Avis rara: o designer que não projeta suas apresentações

As apresentações pobremente planejadas são habituais e pouco eficientes. Mas quando são de um designer ou professor de design, é imperdoável.

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Como designer, gosto de ver o que meus colegas fazem. Em geral tenho visto conferências profundas (às vezes polêmicas) e muito interessantes. Entretanto, cada vez mais me assusta ver projeções cheias de texto, sem diagramação nem espaço em branco e com erros grosseiros de ortografia. Este problema ganha proporção quando os trabalhos expostos são designs de grande qualidade. Nesses casos não posso deixar de pensar na evidente contradição. Que discrepância entre apresentação visual e conteúdo!

Quanto sofre uma boa idéia ou trabalho quando sua apresentação não é bem planejada? Uma voz autorizada para responder poderia ser a de Steve Jobs. Os produtos da Apple são excelentes, mas ele sabia que só qualidade não é suficiente; que a forma de comunicar importa, e muito! Sua filosofia era clara: se os produtos são maravilhosos, sua apresentação também deve ser maravilhosa. Não é necessário dizer que Jobs é considerado um dos melhores apresentadores de nosso tempo.

Se um designer se prepara para expor sua estratégia, teoria ou produto de design para um público, então os eslaides que projeta também devem ser o resultado de um processo de design. Um professor que exponha sobre teoria do design e projete eslaides com uma lista interminável, imagens de baixa qualidade, diagramadas ao acaso, falta de alinhamento e baixo contraste, gerará dúvidas a respeito de sua autoridade, de sua teoria ou de sua capacidade para transpor os conceitos para a prática.

Ler os textos diretamente da tela é um costume tão comum quanto ineficiente. A Teoria da Carga Cognitiva e as investigações de cientistas e neurobiólogos (como John Medina ou Susan Weinschenk) demonstram o quão difícil é para o público processar a informação quando lhe é apresentada em forma oral e escrita, simultaneamente. O que concluem em seus trabalhos é que a multitarefa, quando se trata de prestar atenção, é um mito: lemos o eslaide ou escutamos o expositor, mas não fazemos bem ambas as coisas ao mesmo tempo. Desse modo, um apresentador que lê eslaides dando as costas para o público não só gera dúvidas sobre o que realmente sabe como também provoca chateação e desinteresse.

Uma melhor opção seria permanecer em silêncio e permitir que o público leia os eslaides. Mas se isso fosse o caso, os assistentes teriam todo o direito de perguntar ao apresentador: "para que está aí?"; "por que não nos enviou a apresentação por e-mail?". Eventualmente, estas perguntas podem surgir independentemente se o apresentador lê ou não. O resultado é uma audiência que se sente estafada e com vontade de reclamar por uma hora perdida de sua vida.

Os eslaides que transcrevem o discurso do apresentador são comuns nas aulas teóricas das faculdades de design. Por que muitos professores enchem de textos seus eslaides? Uma possível resposta é que quando o fazem têm uma falsa ilusão de eficiência: um mesmo arquivo serve para apresentação e anotações. Acreditam economizar tempo quando matam dois coelhos com uma cajadada, mas o único que matam é a efetiva comunicação. Uma apresentação oral com projeção de imagens é diferente de um documento bem escrito e a tentativa de misturá-los gera pobres apresentações e pobres documentos. Esses eslaides serão visualmente deficientes e como anotações carecerão de profundidade

Uma melhor maneira consiste em redigir um bom documento para entregar como anotação depois da aula, ou conferência, e em preparar bons eslaides. São duas ações diferentes e que demandam um pouco mais de esforço, mas vale a pena.

Para terminar, tenho duas notícias: uma má e outra boa.A má é que a maioria das apresentações multimídia é insuficiente e pouco efetiva. A boa notícia é que, nesse contexto, fazer uma boa apresentação é uma excelente oportunidade para se destacar. Uma oportunidade que, em geral, todo expositor deveria aproveitar, especialmente os designers e docentes.

Traduzido por Luiz Claudio Gonçalves Gomes Campos Dos Goytacazes

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Alexandre Fontes
Jan 2014

E é incrível como isso acontece! Ótimo ponto de reflexão.

Arrisco dizer que praticamente todos alunos já passaram ou passarão por uma situação dessas. Como é terrível: um conteúdo interessante, um professor de inteligência aguçada, ambos ofuscados por uma apresentação pobre, maçante e confusa.

Neste ponto, acho que alguns designers/professores poderiam aprender com os publicitários, que muitas vezes tornam a apresentação envolvente como parte-chave do "produto" que querem vender.

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