Design thinking: modismo ou m√©todo √ļtil?

Uma análise equilibrada sobre os prós e contras do movimento que é a nova febre na gestão de projetos e de empresas.

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Ilustra√ß√£o principal do artigo Design thinking: modismo ou m√©todo √ļtil?

Este texto se baseia em parte nas ideias do artigo de Lee Vinsel. O objetivo não é criticar os métodos legítimos sugeridos por designers mas sim o uso deles motivado por uma febre passageira.

¬ęSe todos est√£o pensando da mesma forma, √© sinal de que algu√©m n√£o est√° pensando¬Ľ.

General G. Patton

As organiza√ß√Ķes j√° passaram por v√°rios modismos. Num artigo publicado em 1994, j√° se falava sobre as diferentes ondas que atingiam as empresas, prometendo ser a solu√ß√£o para os seus males:

√Č chocante verificar a sucess√£o de novas modas na gest√£o empresarial desde os anos 50. Primeiro surgiu a Pesquisa Operacional (PO), depois o Controle de Gest√£o e a Ger√™ncia por Objetivos (GPO), nos anos 60; em seguida, o Desenvolvimento Organizacional (DO) de 1965 a 75 e o Enriquecimento de Tarefas, na d√©cada de 70. A partir de 1980, os C√≠rculos de Qualidade (CQ), a Qualidade Total e o Just-in-Time tomaram a dianteira.

Além desses modismos, ainda podemos citar outros movimentos que já foram uma febre:

  • Reengenharia de processo de neg√≥cios (RPN)
  • Kaizen
  • Custeio baseado em atividade (CBA)
  • Gest√£o do conhecimento
  • Responsabilidade Social Empresarial
  • Sustentabilidade

O movimento que est√° na moda no momento tem nome e sobrenome: Design Thinking (DT).

N√£o se sabe ao certo onde ele come√ßou, mas suas origens podem estar no trabalho do pol√≠mata Herbert Simon e do designer Robert McKim. O termo tamb√©m foi popularizado a partir do t√≠tulo do livro de Peter Rowe Design Thinking, publicado em 1987. Rowe foi l√≠der do Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Design, da Universidade de Harvard (1992‚Äď2004). E o conceito tamb√©m foi fortemente disseminado pela consultoria IDEO. Mais recentemente, ele foi difundido com grande visibilidade pela d.school, escola de design de Stanford. Por 12.600 d√≥lares (R$ 41.400) voc√™ pode fazer um workshop de 4 dias chamado ¬ęDos Insights at√© a Inova√ß√£o¬Ľ, que se baseia nos princ√≠pios do DT.

Que benefícios as pessoas buscam no Design Thinking?

De maneira simples, elas procuram as estratégias criativas que os designers utilizam no seu dia-a-dia, para resolver problemas de muitos tipos, desde problemas corporativos até sociais. Recentemente tem se sugerido usar o design thinking para resolver até problemas educacionais.

As vantagens mais valorizadas no Design Thinking s√£o:

  • Descobrir o que as pessoas realmente precisam ou valorizam
  • Descobrir quais fatores do ambiente externo afetam os projetos
  • Entender de maneira simplificada e antecipada como um produto ou servi√ßo ir√° funcionar ou se ele ir√° ser aceito pelas pessoas
  • Encarar o erro de forma positiva

Embora essas virtudes pare√ßam ser desej√°veis e relevantes para muitas organiza√ß√Ķes, o Design Thinking tem um problema que n√£o est√° na sua ess√™ncia mas nas origens desse movimento e na forma como ele est√° sendo praticado.

Temos que ser honestos: um movimento que permite √† Universidade de Stanford vender cursos de 4 dias por R$ 41 mil reais pode n√£o ser t√£o ¬ębem-intencionado¬Ľ assim.

O próprio começo da escola de design de Stanford, maior defensora do DT no mundo, dá muito o que pensar. Muitos dos membros da comunidade de Stanford, incluindo os precursores da d.school, frequentavam um movimento chamado de Human Potential Movement, numa entidade chamada Esalen. Na própria página dela, ela se descreve como sendo:

¬ęNem uma escola, nem uma igreja, ‚Äčnem um spa, nem um hotel, nem um monast√©rio‚Ķ e ainda uma completa mistura inigual√°vel que contem um pouco de tudo isso¬Ľ.

A Esalen √© uma entidade que defende o pleno desenvolvimento humano se apoiando em refer√™ncias como Abraham Maslow e Gestalt, duas abordagens que j√° sabemos que s√£o bem question√°veis. Foi na Esalen que a d.school se inspirou para defender dois valores centrais do Design Thinking: criatividade e empatia. E foi na d.school que David Kelly obteve seu mestrado em design, antes de criar a IDEO em 1978. Em 2005, Kelly pediu ajuda para Hasso Plattner (um bilion√°rio da ind√ļstria de software) para conseguir criar a d.school. O pedido deu certo e ele obteve 35 milh√Ķes de d√≥lares (115 milh√Ķes de reais) para construir a escola.

O fato √© que a d.school se tornou um sucesso e atraiu milhares de alunos, que ajudaram a disseminar o DT atrav√©s do mundo. No seu artigo ¬ęIs Design Thinking the new liberal arts?¬Ľ, Peter Miller alega que esse n√ļmero de matr√≠culas sugerem que o que quer que seja que a d.school est√° fazendo, est√° funcionando. Mas podemos raciocinar: o fato de algo ser muito difundido ou conhecido o torna necessariamente bom?

O fato √© que o DT coloca conceitos antigos dentro de uma nova embalagem. Conhecer as necessidades das pessoas, agora se chama Empatia (escrevi um texto em 2007 falando sobre o conceito de ¬ęcentro no usu√°rio¬Ľ que j√° era moda naquele tempo).

Esse modo defendido pelo DT, chamado de ¬ęEmpatia¬Ľ afirma usar a abordagem etnogr√°fica da Antropologia, o que √© praticamente uma ofensa a Antropologistas Culturais. Poucos deles concordariam que um workshop de dois dias sobre DT consegue habilitar pessoas a usarem ¬ęetnografia¬Ľ.

Natasha Jen, designer da Pentagram, numa conferencia em junho de 2017, afirma que o DT se tornou uma express√£o da moda que n√£o tem sentido. Segundo ela, ¬ęmuitos design thinkers tratam o design como um processo simples, linear, uma sequencia de cinco passos representados como hex√°gonos¬Ľ. Al√©m disso, Jen afirma que o que falta √© um pensamento cr√≠tico que sempre foi uma caracter√≠stica comum dos designers, antes mesmo dessa moda.

Jen afirma ainda que h√° poucos exemplos de casos onde o DT foi respons√°vel pelo sucesso do projeto. Ela afirma com todas as letras: ¬ęSe o Design Thinking √© t√£o bom, ent√£o prove¬Ľ. Ela tamb√©m resiste √† ideia de que ¬ęum √ļnico m√©todo pode lidar com qualquer tipo de situa√ß√£o¬Ľ.

Len Vinsel fez uma pesquisa com professores e ex-alunos das melhores faculdades de design e arquitetura dos EUA, e chegou √† conclus√£o de que a maioria dos entrevistados nunca usou o termo Design Thinking. O termo √© mais conhecido com universidades de segundo e terceiro n√≠vel que n√£o est√£o inovando mas apenas ¬ęcopiando¬Ľ Stanford.

Muitas escolas de design est√£o criando cursos ¬ęlight¬Ľ de Design Thinking. Neste caso os estudantes n√£o s√£o especialistas em nada, e os projetos assumem a forma de ¬ęcrian√ßas tentando salvar o mundo¬Ľ. Nestes casos o Design Thinking d√° aos estudantes uma ideia irreal sobre o que seja o design e como se cria mudan√ßas positivas. Os design thinkers d√£o aos estudantes um poder, mas sem o conhecimento necess√°rio.

Lee Vinsel afirma ainda que os design thinkers lubrificaram os sonhos dos ¬ęinovadores sociais¬Ľ dando a impress√£o de que habilidades pol√≠ticas s√£o desnecess√°rias e n√£o h√° conflitos nas organiza√ß√Ķes, ao implementar os projetos.

¬ęAlgumas iniciativas que defendem o DT se parecem com um tipo de doutrina em um culto, incluindo per√≠odos de alta emo√ß√£o, criando palavras t√©cnicas, que s√£o dif√≠ceis de entender para quem est√° de fora, e dizendo aos membros que eles s√£o diferentes e melhores do que outros (no caso, os outros que n√£o praticam o DT)¬Ľ.

Vinsel

Vinsel diz que quando pessoas demonstram discordar dos paradigmas e conceitos do Design Thinking, os praticantes desse movimento olham para elas como se fossem obst√°culos no caminho dos designers. Os que n√£o seguem o DT s√£o como retardat√°rios (em ingl√™s, ¬ęlaggards¬Ľ). Isso parece com a rela√ß√£o entre adolescentes e seus pais, onde os jovens acham que os pais s√£o velhos e ficam no meio do caminho. At√© o momento em que voc√™ cresce e descobre que outras pessoas tem bastante a ensinar, mesmo quando ‚Äď e especialmente quando ‚Äď eles discordam de voc√™.

Algumas organiza√ß√Ķes podem se resistentes √† mudan√ßas propostas por ¬ędesign thinkers¬Ľ, n√£o porque simplesmente resistem a qualquer mudan√ßa, mas porque a ideia √© simplesmente med√≠ocre, incompleta e superficial.

Conclus√£o

Portanto nota-se que o movimento a favor do Design Thinking embora possa ter seu lado ¬ęvirtuoso¬Ľ tamb√©m vem acompanhado de problemas. O DT tem mostrado ser um modismo que est√° sendo amplamente aceito, mas que merece ser avaliado de modo imparcial.

No livro Facing Up to Management Faddism, Margaret Brindle e Peter Stearns explicam que os modismos entram nas empresas em momentos de crise percebida, e as modinhas cumprem certas fun√ß√Ķes entre os l√≠deres das organiza√ß√Ķes:

  1. Aliviam as preocupa√ß√Ķes pois essa ¬ęnovidade¬Ľ promete resolver os problemas
  2. Legitimam a organização porque consegue mostrar que ela está em dia com as novidades legais que surgiram
  3. Habilita os líderes a mostrarem que estão fazendo alguma coisa
  4. Seguir a modinha ajuda a pessoa a progredir na carreira e ganhar o respeito por seguir o que é mais atual

Nesse sentido, seguir a moda do DT pode servir mais como um esfor√ßo para se auto-afirmar e ¬ęseguir a manada¬Ľ do que de fato para conquistar as mudan√ßas que s√£o necess√°rias para a organiza√ß√£o.

Quero deixar bem claro que existe uma diferença entre utilizar métodos legítimos para descobrir e atender as necessidades humanas e usar os mesmos métodos apenas para dizer que usou e que está seguindo a nova moda. Os métodos que o design utiliza são bem mais antigos que o próprio design e tem seu valor reconhecido. Podemos citar dentre estes: pesquisas, prototipação, validação de conceitos, planos de ação, priorização de problemas, etc. Portanto, esse artigo não se posiciona contra esses métodos, mas sim contra o emprego deles motivado por um modismo inconsequente.

Discordar do design thinking como modismo não é apenas nadar contra a corrente, mas representa uma oportunidade para aprimorá-lo, tirá-lo do seu pedestal, corrigir suas falhas e encontrar um caminho que não atenda em primeiro lugar os interesses comerciais de consultorias, mas que de fato coloque o homem como centro das coisas, de forma genuína.

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Ricardo Martins

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Retrato de Roberto Marques
0
Roberto Marques
H√° 10 meses

Ol√° a todos.

Mesmo um pouco afastado do campo do design gr√°fico tradicional

sempre me soou estranho esta ideia de "design thinking" me parecendo

mais um nome bonito criado por alguns teóricos para preencher certos

vazios conceituais, que surgem de tempos em tempos. A boa e velha

metodologia contendo os passos b√°sicos, pode contemplar, se bem feita,

bons resultados no campo do projeto de maneira geral.

Depois de uma certa idade e de uma boa dose de experiência profissional

e acadêmica estes (novos) termos não me seduzem mais...

1
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