Cidade da Cultura da Galícia: O Deslocamento da Catedral de Santiago

Projeto que teve como desafio reunir passado e presente, agregar toda uma heran√ßa cultural de contexto definido a uma realidade de temporalidades simult√Ęnea.

Retrato de Francisco Palmeira Francisco Palmeira Rio de Janeiro

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Em 1999, o governo da Galícia abriu o concurso para a elaboração de um projeto, a ser implantado no Monte Gaias, para estudo, pesquisa e interação social, com intuito de ser um nó de expressão cultural na comunidade européia. Peter Eisenman foi escolhido dentre outros doze arquitetos de renome internacional.

Seguindo o conte√ļdo program√°tico exigido, o arquiteto elaborou seis espa√ßos de usos distintos: o museu da hist√≥ria, servi√ßos centrais, teatro da m√ļsica, novas tecnologias, biblioteca e hemeroteca.

A Cidade da Cultura da Galícia está localizada num sítio histórico importante, ao final do caminho de Santiago de Compostela.

Cidade da Cultura da Galícia.1

Parte importante do processo de elabora√ß√£o projetual foi a compreens√£o de alguns elementos iconogr√°ficos2 locais importantes. Identificados, estes elementos foram trabalhados como √≠ndices sobrepostos numa realidade virtual. Este √≠ndices seriam: a malha urbana, com seu tra√ßado sinuoso; as cinco vias principais da cidade medieval que convergem para a Pra√ßa do Obradoiro da Catedral; a concha marinha ‚Äď ¬ęda qual os peregrinos se serviam de √°gua doce em suas jornadas¬Ľ;3 a pedra de granito largamente usada na catedral, nas ruas e nas constru√ß√Ķes da regi√£o; e a tect√īnica dos edif√≠cios que se imp√Ķem ao observador entre suas vias estreitas.

Todos, √≠ndices que ‚Äď de forma codificada - se repetem na Cidade da Cultura da Gal√≠cia. Outro √≠ndice importante utilizado, que tem um contexto autoral e n√£o local, foi o uso do projeto de duas torres desenhadas pelo arquiteto nova-iorquino John Hejduk [1926-2000]. O contexto autoral √© definido pela rela√ß√£o de Eisenman com Hejduk enquanto arquitetos dos Five Architecs na d√©cada de 1960.

A arquitetura pode funcionar como um √≠cone, um √≠ndice ou mesmo um s√≠mbolo; sendo estas tr√™s categorias determinadas pela semi√≥tica de Charles Sanders Pierce: um √≠cone, quando da auto-referencialidade da imagem de uma coluna; um √≠ndice, quando, a mesma coluna, indica sua fun√ß√£o estrutural; e um s√≠mbolo, quando dos c√≥digos de conven√ß√Ķes estabelecidos √†s ordens cl√°ssicas das colunas.

O que Eisenman busca neste projeto √© o deslocamento destes c√≥digos atrav√©s dos √≠ndices que disp√Ķe; isto √©, criar um c√≥digo arquitet√īnico singular e √ļnico, atrav√©s do entrecruzamento e intercep√ß√£o destes √≠ndices. Assim, a cidade, cujo territ√≥rio geogr√°fico historicamente a definia, passa a ser redefinida na inflex√£o das suas camadas virtuais. Isto √© o mesmo que dizer que o lugar geopol√≠tico do projeto sofre processos constantes de reconfigura√ß√£o espacial; enquanto espa√ßo formal e pol√≠tico.

O termo CODEX4 ‚Äď mistura dos termos code (c√≥digo) e index (√≠ndice) ‚Äď criado pelo arquiteto, pretende ser a codifica√ß√£o dos √≠ndices de alguns zeitgeists espec√≠ficos. √Č a reescrita dos √≠ndices eleitos; a reescrita das marcas indicativas de organiza√ß√£o destes espa√ßos.

Para o projeto, o contorno da forma da concha serviu como linha lim√≠trofe imagin√°ria para implanta√ß√£o do complexo. Foi criado dentro destes limites todo um relevo artificial, uma montanha constru√≠da de car√°ter tanto tect√īnico como o que Kenneth Frampton chamou de stereotomic5 ‚Äď uma tens√£o que afeta a percep√ß√£o de equil√≠brio da estrutura; volumes que se erguem suavemente a partir de uma terraplanagem como registro do deslocamento da tr√≠ade vitruviana [firmitas, utilitas e venustas] que se d√° na diferencia√ß√£o entre materiais aplicados, forma e m√©todos construtivos.

Museu da História6

O tra√ßado das cinco ruas principais de Santiago √© superposto a esta nova topografia vazando o volume de maneira a acomodar sua forma ao terreno. O resultado foi um circuito no qual se √© poss√≠vel experimentar os dois impactos volum√©tricos: o tect√īnico e o stereotomic.

Sobre a cobertura foi projetada uma malha tartan ‚Äď ¬ęuma malha adaptada do mapa do globo terrestre do s√©culo XVII, que se converte em um meio de acesso ao artefato arqueol√≥gico, a implementa√ß√£o da antimem√≥ria¬Ľ.7 Em certo sentido, esta malha une Santiago de Compostela ao resto do mundo.

O índice das cinco vias principais entrecruzadas com a malha tartan reescrevem o traçado da cidade antiga de Santiago partindo de um palimpsesto; isto é, de vestígios da realidade anterior.

A convergência das vias não dão mais para a Praça do Obradoiro nem para a Catedral, e sim para uma outro espaço, onde há o podemos chamar de uma ausência/presença da Catedral. O índice ali está codificado, marcando o deslocamento metafísico da Catedral de Santiago.

Torres | Hedjuk . Catedral8

As torres da Catedral são indicadas pelas torres da Cidade da Cultura da Galícia, mas não como réplicas. Elas são reposicionadas do eixo de referência da praça pela implantação lateral de Eisenman.

N√£o foi a primeira vez que o arquiteto teve como partido uma problematiza√ß√£o hist√≥rica. O projeto do Social House para o IBA9 de Berlim, assim como outros projetos do arquiteto da d√©cada de 1980, lidam tamb√©m com presen√ßas metafisicas da arquitetura, com presen√ßas e aus√™ncias: ¬ęa presen√ßa seria o momento din√Ęmico vital da hist√≥ria, sendo retroalimentada atrav√©s do movimento interno do seu pr√≥prio tempo¬Ľ.10 A aus√™ncia consiste de momentos nos quais o ¬ęorganismo propulsor est√° morto, os vazios entre um per√≠odo da hist√≥ria e o pr√≥ximo. Estes s√£o preenchidos pela mem√≥ria. Onde termina a hist√≥ria, come√ßa a mem√≥ria¬Ľ.11

Mas há diferenças marcantes entre o processo da década de 1980 e o realizado agora.

Hoje √© poss√≠vel gerarmos uma malha topogr√°fica tridimensional, ou seja, podemos projetar e calcular digitalmente um relevo cuja forma √© complexa. Podermos lidar com um sistema construtivo que demanda desafios t√©cnicos. Isto se reflete em formas inusitadas ‚Äď formas n√£o-lineares derivadas das vari√°veis de uma matem√°tica complexa. Uma diferencia√ß√£o gerada matematicamente.

Na elabora√ß√£o do projeto, estes c√°lculos criaram um diagrama tridimensional de for√ßas. Atrav√©s da computa√ß√£o gr√°fica foi poss√≠vel gerar rota√ß√Ķes m√ļltiplas dos pontos verticalizados tridimensionalmente, n√£o como mera topologia ou coordenada planim√©trica e sim como um baralhamento dos dois em uma matriz flu√≠da. A for√ßa √© dada pela rota√ß√£o [distor√ß√£o] realizada em cada camada superposta, essas deforma√ß√Ķes ficam registradas em tr√™s dimens√Ķes.

O recurso gr√°fico digital e a consci√™ncia de uma tradi√ß√£o foram determinantes na elabora√ß√£o projeto. Como resultado, n√£o encontramos uma reprodu√ß√£o mim√©tica dos √≠cones. A forma dos tra√ßados, da concha e dos volumes, como aparecem no espa√ßo constru√≠do, n√£o permite ao observador fazer uma leitura transparente do √≠ndice utilizado. √Č dif√≠cil na leitura da forma atual se perceber uma representa√ß√£o que remeta diretamente √† forma anterior.

Para Eisenman, esta seria a passagem de uma leitura formal para uma semi√≥tica, isto √©, de uma leitura geom√©trica ‚Äď plat√īnica, cartesiana ou euclidiana; entendida como tradu√ß√£o mim√©tica da natureza ‚Äď para uma capaz de atingir um grau de maior complexidade formal, tal como identificado em eventos naturais que apresentam sistemas mais complexos como ¬ęterremotos, deslizamentos de terra e tsunamis, que s√£o derivados de uma geometria de fractais que n√£o trabalha com n√ļmeros inteiros¬Ľ.12

No entanto, fica uma pergunta: √© poss√≠vel uma leitura semi√≥tica a partir da forma resultante? N√£o h√° d√ļvidas de que isso seja poss√≠vel neste processo projetivo, na medida em que os √≠ndices adotados s√£o claros. Entretanto, na leitura da forma resultante este aspecto n√£o √© evidente, ele se d√° atrav√©s da leitura dos vest√≠gios de tais √≠ndices - desdobrados agora para al√©m da forma estabelecida. H√° na forma final uma semi√≥tica sim, mas obscura, que n√£o pode ser classificada em uma categoria existente. Assim, a din√Ęmica formal acontece como um deslocamento sem√Ęntico que extrapola o √≠ndice arquitet√īnico.

Editor: Mariane Garcia Unanue Juiz de Fora

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  1. Vista noturna da Cidade da Cultura da Galícia. Fonte Calle 20.
  2. O √≠cone √© entendido por Eisenman como elemento da semi√≥tica de Charles Sanders Pierce. Diferentemente da semiologia europeia de Jacobson e Saussure, que tem uma rela√ß√£o dupla entre forma e conte√ļdo, a semi√≥tica americana de Pierce √© uma rela√ß√£o mais complexa entre tr√™s categorias: √≠cone, √≠ndice e s√≠mbolo. O √≠cone, tem uma rela√ß√£o de semelhan√ßa visual com o referente; o √≠ndice, pode ou n√£o ter uma rela√ß√£o de semelhan√ßa visual, no entanto, s√£o tra√ßos, pistas de um fato, de um acontecimento anterior; o s√≠mbolo, √© uma rela√ß√£o convencionada, e por isto, guarda uma depend√™ncia estreita entre signo e significado.
  3. FORSTER, Kurt W. La forza del destino: The new from the shell of the old. Em: Codex The City of Culture of Galicia. 2005. p.23.
  4. EISENMAN, Peter. Coded Rewritings: The Processes of Santiago. Em: Codex The City of Culture of Galicia. 2005. p.27.
  5. FRAMPTON, Kenneth. Studies in Tectonic Culture. Cambridge, Mass: The MIT Press. 1995.
  6. Vista do¬†Museu¬†of¬†Galician¬†History¬†‚Äď aspectos¬†tect√īnico¬†e¬†stereotomic. Fonte¬†Flickr.
  7. LUCENA, Francisco Palmeira. Peter Eisenman: Autonomia Crítica da Arquitetura. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura da Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2010. p.118.
  8. Vista das torres de John Hejduk e da Catedral de Santiago. Fonte Urbika.
  9. Internationale Bauausstellung Berlin 1984 [Exposição Internacional da Construção de Berlim 1984]
  10. LUCENA, Francisco Palmeira. Peter Eisenman: Autonomia Crítica da Arquitetura. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura da Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2010. p.115.
  11. EISENMAN, Peter. The City of Artificial Excavation. Em: Bédard, Jean-François [Org.]. Cities of Artificial Excavation. The Work of Peter Eisenman, 1978-1988. Montreal: Canadian Center for Architecture e Rizzoli International Publication, 1994., p73 [tradução nossa]
  12. EISENMAN, Peter. Coded Rewritings: The Processes of Santiago. Em: Codex The City of Culture of Galicia. 2005. p.31.
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