Volkswagen: entendimento e cumplicidade do produto

Rápidas considerações a partir de Foucault e Magritte.

Retrato de Alessandro Valerio Santos Alessandro Valerio Santos Rio de Janeiro

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Ilustração principal do artigo Volkswagen: entendimento e cumplicidade do produto

Artigo em co-autoria com Jorge Lucio de Campos.1

Considerado por alguns estudiosos uma espécie de novo Kant,2 Michel Foucault (1926-84) − que nunca foi (nem pretendeu ser) um pensador afeito à tradição − rejeitou e absorveu as ideias e os pontos de vista de filósofos como Georg W. F. Hegel (1770-1831), Martin Heidegger (1889-1976), Jean-Paul Sartre (1905-80), Karl Marx (1818-83) e Friedrich W. Nietzsche (1844-1900).

No ensaio Ceci n’est pas une pipe («Isto não é um cachimbo»), ele oferece uma instigante reflexão sobre os códigos de representação vigentes na modernidade, a partir da análise de dois quadros do pintor belga René Magritte (1898-1967) que têm como tema principal o cachimbo.

Rompendo com Hegel, cuja filosofia insistia na coerência e no sentido da história, Foucault progrediu para Heidegger, ao também ver a situação do homem como determinada, em grande parte, por fatores fora do alcance da razão. A partir deste último, aderiu, por algum tempo, ao existencialismo de Sartre que, por sua vez, veio a ser muito influenciado pelo autor de Sein und Zeit («Ser e tempo», 1927). O existencialismo sartriano era basicamente subjetivo e acreditava muito pouco da precessão ontológica da essência. Porém, de todos, o que mais influenciou sua forma de pensar foi Nietzsche.

Após ler os escritos deste, Foucault − que lamentava, à época, sentir o seu pensamento ainda preso – buscou criar os seus próprios conceitos. Na ocasião, publicou Folie et déraison: histoire de la folie à lʼâge classique («História da loucura na idade clássica», 1961) no qual demonstrou como a nossa ideia de loucura passou por decisivas descontinuidades e contingências. Ao ser publicado em 1961, este livro o consolidou como um dos líderes intelectuais mais atuantes de Paris.

Em 1966, concluiu Les mots et les choses: une archéologie des sciences humaines3 («As palvras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas») obra que o levaria a uma posição de destaque em todo o mundo ocidental. Seu objetivo principal era investigar a maneira pela qual o próprio conceito de humanidade havia sido tratado até se tornar um objeto estratégico de nosso saber.

Foi em 1973 que Foucault publicou Ceci n’est pas une pipe no qual discorreu sobre a obra pictórica de Magritte quase sempre voltada − ao menos, aparentemente − para a representação de objetos da realidade cotidiana como guarda-chuvas, chapéus, balaústres, sapatos, nuvens, etc.

Por outro lado, o belga mudava, com alguma frequência, tais objetos de contexto, associando-os com outros com os quais, a princípio, não teriam qualquer ligação. Pode-se dizer que, muito em função desse hábito, suas telas possuíam uma parcela de estranheza, levando o espectador a se perguntar, a todo momento, sobre o seu real sentido. Só após um certo convívio com elas é que este percebia que o propósito de Magritte nunca fora, na verdade, representar a realidade e sim, prioritariamente, revelar seus muitos mistérios.

Em 1927, expôs sessenta e um pinturas na galeria Le Centaure, onde conheceu Louis Scutenaire de quem tornaria amigo. Mudou-se para Paris, onde conviveu com muitos surrealistas, entre eles, André Breton (1896-1966), Louis Aragon (1897-1982) e Philippe Soupault (1897-1990). Em 1936, expôs nos Estados Unidos onde teve início o sucesso de suas obras. De 1943 a 1947, adotou uma técnica de pintura diferente, semelhante ao impressionismo de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). Dois anos antes de sua morte (1967), o Museu de Arte Moderna de Nova York dedicou-lhe uma importante retrospectiva.

Um de seus quadros mais polêmicos foi, sem dúvida, La trahison des images («A traição das imagens», 1928-9) no qual a imagem de um cachimbo aparece acompanhada pela frase Ceci n’est pas une pipe. O problema da relação entre o objeto e sua representação será abordado e desenvolvido por ele em vários outros trabalhos. O discurso de Foucault sobre suas telas, ao analisar algumas características da língua e dos objetos geralmente ignoradas na vida cotidiana, privilegia as novas relações que se pode criar entre as palavras e as imagens. Desta forma, uma palavra pode tomar o lugar de um objeto na realidade, ou uma imagem pode tomar o lugar de uma palavra numa proposição. Há muitos exemplos dessas substituições na obra magrittiana.

As pinturas La trahison des images e Les deux mystères, analisadas prioritariamente por Foucault, são um exemplo de como o texto, ao mesmo tempo que pode substituir a imagem, pode mudar o significado dela. Em determinado momento de sua explanação, ele se detém na suposta tensão existente entre a imagem e sua legenda. Ao aprofundar-se na relação do texto e da imagem, ele arrisca expor a sua mecânica interna, classificando-a como um caligrama que pretenderia apagar ludicamente as mais velhas oposições de nossa civilização alfabética: mostrar e nomear; figurar e dizer; reproduzir e articular; imitar e significar; olhar e ler. Para Foucault, esta qualificação da imagem como um caligrama passaria por um reconhecimento necessário das relações internas existentes entre seus componentes concepto-imagéticos.

Mais à frente, lançando mão de esquemas, Foucault resumirá as relações possíveis entre a imagem e o texto em três níveis fundamentais de leitura (texto/imagem, imagem/texto, textoimagem/imagem/texto), entendendo por leitura a ordenação lógico visual dos elementos do quadro com vistas à formação de um sentido.

Aspectos das possibilidades de combinação exploradas por Magritte e analisadas por Foucault também podem ser vistos, nos dias de hoje, na propaganda e na publicidade. É possível ver alguns anúncios publicitários em que tanto a imagem busca substituir o texto quanto o texto a imagem, assim como outras em que a imagem busca complementar e mesmo dar sentido ao texto.

A logomarca da montadora de automóveis alemã Volkswagen é um bom exemplo de tentativa de fusão entre imagem e texto. Desde os seus primeiros tempos o logo4 com a letras V e W juntas dentro de uma «bolacha», foi o símbolo da DAF (Deutsche Arbeitsfront), um tipo de sindicato da antiga fábrica Volkswagen GmbH.

Já o logotipo «cruzado» da Volkswagen foi registrado em outubro de 1948 no Departamento Alemão de Patentes em Munique e, desde então, tem sido usado em diferentes variantes. Até hoje o seu criador é desconhecido. A atual versão do logo da Volkswagen é usada desde 2000. Sua aparência tridimensional está em linha com os mais altos padrões da marca, sem perder a familiaridade.

A cor azul foi fortemente moldada à identidade da marca. Hoje é considerada por muitas pessoas como «a cor Volkswagen». Ao lado do cinza metálico, o azul usado no logo5 é uma das cores primárias da marca. É reconhecida como amigável, essencial e inovadora − características com os quais a marca se identifica estreitamente.

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  1. Doutor e Pós-Doutor em Comunicação e Cultura (História dos Sistemas de Pensamento) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). Graduado e Mestre em Filosofia (Estética) pela UFRJ. Professor do Programa de Pós-graduação (Mestrado e Doutorado) em Design daESDI/UERJ.
  2. Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão.
  3. Nele Foucault chamou de episteme o conjunto de pressupostos, preconceitos e tendências que estruturariam e delimitariam o pensamento de qualquer época acerca de qualquer coisa. Trata-se de uma palavra grega da qual também se derivou epistemologia – a investigação dos fundamentos em que baseamos nosso conhecimento. Uma determinada episteme tende a originar uma determinada forma de conhecimento.Foucaultchamou tal tendência de «discurso», ou seja, a acumulação de conceitos, práticas, declarações e crenças produzidos por uma determinada episteme.
  4. Foi registrado em 1938.
  5. Em toda a sua publicidade atual, logo abaixo da logo, surge a escrita em alemão Das Auto («O automóvel»).

Referências

  • ARCHER, Michael.Artecontemporânea:umahistóriaconcisa. São Paulo: MartinsFontes, 2001.
  • CAMPOS, Jorge L. de «Eisdoiscachimbos: roteiroparaumaleitura foucaultiana de Magritte». In: Poiésis – Estudos deCiênciadaArte(EdUFF), v. 8, 2005.
  • FOUCAULT, Michel.Istonãoé umcachimbo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
  • LARICA, Neville J. Designde automóveis: arte em função da mobilidade. Rio de Janeiro: 2AB/PUC-Rio, 2003.
  • NORMAN, Donald A. The design of future things. Basic Books, 2009.
  • PAQUET, Marcel. Magritte ou l’eclipse de l’être, Paris:Éditonsde la Différence, 1982.
  • STRATHERN, Paul. Foucault em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
  • TAMBINI, Michael. O design do século. São Paulo: Ática, 1999.
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