Apropria√ß√Ķes art√≠sticas

Uma hist√≥ria de humor na qual a realidade √© mais ir√īnica do que a arte.

Retrato de Rique Nitzsche Rique Nitzsche Rio de Janeiro

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Em 2004, quinhentos profissionais da arte brit√Ęnica foram desafiados a escolher a obra de arte mais influente do s√©culo XX. Eles escolheram uma escultura que nunca viram: a Fountain de Marcel Duchamp. Nenhum deles esteve presente diante da verdadeira obra que se tornou um mito. Todos eles viram c√≥pias: uma foto em preto e branco, ou uma das poucas r√©plicas criadas a partir da foto da √©poca.¬†O grupo de 500 pessoas escolheu uma boa hist√≥ria, uma realidade imaginada.

Vou tentar resumir essa hist√≥ria que mistura design, arte e humor ir√īnico. Duchamp, pintor franc√™s e jogador de xadrez, havia se tornado membro fundador da Sociedade Americana de Artistas Independentes em Nova York. Em 1917, os Independentes resolveram montar a maior mostra de arte moderna at√© ent√£o nos Estados Unidos, uma c√≥pia do Salon des Ind√©pendants de Paris. Duchamp decidiu criar um atentado criativo radical na exposi√ß√£o.

Comprou um mict√≥rio de porcelana, modelo Bedfordshire, comumente usado em banheiros coletivos masculinos, na loja J. L. Mott Iron Works na Quinta Avenida. Em seu ateli√™ assinou em preto ¬ęR. Mutt 1917¬Ľ na lateral da lou√ßa. Ele desejava questionar o pretensioso mundo dos neg√≥cios da arte, com seus especuladores, colecionadores gananciosos e diretores de museus arrogantes. O mijador era uma mensagem em busca de um alvoro√ßo.

Enfim, a pe√ßa foi despachada para o sal√£o de exposi√ß√Ķes do Grand Central Palace na Lexington Avenue. Foi inscrita por US$ 6 e causou um debate acalorado entre a turma de Duchamp contra o resto mais conservador da diretoria. A escultura foi rejeitada uma hora antes da abertura da exposi√ß√£o por ser ¬ęimoral e vulgar¬Ľ. A hist√≥ria poderia ter terminado por a√≠, entre risadas na comemora√ß√£o com os amigos.

Mas, foi o início de uma longa jornada. Dias depois, Duchamp localizou a obra que tinha sido armazenada atrás de uma divisória no ambiente da exposição. Levou-a para ser fotografada pelo já famoso e reverenciado Alfred Stieglitz, o primeiro fotógrafo a ter uma foto exposta em um museu. Isso mudou tudo. A foto documentou o objeto sensação, deu legitimidade e autoridade à obra e foi publicada em um artigo.

Assim, um urinol comum das paredes dos banheiros p√ļblicos, tornou-se um readymade, uma escultura j√° pronta, um objeto comum transformado em obra de arte pelo desejo do artista. O que aconteceu com a escultura original, a pe√ßa comprada e assinada por Duchamp, √© um mist√©rio com v√°rias vers√Ķes. Poucas pessoas a viram presencialmente.

A hist√≥ria foi crescendo espontaneamente. Os colecionadores e museus desejavam ter uma c√≥pia da escultura-s√≠mbolo da arte conceitual. Hoje, v√°rios exemplares da Fountain podem ser encontrados em cole√ß√Ķes de arte. Para o prazer ir√īnico de Duchamp, as vers√Ķes n√£o s√£o readymade, mas c√≥pias cuidadosamente trabalhadas √† m√£o porque o mict√≥rio original deixou de ser fabricado antes da fama explodir.

A peça que eu vi no MOMA SF era a quarta versão. Naquela visita, fiz uma pergunta para mim mesmo. Alguém sabe quem foi o verdadeiro designer original daquele equipamento sanitário Bedfordshire de 1917? Quem foi o autor do urinoir de louça que não recebeu nenhum tostão de direitos autorais pela apropriação de Duchamp? Provavelmente, se perdeu na história.

Como informa√ß√£o sobre a ind√ļstria da arte, uma das 8 r√©plicas de 1964 da Fountain foi vendida pela Sotheby‚Äôs por US$ 1,772 milh√Ķes, em 1997.

Duchamp criou uma irrever√™ncia que ganhou asas, voou e gerou uma signific√Ęncia que foi muito al√©m da inten√ß√£o. O ¬ęindependente¬Ľ redefiniu o que a arte poderia ser: uma ideia, sem depender da est√©tica. Ele √© o artista mais reverenciado pelos artistas contempor√Ęneos.

Moral dessa parte da hist√≥ria: como na filosofia, o que importa √© a ideia, n√£o a literatura embutida nas palavras do fil√≥sofo. Mas, hist√≥rias c√©lebres sempre rendem continua√ß√Ķes.

Dois designers norte-americanos, Bryan Cera e Scott Kildall, deram uma continuidade simp√°tica ao conceito dos readymade de Duchamp. Eles descobriram v√°rias fotos antigas do artista jogando xadrez, uma paix√£o sua. Os dois parceiros em design 3D gostaram das pe√ßas do tabuleiro, um conjunto de madeira criado pelo pr√≥prio Duchamp em Buenos Aires entre 1917 e 1918. Pelo que eles pesquisaram, essas pe√ßas teriam se perdido. Decidiram ent√£o ressuscitar os objetos do esquecimento como ¬ęuma homenagem √† vida e √† carreira de Duchamp¬Ľ.

Por prazer, em meados de 2014, reproduziram as pe√ßas baseados na fotos e deixaram os arquivos dispon√≠veis na internet. Qualquer pessoa que desejasse, poderia baixar e reproduzir os objetos em equipamentos de ¬ęimpress√£o¬Ľ em 3D, a partir de pl√°stico fundido com endurecimento r√°pido. Com humor, chamaram o projeto de Readymake: Duchamp Chess Set, uma evolu√ß√£o do conceito original do artista. Fizeram tamb√©m uma declara√ß√£o: ¬ęO readymake traz o conceito do objeto apropriado para o reino da internet, explorando o potencial da web para redefinir informa√ß√Ķes e dados, e suas rela√ß√Ķes rec√≠procas para quest√Ķes e ideias¬Ľ.

O tempo passou e em setembro de 2015, eles receberam uma comunica√ß√£o dos advogados franceses dos herdeiros de Duchamp alegando viola√ß√£o de propriedade intelectual. A situa√ß√£o se tornara de ir√īnica √† tensa. Duchamp nunca recebeu qualquer demanda judicial dos designers ou artistas que eram os autores originais dos diversos objetos apropriados por ele. Cera e Kildall s√£o americanos, onde a lei permitiria a reprodu√ß√£o das obras criadas por Duchamp. Mas a lei francesa as protege at√© 2038. Enfim, uma confus√£o internacional.

Os dois então escreveram diretamente para a fundação que cuida da obra de Duchamp. Receberam uma carta educada que dizia que aqueles moldes digitais poderiam gerar peças de baixa qualidade no mercado. Foram gentis, mas não abriram mão da decisão de impedir a produção das peças de xadrez. Cera e Kildall teriam que tirar os arquivos disponíveis no site. Depois de consultar diversos advogados, eles recuaram e deletaram definitivamente os arquivos disponibilizados na internet.

Por√©m, como artistas jovens e ir√īnicos, Cera e Kildall recriaram a ideia. Colocaram no ar um novo arquivo: chess with mustaches, ou seja, xadrez com bigodes. Agora, todas as pe√ßas possuem bigodes, como a ir√īnica Mona Lisa do pr√≥prio Duchamp. O rei e a torre tamb√©m possuem um cavanhaque. Agora, eles esperam ser abrangidos pelos precedentes legais para par√≥dias dentro dos Estados Unidos. O esp√≠rito de Duchamp deve estar sorrindo com esse √ļltimo lance irreverente do jogo de xadrez conceitual.

Duchamp tinha 30 anos em 1917 e o mesmo impulso ir√īnico de Cera e Kildall. Vida longa √† juventude que expande o cen√°rio cultural com humor.

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Rique Nitzsche

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