A cultura da razão

Sobre o declínio dos instintos primitivos e a ascenção dos fundamentos racionalistas, analíticos e cartesianos.

Andre Bello Rio de Janeiro
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Que luz é essa que vem vindo lá do céu?
É a chave que abre a porta lá do quarto dos segredos,
Vem mostrar que nunca é tarde, vem provar que é sempre cedo,
Para cada pecado sempre existe um perdão,
Não tem certo nem errado, todo mundo tem razão,
E que o ponto de vista é que é o ponto da questão».

Raul Seixas

Durante o processo de desbravamento do ambiente externo protagonizado pelo homem pré-histórico, de forma instintiva, quando éramos pouco mais que um animal com os quais disputávamos a vida, nos utilizamos de outro grande fator para nossa sobrevivência e evolução: o poder de observação. O mesmo poder de observação do homem, que tanto nos ajudou a nos desvencilhar de problemas e poder sobreviver e evoluir, ofereceu, não por coincidência, o desenvolvimento da dedução e da razão.

O desenvolvimento da linguagem como forma de expressão do pensamento consciente contribuiu para que as suposições e premissas fossem transmitidas ao longo das gerações. A razão e a relação «causa e efeito» acabaram por se tornar as ferramentas mais confiáveis até os dias de hoje para se definir o que é certo, verdadeiro ou melhor.

A base de todo o desenvolvimento moderno da humanidade deu-se através das manifestações da cultura da razão. Ficaria difícil imaginar em que patamar estaria a humanidade sem o apoio da dedução como método superior de investigação filosófica. Como estaríamos sem o auxílio da metodologia científica, sem a proposição de caminhos para o alcance de determinados fins? Sem planejamento linear e objetivo? Ou seja, em que pé estaria nossa tecnologia sem o auxilio da razão? Inegável seu valor.

Fazendo um recorte dos últimos 300.000 anos e fazendo-se valer inclusive desse mesmo poder de observação e análise racional, fica muito evidente que o primeiro forte caminho utilizado pelo ser humano, lá na Idade da Pedra Lascada – o Instinto Primitivo – foi dando lugar a Cultura da Razão, o segundo forte caminho que prevalece até os dias de hoje e nos quais vivemos a atual revolução tecnológica. O instintivo foi cedendo lugar ao racional.

Anos e anos de evolução e a sociedade favoreceram os exemplares humanos que fundamentavam suas ações através da razão. De uma forma geral nossa forma de agir e pensar se desenvolveu valorizando a cultura da razão e foram esquecidos outros aspectos tão importantes quanto: como a intuição, a emoção, a superstição, a fé, etc.

A história nos oferece exemplos claros de como somos educados e induzidos a pensar sempre da mesma maneira. O simples fato de se pensar de uma forma diferente do tido como certo já foi motivo para grandes julgamentos, acusações e condenações e morte!

Há rumores de que foi Giordano Bruno, em 1600, morreu na fogueira com uma tábua de pregos na língua, para parar de blasfemar.

No século XV Copérnico pensou diferente. Contestou a teoria do Geocentrismo, propondo a teoria do Heliocentrismo, que colocava o Sol no centro do Sistema Solar. A igreja católica, dominante no momento, cogitou aceitar a teoria desde que fundamentada matematicamente. Ou a verdade era científica ou não era verdade. Somente Galileu, quase um século depois, teve problemas com a Inquisição e, ao que consta, teve que fazer uso de sua influência política à época para escapar com vida do tribunal. Mas, por conta do Heliocentrismo, há rumores de que foi Giordano Bruno, em 1600, quem morreu na fogueira com uma tábua de pregos na língua, para parar de blasfemar.

Pensar em liberdade nessa época certamente levaria o individuo para a inquisição. Muitos eram acusados de «crises de fé», responsabilizados por pestes, terremotos, doença e até miséria social. Outros eram tidos como bruxos e feiticeiros. Todos condenados a penas que variavam desde o simples confisco de bens até a prisão, castigos físicos e morte.

Esse processo perdurou, naturalmente com menor intensidade, até o século XIX, e deixou como legado para a sociedade ocidental um modelo baseado nos fundamentos racionalistas, analíticos e cartesianos. Com exceção da época do Renascimento, a sociedade simplesmente aboliu a emoção e a intuição da grande massa popular.

Mais uma vez, anos e anos, gerações e gerações modelaram nossa forma de pensar. A história censurou nossa criatividade e nos impôs, impiedosamente, o critério que define o que é o certo é o que é o errado.

Editor: Joaquin Presas Curitiba
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Andre Bello

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