Rodolfo Álvarez

O fim de I Love New York?

O governador de Nova York propõe modificar a imagem da cidade criada por Milton Glaser.

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¿El fin de I Love New York?

Muito indignado recebo a notícia de que Nova York renovará seu emblemático logo, aquele que diz «Eu amo Nova York», aquele que muito bem soube desenhar Milton Glaser. Por que a indignação? Porque a notícia indica que «turistas e residentes na Grande Maçã poderão apresentar suas propostas para re-inventar o símbolo da cidade».

Além do que representa para os designers a obra e a figura de seu autor, esta imagem de marca tem uma transcendência muito maior. Representa, visual e emocionalmente,a grande capital, a grande maça. Para o governador Andrew Cuomo, «este é o logo das camisetas, dos bonés e dos souvenirs». Está velho, tem que ser trocado! Suponho que pela mesma razão talvez deveria ser derrubada a estátua da liberdade, a torre Chryslere o Empire State.

O mais grave é que Cuomo propõe que sejam os turistas e residentes os principais candidatos para propor a mudança. Talvez as redes sociais e os amantes do crowdsourcing pulem de alegria e endossem a proposta. Acredito que AIGA escreverá — se ainda não o fez — uma nota muito seria dirigida ao senhor Governador antes que cometa tamanha barbaridade e tapa em nossa cambaleante profissão. Como se fosse o design de marca a verdadeira «casa da mãe Joana», pretendem permitir a «intrusão» de qualquer turista ou residente barbeiro (com todo respeito aos operários das navalhas) para «renovar» um ícone da modernidade que ainda mantém sua vigência e razão de ser.

O valor cultural e a marca de Milton Glaser3

«Quando um signo marcário se instala na mente das audiências é um feito irrenunciável», vai além do fato promocional que motivou sua criação. O tempo (muito valioso no marketing e no branding) permitiu a difusão deste signo em todos os âmbitos da vida cidadã e cultural, e o transformou em um símbolo de escala mundial. Tornou-se tão famoso que sua imagem visual não precisa de tradução para outros idiomas: pela arquitetura de suas formas, pela implicância da palavra, por sua síntese icônica, é muito mais que um «logo».

«Nunca foram tão atrevidos», pensará um conservador. Imaginem: seria possível modificar o logotipo da Apple, o da VW ou o da Coca cola? Seria lucrativo modificá-los? Muitos designers responderão que sim, mas é na passagem da marca para o símbolo, em sua transformação e sedimentação, onde se faz a diferença. Podemos pontuar que:

  • A mudança pode resultar em um mal investimento que talvez traga pontos negativos em Wall Street.
  • Levará mais três décadas para instalar a nova marca. É curioso que no país onde mais se difundem estas ideias se cometa tal erro.
  • Seria interessante participar globalmente pelas redes sociais em uma ação de desagravo a Milton Glaser se o governador persistir em sua ideia.
  • Seria positivo mobilizar as associações e entidades profissionais globais que se pronunciassem contra a mudança e do procedimento seletivo que estão considerando.

Existe um valor de identidade cultural tangível nesta marca universal que se estabelece. Podemos considerar que o patrimônio visual da cidade reside em um dos identificadores mais difundidos. Tratar de modificá-lo ou substitui-lo seria um erro. Sem sentimentalismos, levará muitos anos para apagar esta marca da cabeça das pessoas. Tudo isso não é mal somente para a cidade de Nova York, mas também para a profissão de projetar, que uma vez mais se vê vulgarizada mediante um concurso aberto sem precedentes.

Author
Rodolfo Álvarez Málaga
Translation
Luiz Claudio Gonçalves Gomes Campos Dos Goytacazes
  1. Ver noticia em ABC da Espanha.
  2. AIGA, a associação profissional para el design, que se compromete com o avanço do design como um oficio profissional, ferramenta estratégica e força cultural vital nos EUA.
  3. Milton Glaser (b.1929) é uno dos designers gráficos mais famosos dos Estados Unidos. Realizou mostras individuais de sua obra gráfica no Museu de Arte Moderna de NY e no Centro Georges Pompidou. Em 2004 foi selecionado para o premio do Cooper Hewitt National Design Museum. Como bolsista Fulbright, Glaser estudou com o pintor Giorgio Morandi de Bolonha, e é um porta-voz eloquente da prática ética do design. Milton Glaser, Inc. é sua empresa fundada em 1974, continua produzindo um impressionante volume de trabalho em muitas áreas do design.
  4. Ronald Shakespear, dixit. Devemos salientar que a sobrevivência do sinal "TAXI" característica de Buenos Aires — desenhado por González Ruíz e Ronald Shakespear para o denominado Plano Visual de Buenos Aires desenvolvido entre 1971 e 1972 —, também está sendo ameaçada por um substituto carente de argumentos.

Published on 08/11/2013

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Autor:
Rodolfo Álvarez

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