola de samba disse que ¬ędesta vez, s√≥ coloquei Botox¬Ľ, sem se render aos bisturis antes da celebra√ß√£o, informa o portal G1. ¬ęFa√ßo isso porque gosto. O Carnaval √© tudo para mim¬Ľ, diz a musa que h√° 14 anos faz interven√ß√Ķes cir√ļrgicas para aparecer nos desfiles. Estima-se que j√° fez mais de 40 interven√ß√Ķes pl√°sticas.

Mas num recente comunicado pr√© Carnaval, o casal divulgou uma not√≠cia bastante estranha. A loura mundana iria submeter-se a duas cirurgias pl√°sticas, uma para retirar provisoriamente os mamilos e outra, para retirar parte dos grandes l√°bios vaginais com o prop√≥sito de poder desfilar na passarela do samba sem a necessidade de ¬ętapa sexo¬Ľ. Provavelmente a not√≠cia n√£o era verdadeira, mas faz-nos pensar nos limites entre a raz√£o e a est√©tica.

Segundo o texto de divulga√ß√£o, n√£o autenticado, a raz√£o da celebridade seria ¬ęsatisfazer os meus f√£s e realizar o sonho de poder desfilar na avenida sem nenhuma conota√ß√£o sexual, somente em louvor ao samba e ao meu corpo¬Ľ. Mistura-se nessa suposta declara√ß√£o v√°rias informa√ß√Ķes que levam a busca pela est√©tica √† beira do del√≠rio. Qualquer sacrif√≠cio seria v√°lido para conquistar a fama. Inclusive ficar inchada por semanas, selar a abertura vaginal com uma cola especial e guardar partes do corpo em nitrog√©nio l√≠quido para serem reimplantadas posteriormente para gerar um novo ciclo de incha√ßos. O grotesco e a est√©tica ficaram misturados no mesmo pensamento.

Tudo que não é natureza, é design

Herbert A. Simon, laureado pelo pr√©mio Nobel da economia, disse que existem dois aspetos que se op√Ķem: o natural, que √© gerado pela natureza, e o artificial, que √© constru√≠do pelo design humano. Portanto, design √© a capacidade humana de materializar ideias atrav√©s da nossa inten√ß√£o de transforma√ß√£o. N√≥s imaginamos, n√≥s sonhamos, n√≥s desejamos e n√≥s conseguimos transformar a natureza. Quantas vezes estamos dentro de casa e a √ļnica manifesta√ß√£o da natureza existente somos n√≥s pr√≥prios? Todo o resto ao nosso redor √© design, manifestado nas paredes, no ch√£o, no teto e nos objetos.

No nosso caso carnavalesco, o cirurgi√£o pl√°stico seria o marido c√ļmplice da doadora do corpo em louvor ao samba. O consorte carinhoso redesenha a natureza da mulher para entrar na hist√≥ria e nas festas dos famosos. O casal pratica um design estrat√©gico comprometido com um planeamento para criar um posicionamento √ļnico e diferenciado, gerar notoriedade e ser perpetuado no notici√°rio.

Chegou o Carnaval e lembrei-me deste assunto. De alguma forma existe uma conex√£o com o pref√°cio do lindo livro de Virginia Postrel, The Substance of Style, no qual √© contado a hist√≥ria de uma cabeleireira de Michigan que foi em 2001 a Cabul, capital do Afeganist√£o rec√©m libertados dos Talib√£, acompanhando uma miss√£o de apoio internacional. Nas suas pr√≥prias palavras: ¬ęQuando se espalhou a not√≠cia que havia uma cabeleireira no pa√≠s, eu fiquei loucamente ocupada, fazendo cortes a cada 15 minutos¬Ľ. Mais do que doutores, m√©dicos e dentistas, os afeg√£os desejavam cortar os cabelos, fazer a barba, pintar as unhas, celebrar esteticamente o final de um ciclo de tirania.

 O que essas duas hist√≥rias t√™m para ficarem juntas na mesma not√≠cia? O c√©rebro humano rende-se √† beleza, natural ou artificial. A est√©tica √© uma manifesta√ß√£o cultural universal que pode estar entre a repress√£o religiosa total e a permissividade absoluta, na qual os valores sociais se dobram diante da valoriza√ß√£o dos bens materiais, da ostenta√ß√£o, dos prazeres imediatos da moda. Estas duas hist√≥rias s√£o representantes extremas da manifesta√ß√£o est√©tica de duas culturas: na primeira, o designer √© um cirurgi√£o pl√°stico, na segunda, a designer √© uma cabeleireira.

A palavra estética foi elaborada pelo filósofo alemão Baumgarten no meio do século XVIII, no início da Revolução Industrial, na época na qual a humanidade começou a interferir drasticamente na natureza. A intenção do filósofo era investigar sobre as faculdades sensitivas humanas em gerar beleza, em contraposição ao conceito da lógica racional.

Nem toda a pr√°tica do design est√° comprometida com o que conhecemos como est√©tica do bom gosto. Na verdade, a maior parte do design humano √© o design da sobreviv√™ncia ou da necessidade imediata, um design com pouco planeamento, uma espont√Ęnea e imediata manifesta√ß√£o humana e, portanto, n√£o muito est√©tico. J√° a natureza, embora √†s vezes in√≥spita √† sobreviv√™ncia do homem, costuma ser percebida como esteticamente bela.

O motivo de juntar estas duas histórias é gerar um pensamento sobre a transformação que a raça humana pretende fazer neste século que já passou da primeira década. Certamente, podemos avançar para longe, tanto do radicalismo cultural que reprime a estética em busca do controle social, como do culto às celebridades que beiram o ridículo.

Nós queremos mais do que o feijão com arroz do dia a dia, mas não precisamos de caviar e champanhe todos os dias. Queremos ser livres para nos transformarmos de uma forma mais sustentável e prazerosa. Queremos que o artificial, o que é fabricado pelo homem, não agrida a natureza nem a mente das pessoas. Queremos usar produtos e serviços esteticamente emocionantes, sem a culpa de estarmos a consumir mais energia do que é conveniente. Queremos a beleza e o prazer, mas também deixar uma herança saudável aos nossos filhos. Queremos um mundo estético, porém sustentável.

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Ed: Ines Reis London Seguidores: 7

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