Um «Houdini gráfico»

O papel combinado das restrições programáticas e a criatividade na conquista da eficácia da mensagem.

Norberto Chaves Barcelona
Followers:
2902
Comments:
0
Votes:
7
Compartir:
P. A criação do design admite restrições?
R. O design depende, em grande parte, de restrições.
P. Quais restrições?
R. A soma de todas as restrições. Eis aqui uma das poucas chaves efetivas dos problemas de design: a capacidade do designer em reconhecer a maior quantidade de restrições que possa, sua vontade e entusiasmo para trabalhar dentro dessas limitações — as restrições de preço, de tamanho, de resistência, de equilíbrio, de superfície, de tempo, etc. —; cada problema tem sua própria e peculiar lista.

Estas são duas das respostas de Charles Eames em uma entrevista que lhe fizeram em 1972, publicada sob o título «O que é o design? Com elas, Eames realiza uma definição simples sobre «heteronomia» do design, ou seja, sua carência de autonomia em relação à necessidade que deve satisfazer. Isso implica que a qualidade do resultado final dependa da «quantidade de restrições» levadas em consideração. O conjunto desses condicionamentos é o que entendemos por «programa de design»: a lista de requisitos que devem cumprir a peça projetada.

Este caráter condicionado do design não é antagônico com a criatividade, muito pelo contrário: no design, a criatividade é a capacidade de sair triunfante diante dos desafios e superar as limitações. A demanda de criatividade não provém da liberdade, mas das restrições. A criatividade não é um mero «valor agregado» ao produto nem, tampouco, uma via de auto expressão do «criativo», mas uma demanda do problema a ser solucionado: o recurso para a solução.

Vejamos o que diz outro mestre, Gerard Unger:

«Sou mais criativo quando tenho limitações. Quando me inibem e me restringem, então sou realmente criativo […] Sou como uma espécie de «Houdini gráfico»: estar em uma situação desesperadora e sair triunfante em seguida».

Quais são essas limitações no caso do design gráfico? Qual é o seu «programa»? A resposta é dada por Eames: «cada problema tem sua lista peculiar». E o «problema» no design gráfico é obter uma ótima comunicação entre o remetente e o destinatário da mensagem. Sintaxe gráfica, níveis de leitura, estilo (tipográfico, cromático, icônico, compositivo) devem responder fielmente às exigências do fato (feito) comunicacional que se planeja criar.

A mensagem não é um objeto autônomo, mas o ponto de entrecruzamento de um sem-fim de condicionantes contextuais: identidade dos interlocutores, registro ou retórica de seu diálogo, entorno e condições da leitura, temática da mensagem, seu «tom» próprio, etc., etc. A mensagem é o gatilho de um acontecimento que o excede: aparece no contexto de uns antecedentes e gera umas consequências.

A «mensagem perfeita» é filha dessas condicionantes e criadora «invisível» de uma nova circunstância que constitui seu objetivo. A mensagem, a peça significante, deve conseguir criar uma nova consciência e, para isso, ser esquecida.

Nenhuma peça gráfica possui um «deve ser» intrínseco, porque o próprio conceito de mensagem é relacional e contextual: está pautada de fora. Assim, nenhuma decisão de design deve ser tomada a priori mas responder a um requisito de eficácia: «o design depende em grande parte de restrições [...] e cada problema tem sua própria e peculiar lista».

Deveria ser obvio..., mas não é tanto.

Editor: Luiz Claudio Gonçalves Gomes Campos Dos Goytacazes

0 Comments

See comments

Published on 19/10/2016

IMPORTANT: This article does not express the opinion of the editors and managers of FOROALFA, who assume no responsibility for its authorship and nature. To republish, except as specifically indicated, please request permission to author. Given the gratuity of this site and the hyper textual condition of the Web, we will be grateful if you avoid reproducing this article on other websites. Instead, we suggest and value a partial reproduction, also including the name of the author, the title and the source (FOROALFA), a link to this page (https://foroalfa.org/articulos/um-houdini-grafico) in a clear and visible place, inviting to complete the reading.

Norberto Chaves

More articles by Norberto Chaves in Portuguese

Idioma:
PT
Title:

A qualidade existe e é inegociável

Synopsis:

Para incentivar o entusiasmo do desenvolvimento de sua própria cultura gráfica e aspiração à qualidade.

Share:
Idioma:
PT
Title:

Formação cultural do designer

Synopsis:

Reflexão motivada por uma consulta realizada por Fabián García, Coordenador do curso de Design Gráfico da Fundación Área Andina, Bogotá.

Share:
Idioma:
PT
Title:

Toda marca deve ser...

Synopsis:

Doze normas supostamente «universais» do design de marcas gráficas.

Share:
Idioma:
PT
Title:

O estereotipo

Synopsis:

Virtudes e misérias dos lugares comuns na comunicação social.

Share:

You may be interested

Joan Costa
Idioma:
ES
Author:

Joan Costa

Title:

60 años de comunicación

Share:
Interactions:
Votes:
23
Followers:
2076
Juan Carlos Hernández
Idioma:
ES
Author:

Juan Carlos Hernández

Title:

Método H.

Share:
Interactions:
Votes:
57
Comments:
15
Followers:
113
Rodolfo Fuentes
Idioma:
ES
Author:

Rodolfo Fuentes

Title:

El ícono ideal

Share:
Interactions:
Votes:
30
Comments:
14
Followers:
32
Fernando Rodríguez Álvarez
Idioma:
ES
Author:

Fernando Rodríguez Álvarez

Title:

Book: La gráfica política en México

Share:
Interactions:
Votes:
19
Comments:
9
Followers:
206
Alfredo Mambié
Idioma:
ES
Author:

Alfredo Mambié

Title:

El futuro del libro digital y sus aplicaciones actuales

Share:
Interactions:
Votes:
11
Comments:
7
Miguel Lalama
Idioma:
ES
Author:

Miguel Lalama

Title:

10 claves para influir en la decisión de compra

Share:
Interactions:
Votes:
47
Comments:
24
Followers:
31
My opinion:

Login with your account to comment on this article. If you do not have it, create your free account now.