Design velho numa sociedade nova

Num cenário em que o design atrai cada vez mais o interesse e os designers estão sendo mais solicitados, a pergunta que se faz é: eles estão preparados para atender essa demanda?

Ricardo Martins Curitiba
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Nunca se falou tanto sobre design como agora. O Design virou a palavra da vez, agora faz parte do discurso de administradores, políticos, economistas, pregando a importância do papel do design na inovação, no desenvolvimento, na sustentabilidade, e assim por diante.

Nesse cenário em que o design atrai cada vez mais o interesse, e os designers estão sendo mais solicitados, a pergunta que se faz é: eles estão preparados para atender essas demandas? O tipo de designer que está sendo formado hoje nas universidades está à altura dos desafios que surgem à sua frente? A resposta é: não. Por que?

O modelo de designers que estamos formando hoje é velho e ultrapassado, e não responde às necessidades que se impõem atualmente. Esse modelo é resultado de algumas abordagens de ensino adotadas pelas faculdades de design. Alguns cursos focam demais no designer prático (formalista), deixando a teoria de lado por achar que ela é perda de tempo. Ou se concentram no design teórico, em pesquisas acadêmicas, deixando a prática de lado, imaginando que a teoria por si só vai dar conta dos detalhes práticos.

Outros cursos focam no design politizado, imaginando que o papel do designer é salvar o mundo e que somos o centro de tudo. O que nós fazemos tem impacto global e cabe a nós defender a humanidade do mal e da devastação da natureza. Já há outras faculdades que não querem salvar o mundo, mas querem salvar o bolso e o emprego dos designers, atendendo às exigências de um tal de «mercado» (afinal isso é bom e ajuda o país). Por último, quando não estão concentradas em salvar o mundo ou destruir o mundo, alguns cursos deixam de lado essa discussão e focam no modo de fazer as coisas, pensando que a tecnologia é a solução dos problemas e atende todas as necessidades.

Qual desses modelos é o melhor? Que tipo de designers precisamos formar para responder aos desafios que surgem na sociedade, principalmente agora que o design está chamando cada vez mais a atenção?

Na verdade aí está o problema: não temos que escolher um modelo ou outro. É justamente essa atitude que desequilibra a formação dos designers. Todos esses modelos que eu citei tem pontos fracos e pontos fortes, e adotar apenas um deles não dá conta das necessidades de formação dos designers.

O que nós precisamos não é designers teóricos, designers práticos, designers politizados, designers consumistas ou designers tecnológicos. Precisamos é de designers de valor. Eles devem ser criativos, construtivos, de visão independente, que não sejam escravos do sistema capitalista, nem heróis da humanidade com suas ideias pró-sustentabilidade, nem gênios tecnológicos.

Precisamos de profissionais capazes de desempenhar seu trabalho com conhecimento, inovação, sensibilidade e consciência. O papel das escolas de design é fomentar essas qualidades nos alunos e não apenas atender as normas de um sistema consumista que se preocupa só com lucros a curto prazo. As escolas devem satisfação a toda a sociedade, e não apenas às empresas que empregam designers.

Os estudantes de design não deveriam apenas fazer projetos, com coleta de dados, pesquisas e relatórios, para resolver um problema prático ou teórico. Deveriam também fazer uma reflexão sobre o problema, em termos dos seus princípios e valores implícitos, e do significado disso para o design e para a sociedade.

O objetivo dos conteúdos ensinados nas faculdades deveria ser o de oferecer uma visão clara sobre a atuação do designer, ajudando-o a situar seu trabalho nos devidos contextos intelectuais, conceituais e históricos. A consciência sobre os valores, tanto explícitos, quanto implícitos é o elemento essencial com o qual as matérias da faculdade podem contribuir para o ensino do design. O designer deve pensar no impacto positivo do design para garantir a sustentabilidade ambiental, mas também deve refletir sobre o papel negativo do design como estímulo do consumo.

Devemos evitar professores de faculdades que nunca fizeram design na vida, que não tem a menor noção de como os designers pensam e criam, e que encaram a prática como nada mais do que uma demonstração de teorias. Mas também devemos evitar professores que não tem nenhum respeito pelo estudo acadêmico, que acham que o design não passa de uma atividade empírica, que se aprende fazendo.

As faculdades devem formar designers que sejam conscientes sobre o impacto da prosperidade, do consumismo e do estilo de vida como forças sociais e culturais num sentido mais amplo. Essa compreensão torna o aluno menos propenso a gerar soluções aleatórias com base em suposições erradas ou incompletas, e esteja melhor posicionado para gerar soluções informadas, abrangentes e completas com base em uma compreensão profunda dos valores que dão origem ao projeto de design.

Longe de ser um mero sonhador, um teórico distante ou um técnico sem imaginação, o designer valorizado é, em resumo:

  • Aquele que possui uma compreensão crítica dos valores que fundamentam o design.
  • É corajoso, disposto a defender ideais sociais e culturais mais elevados do que o consumo a curto prazo que leva à destruição do meio-ambiente.
  • Enxerga no design o potencial para contribuir para uma qualidade de vida melhor e mais sustentável.
  • Tem consciência do seu próprio valor.

Portanto, nota-se a necessidade de se desenvolver um modelo para um novo tipo de designer, munido de uma compreensão mais aprofundada e bem mais complexa da questão de valores, e da sua responsabilidade com o mercado, com a sociedade e com o meio-ambiente.

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Esse texto é baseado no artigo «O Designer Valorizado», do autor Nigel Whiteley.

This article does not express the opinion of the editors and managers of FOROALFA, who assume no responsibility for its authorship and nature. To republish, except as specifically indicated, please request permission to author. Given the gratuity of this site and the hyper textual condition of the Web, we will be grateful if you avoid reproducing this article on other websites. Published on 20/03/2013.

Ricardo Martins

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Cid Castello
Apr 2013

Sábias palavras de um profissional que vi nascer e que se tornou uma referência na profissão, assim como na minha vida.

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Walmor Georgio de Paula
Mar 2013

Concordo com suas colocações com relação a formação dos Designers, mas as vezes penso que precisamos pensar melhor sobre a solidificação do Design como ciência e profissão, tirar o foco do Designer, não podemos pensar que 1 Designer seja capaz de realizar o que a atividade de Design tem potencial para gerar.

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Tiago Toledo
Mar 2013

Concordo com o fato de que há um problema na formação do designer. Achei ótimo o panorama traçado das faculdades e tipos de designers.

Não concordei com os problemas detectados e supostas soluções, pareceu uma insatisfação generalizada, impossibilitando se pensar em soluções.

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William Motta
Mar 2013

Me incluindo no alvo da crítica (atitude que acho que falta muito nessa área), formado por escola de design, entendo que muitas delas tentam formar idealizados «pensadores de design», mas o máximo que conseguimos é «parir» ou sermos paridos como razoáveis projetistas, para uma demanda impróspera e muito restrita de mercado (verdadeiros «guetos criativos») e(ou) com entulhos acadêmicos. Há uma fervescente procura pelo design (sua metodologia, pensamento e valores), mas não corresponde a procura pelos profissionais de design. Talvez por que o «externo» ainda não o reconheça como intermediador.

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Walter Pidluznyj
Mar 2013

Excelente, o ensino de um professor com vivência prática no Design, e não somente teoria, quebra o paradigma que ouvi algumas vezes dentro de agências: «quem sabe faz, quem não sabe ensina».

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Tulio Filho
Mar 2013

puxa Ricardo. matou um artigo que eu estava escrevendo. disse tudo!! as plataformas são múltiplas e ficar pensando design como gráfico ou produto, por exemplo, é superado. o resultado está na evasão escolar e pior, na evasão pós-formado. realmente as instituições de ensino ainda privilegiam a cultura do fazer e apresentar o projeto, muitas vezes em detrimento do pensar e planejar o projeto. sempre que visito instituições, me decepciono pelo trabalho apresentado. meu conselho, há muito tempo, tem sido apenas um só: ousem muito. mas muito mais. se há um espaço para isto, este deve ser a IE.

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Olivia Pezzin
Mar 2013

Desculpe mas, para mim, você não disse nada.

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Vítor Diogo
Mar 2013

Um belo artigo! Parabéns ao autor.

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Luiz Renato Roble
Mar 2013

Muito bom Ricardo. É muito importante acordar e olhar as coisas de uma forma diferente. Cada vez mais o design se distancia de ser apenas desenho. acredito que é muito mais do que isso. É designar, compreender, absorver, interrogar e principalmente, dizer não a muitas possibilidades e acreditar em uma melhor solução.

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Guilherme Luiz Machado
Mar 2013

Concordo plenamente. O despreparo de alguns professores e alunos são cada vez mais frequentes em sala de aula. A velha questão: sei desenhar, sou designer.

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Alvaro Sousa
Mar 2013

Uma abordagem bastante interessante, pertinente e realista, do que deve ser o design e a formação na atualidade. Muito bom.

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