Os concursos de design

Os concursos n√£o s√£o a causa dos principais problemas estruturais da profiss√£o de design, mas s√£o um excelente reflexo deles.

Retrato de Jorge Illich Carpinteyro Jorge Illich Carpinteyro Leiria

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Os concursos de design estenderam-se a diversas áreas praticas do exercício da profissão. Ainda que não sejam a origem dos principais problemas estruturais do design, são um reflexo dos mesmos. Assim sendo, afetam profundamente a percepção que a sociedade (empresas, clientes, universidades etc.) tem da profissão, por refletirem aspectos fundamentais sem resolver, e que contribuem fortemente a uma desvalorização e descrédito de seus profissionais. Que problemas estruturais são esses?

  • Valor da forma√ß√£o. A exist√™ncia de concursos direcionados a estudantes e professionais, desvaloriza a forma√ß√£o. Para quem lan√ßa um concurso a forma√ß√£o n√£o importa, o que sim importa s√£o as boas ideias; portanto, entende-se que a forma√ß√£o contribui pouco a constru√ß√£o de um bom designer, e que qualquer um pode fazer seu trabalho desde quando tenha ¬ęboas ideias¬Ľ.

  • Valor do processo. A maioria dos concursos de design avalia os componentes formais do produto e ignora os componentes funcionais (entendendo por funcional a rela√ß√£o do produto com o usu√°rio e seu contexto, da mat√©ria prima ao descarte). Quando se lan√ßa um concurso de design, na maioria dos casos, n√£o s√≥ a informa√ß√£o proporcionada aos participantes omite aspectos importantes, como tamb√©m se restringe a possibilidade de requerer dado adicional. Quando se prop√Ķem em solucionar algo sem considerar toda a informa√ß√£o necess√°ria para isso, estes mesmos designers desvalorizam o papel que desempenham no processo de desenvolvimento do produto. E uma vez que aceitam tais condi√ß√Ķes, confirmam que o √ļnico que eles t√™m a oferecer s√£o ¬ęboas ideias¬Ľ, que n√£o necessitam muita informa√ß√£o e analise para trabalharem e que, portanto, o irrelevante papel do profissional no processo.

  • Valor do conhecimento. A maioria dos concursos de design avalia imagens (solu√ß√Ķes formais). Este pode ser um dos pontos mais pol√™micos, que talvez muitos designers assim n√£o o consideram. Pessoalmente entendo o Design como um processo que gera conhecimento sobre um problema a ser resolvido, que permite identificar e avaliar, para tal, a melhor solu√ß√£o. Somente, se baseando na informa√ß√£o gerada (documenta√ß√£o do conhecimento), √© poss√≠vel gerar e avaliar a solu√ß√£o formal adequada. Quest√£o essa que nunca considera a maioria dos concursos, e faz com que a sociedade julgue que projetar (ou designar) consiste em fazer desenhos, algo que qualquer pessoa poderia faz√™-lo.

  • Valor do relacionamento. O tipo de relacionamento que se estabelece nos concursos n√£o implica ao menos um v√≠nculo laboral nem uma presta√ß√£o de servi√ßos eventual. Quando participam de concursos os designers admitem que n√£o necessitam nenhum tipo de v√≠nculo com as empresas as quais trabalham; que para conseguir um design n√£o se exige contratar a ningu√©m, organizar um concurso √© o suficiente.

  • Valor do respeito. Os concursos s√£o uma falta de respeito da sociedade para com o Design, j√° que n√£o submetem outros profissionais a condi√ß√Ķes mais injustas.

  • Valor do trabalho. Quando se avaliam as propostas para um concurso e se determina que um √ļnico trabalho serve entre mil, se cria na sociedade a ideia de que quase todos os profissionais n√£o est√£o aptos para atuar, ou que o Design √© quest√£o de sorte.

Resumindo, os concursos s√£o ruins e, a causa de muitos problemas de design? A causa, definitivamente, n√£o o s√£o, mas um reflexo da conduta de seus profissionais. √Č importante erradica-los, mas mais importante ainda √© que todos compreendam por que se deveria faz√™-lo, e de uma vez por todas solucionar os problemas estruturais que impedem o Design de assumir o papel que lhe caberia na sociedade. Atualmente h√° designers que entendem seu valor, mas falta muito ainda por conscientizar.

Traduzido por Thales Aquino Rio de Janeiro

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Retrato de Jo√£o Vasco Neves
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Jo√£o Vasco Neves
Jan 2015

Excelente reflex√£o. Falta somente abordar a quest√£o financeira. Considero que os concursos s√£o igualmente uma forma dos seus promotores pouparem significativamente quanto ao real custo do trabalho.

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