As artes (moderna e pós-moderna) do livro infantil

Muitas gera√ß√Ķes de artistas visuais e ilustradores atravessaram as d√©cadas que transpassaram a cultura moderna para um novo clima que habituou-se chamar p√≥s-modernismo.

Retrato de Luiz Claudio Gonçalves Gomes Luiz Claudio Gonçalves Gomes Campos Dos Goytacazes

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Dentre as modalidades do discurso p√≥s-modernista, a colagem/montagem pode ser considerada a mais prim√°ria. Acredita Cauduro (2000) que a heterogeneidade, importante caracter√≠stica da produ√ß√£o p√≥s-moderna, estimula os receptores de imagens e de textos a produzir significa√ß√Ķes inst√°veis, o que torna a produ√ß√£o de sentidos subjetivos para os artefatos culturais uma atribui√ß√£o tanto de autores e produtores de imagem como de seus consumidores.

¬ę[‚Ķ] o produtor cultural s√≥ cria mat√©rias-primas (fragmentos e elementos), deixando aberta aos consumidores a recombina√ß√£o desses elementos da maneira que eles quiserem. O efeito √© quebrar (desconstruir) o poder do autor de impor significados ou de oferecer uma narrativa cont√≠nua¬Ľ.

HARVEY (1992, p. 55)

N√£o √© para menos que a est√©tica do palimpsesto √© abundantemente empregada na elabora√ß√£o de projetos editoriais na era p√≥s-moderna. A textura que se tomou emprestada da antiguidade, serve agora como substrato para os ilustradores que se alimentam da instabilidade, da imprecis√£o, da fragmenta√ß√£o, da reciclagem e de mem√≥rias descont√≠nuas para lan√ßar ao p√ļblico jovem a racionalidade (ou a falta dela) insegura das composi√ß√Ķes, que poder√£o trazer ou n√£o algum sentido l√≥gico e reproduz√≠vel da obra (CAUDURO, 2000).

Como representa√ß√£o visual, o pastiche √© literalmente trabalhado atrav√©s de retalhos por muitos ilustradores contempor√Ęneos que o adota como t√©cnica. O sentido figurado da t√©cnica √© levado ao extremo na concretude do objeto que √© encarnado no mosaico de imita√ß√£o de diferentes estilos e/ou autores. O pastiche visual √© terreno f√©rtil para a est√©tica gr√°fica do palimpsesto, amplamente cultivada nas ilustra√ß√Ķes editoriais.

O movimento pop art, iniciado nos anos 50 e maturado nos 60, √© um √≥timo exemplo que podemos dar no sentido de uma melhor compreens√£o sobre os efeitos e resultados do p√≥s-modernismo nas artes visuais. A pop art √© tida como o marco que p√Ķe fim √† modernidade na cultura ocidental. Seus maiores representantes s√£o seu precursor Robert Rauschenberg e Andy Warhol. Se o segundo se converteu no s√≠mbolo maior daquele movimento, ao primeiro se deve a notabilidade e o pioneirismo no movimento p√≥s-modernista, segundo muitos cr√≠ticos (CAUDURO, 2000)

O movimento procurava a estética das massas, tentando achar a definição do que seria a cultura pop, apropriando-se do aspecto banal ou kitsch de algum elemento cultural, frequentemente por meio da ironia. Com essa aproximação entre arte e design comercial o artista borrava, intencionalmente, as fronteiras entre o erudito e o popular, concebendo, assim, a obra sem enfatizar tanto a arte em si, mas as atitudes que a conduzem.

Anna Calvera (1992) considera o kitsch como uma questão obsoleta uma vez que já tenha sido incorporado, não como estilo, mas como comportamento, às necessidades e aos costumes que, em uma sociedade dominada pela lógica industrial ou pós-industrial, ainda se satisfazem com os objetos de design. Ainda assim, o kitsch, a moda, a nostalgia, o pastiche e a sobreposição são o que dão a liga necessária para as novas formas culturais do pós-modernismo.

Para Harvey (1992, p. 58), o pioneirismo de Rauschenberg destacou-se por reproduzir ‚Äď em vez de produzir ‚Äď suas imagens atrav√©s do ¬ęconfisco, cita√ß√£o, retirada, acumula√ß√£o e repeti√ß√£o de imagens j√° existentes¬Ľ, o que fez com que a aura modernista do artista, como produtor, tenha sido dispensada.

A p√≥s-modernidade levou os artistas visuais a imprimirem a vis√£o de um mundo baseada em experi√™ncias de sequ√™ncias gr√°ficas cambiantes, com sobre e justaposi√ß√Ķes, caracterizada pela presen√ßa da est√©tica do palimpsesto, como parte de uma estrutura capaz de promover experi√™ncias complexas para os pale√≥grafos e arque√≥logos do futuro.

H√° algum tempo, as artes gr√°ficas vem apresentando a est√©tica visual do palimpsesto e outras modalidades de representa√ß√£o gr√°fica na (des)constru√ß√£o do objeto visual comunicador. Com tais recursos, √© criada uma narrativa gr√°fico-visual de textura cambiante que coaduna com a liquidez t√≠pica da era contempor√Ęnea.

No campo da visualidade, os tra√ßos mais not√°veis da arte p√≥s-moderna s√£o a valoriza√ß√£o das formas industriais e populares, o enfraquecimento das barreiras entre g√™neros e o uso deliberado e insistente da intertextualidade, expressa frequentemente mediante a ¬ęcolagem¬Ľ ou o pastiche.

Na literatura, o pós-modernismo provocou a fusão do espaço e do tempo na narração e a percepção difusa da realidade, assim como os diferentes pontos de vista do(s) narrador(res), junto à simultaneidade dos gêneros, especialmente no romance, levou à ruptura das técnicas clássicas, abolidas por uma absoluta liberdade tanto em estilo, como em forma e fundo. Na literatura de imagens a realidade e a ficção compartem o mesmo espaço-tempo e isso se assemelha à cinematografia, onde os desenhos animados compartilham os mesmos lugares e a mesma vida que os atores de carne e osso.

Um dos sintomas sociais mais significativos da pós-modernidade foi muito bem traduzido pelo cinema nos filmes Matrix e Blade Runner, além de toda filmografia de Larry Clark, onde o realce da estética e a ausência de culpa causal, unidos à percepção de um futuro e uma realidade incerta, ficam evidentes. Em todos observamos preeminência dos fragmentos sobre a totalidade, ruptura da linearidade temporal, abandono da estética do belo ao estilo kantiniano, perda da coesão social e, principalmente, a primazia de um tom emocional melancólico e nostálgico.

Atenção à cultura de massa e à democratização estética como resultado de seu propósito de unir o romance com a vida.

Este ponto √© o que mais interessa na rela√ß√£o literatura e cultura popular, na medida em que o p√≥s-modernismo est√° intimamente relacionado com a consolida√ß√£o do fen√īmeno da massifica√ß√£o da arte, que em geral se manifesta pela integra√ß√£o (principalmente pela cita√ß√£o e o pastiche) de c√≥digos can√īnicos e c√≥digos massivos e que no campo particular da literatura d√° origem ao termo ¬ęparaliteratura¬Ľ.

As características gerais da literatura pós-moderna também se manifestaram, como é de se supor, na literatura infantil atual.

Na era p√≥s-moderna, as rela√ß√Ķes entre o sistema liter√°rio da literatura adulta e o sistema liter√°rio da literatura infantil t√™m sofrido mudan√ßas, diluindo-se a oposi√ß√£o e m√ļtua exclusividade. A tens√£o das fronteiras tem diminuindo, permitindo que as caracter√≠sticas, obras e fun√ß√Ķes de um sistema transpassem para o outro, com apari√ß√£o de tra√ßos comuns aos dois sistemas.

Vale ressaltar que as mudan√ßas na literatura infantil n√£o apenas adv√©m da incorpora√ß√£o de c√≥digos da literatura de adultos, mas que tais mudan√ßas tamb√©m provem de outras √°reas ‚Äď Nikolajeva (1996, p, 65 ‚Äď apud ORTEGA, 2005) adota a terminologia ¬ęsemiosferas¬Ľ ‚Äď como o cinema, os quadrinhos e videojogos.

As mudanças nas normas literárias dentro do sistema da literatura adulta têm afetado a definição da literatura infantil atual, como afirma Nikolajeva:

¬ęMinha tese √© que um segmento crescente de literatura infantil contempor√Ęnea est√° transgredindo suas pr√≥prias fronteiras, aproximando-se da literatura convencional, e que apresentam as caracter√≠sticas mais proeminentes do p√≥s-modernismo, tais como o ecletismo g√™nero, desintegra√ß√£o das estruturas narrativas tradicionais, polifonia, intersubjetividade, e metafic√ß√£o¬Ľ.

NIKOLAJEVA (1998, p. 222)

O livro ilustrado remonta √† primeira metade do s√©culo XIX, tendo Der Struwwelpeter (1844) de Heinrich Hoffmann como refer√™ncia, mas que somente encontrou sua m√°xima produ√ß√£o e design no s√©culo seguinte quando conflu√≠ram dois momentos na hist√≥ria da humanidade que drasticamente o transformaram: a Modernidade e a P√≥s-modernidade. Aquela obra rompeu com os paradigmas da literatura da √©poca, pois o preceito do autor, ¬ęa crian√ßa s√≥ compreende e concebe o que v√™¬Ľ (DURAN, 1999, p. 19), sem querer levou o autor alem√£o a criar um g√™nero liter√°rio dentro da literatura infantojuvenil, que foi o livro ilustrado.

Ao dar maior import√Ęncia √† imagem, o texto foi se omitindo ou se ajustando √†s exig√™ncias dos autores e, definitivamente, sua presen√ßa no livro ilustrado n√£o se torna preponderante nem tampouco decorativa, mas como contraponto ou complemento.

No período pós-modernista, a materialidade do livro torna-se uma de suas qualidades mais exploradas, com a expansão da narrativa às guardas (capa, quarta capa, orelhas etc.), a exploração dos formatos e a quase ausência de texto.

O livro ilustrado vai al√©m de seu estado de objeto impresso j√° que sua forma de comunica√ß√£o com a crian√ßa se baseia em um novo ¬ęmodo de ler¬Ľ. Um modo que n√£o existia antes da P√≥s-modernidade e que se ad√©qua perfeitamente a esta nova realidade.

Na Pós-modernidade, o livro ilustrado encontrou outros suportes para difundir-se, como na web, vídeos, DVD ou CD com imagens e áudio. Até os dias atuais tem-se transladado do gráfico a outros gêneros como o cinema, o teatro e os musicais.

O livro ilustrado n√£o √© alheio √† problem√°tica contempor√Ęnea mas uma de suas representa√ß√Ķes que permite o estudo dos reflexos das sociedades que tem sido capturados nas p√°ginas dos livros, propiciando inclusive estudos sobre os acontecimentos nas sociedades atuais.

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Referências

  • CALVERA, Anna. El kitsch'92: la dignificaci√≥n del souvenir ol√≠mpico. Temes de Disseny, 1, 7, 1992, p. 45-53.
  • CAUDURO, Fl√°vio. Design gr√°fico & p√≥s-modernidade. Revista FAMECOS, n¬ļ. 13. Porto Alegre: PUCRS, dezembro 2000, p. 127-139.
  • DURAN, Teresa. Hay que ver! Una aproximaci√≥n al √°lbumilustrado! Salamanca: Fundaci√≥n Germ√°n S√°nchez Ruip√©rez, 1999.
  • HARVEY, David. Condi√ß√£o p√≥s-moderna. S√£o Paulo: Edi√ß√Ķes Loyola, 1992.
  • NIKOLAJEVA, Maria. Exit children's literature? The Lionand the Unicorn. The Johns Hopkins University Press. v. 22, n¬ļ 22, April, 1998. p. 221-233.
  • ORTEGA, Mar√≠a Cecilia Silva-D√≠az. Libros que ense√Īan a leer: √°lbumes metaficcionales y conocimiento literario. Tesis Doctoral. Universidad Aut√≥noma de Barcelona. Departamento de Did√°ctica de la lengua y la Literatura y de las Ciencias Sociales. Barcelona, 2005.
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Luiz Claudio Gonçalves Gomes

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