Cliente versus Designer

Práticas que devem repensadas e avaliadas no design gráfico.

David Espinosa Bogotá
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Sejamos francos: o sonho de todo designer gráfico é (ou foi algum dia) produzir peças tão eficientes que não deem margem a más interpretações, ressalvas ou correções. Uma arte impecável e de grande valor, que somente seria possível alcançar — trabalhando em conjunto com nossos clientes — através de um árduo projeto de briefing.

Não obstante, em qualquer área de nossa atividade podemos enfrentar tropeços e críticas. Algo que, longe de nos desanimar, nos motiva a realizar um trabalho superior ao que apresentamos anteriormente. Mas o que acontece se nosso cliente insiste em continuar fazendo as coisas do seu jeito, segundo o que já tenha desenvolvido em sua empresa? Este é, sem dúvida alguma, um dos piores pesadelos do designer.

Parafraseando Jack o estripador, «vamos por partes». Supõe-se que o cliente nos chama por uma necessidade concreta: uma assessoria, consultoria ou peça (in)determinada. De acordo com isto, é nosso dever conhecer a fundo o cliente, seu campo de ação, nicho de mercado e ações prévias que tenha realizado. Isso nos permitirá oferecer uma solução em sintonia com suas necessidades e expectativas; deixando claro que nosso «amado» cliente terá direito a 3 esboços e a 3 correções posteriores sem sobretaxa.

Mas nosso cliente normalmente não é objetivo. Via de regra, pretende ter uma concepção de design melhor que a nossa. É notório quando nos oferece com grande eloquência exemplos — como Coca-Cola —, garantindo: «É uma empresa que não mudou nada em 128 anos, e a gente lembra dela por esta razão: porque não muda».

Já tentou convencê-lo do contrário? Por mais que lhe explique o programa de mercado e comunicações externas, não conseguirá entender a diferença entre um identificador primário ou «o loguinho», e uma somatória de campanhas publicitárias e estratégias de marketing que fazem da Coca-Cola a marca mais valorizada do planeta (compreendendo que mais de 70% do valor de marca é o identificador primário).

Depois disso, respiramos profundo, nos aplicamos mentalmente uma dose de morfina e retornamos ao trabalho. Agora pensamos que o cliente pertence à Sociedade de Empresas da Velha Economia, Restrita e Obsoleta (SEVERO). Nosso sonho de criar uma nova imagem externa da marca — conforme as novas necessidades do mundo atual que tanto conhece — se foi em menos tempo que levou a ligação para tratar de preço.

Depois dessa reunião, apresentamos novas propostas: elementos orgânicos e cores ligeiramente extraídas do identificador primário (seria bom se o cliente tivesse um manual de Identidade Visual, ou pelo menos se compreendesse o conceito), com certa dose de inspiração nos trabalhos prévios da marca, mas desta vez sem Comic Sans, Algerian ou outros tipos marginalizados. Nosso querido cliente se mostra um pouco mais satisfeito (ou menos chato) e lança a seguinte provocação:

«Se eu não conhecesse esta empresa como saberia o que faz, o que vende, para que serve? Começo a me arrepender de confiar a você este trabalho complexo. O sobrinho-filho-irmão de meu amigo-informante-conhecido teria feito por alguns reais. Quero algo interessante, que chame a atenção. Quero que coloque aqui na frente desta caixinha. Com todas as explicações necessárias aqui atrás. Mas que não tenha muitas cores porque isso custa caro e não é você quem vai pagar. Além do mais, você deveria explorar outras coisas. Sabe quem é a concorrência? Olhe as embalagens deles verá como são bons».

Agora nos sentimos ultrajados, feridos mortalmente em nosso ego. Chegamos à conclusão que não serviu de nada estudar durante anos na faculdade, que nossas noites «viradas», impressões de madrugada e dias de mal alimentados foram em vão. Com certo tremor na voz solicitamos mais informações do produto. Por alguma razão estranha perguntamos pela direção do website do cliente, para descobrir que é uma mistura de estilos, códigos e cores que ofendem a vista «porque o chefe precisava que a página chamasse a atenção». Para ser mais exato, o identificador está comprimido a partir do Microsoft Paint.

Agora, com novas armas, terminamos uma nova proposta. Desta vez amparados na cláusula de nosso contrato; «Depois da terceira entrega de propostas, cada entrega adicional terá uma sobretaxa de xis % sobre o total orçado». Nosso sentimento era de frustração, esta nova versão se parece mais com uma seção de classificados do que com uma elegante embalagem apropriada. O cliente não disse nada. Limitou-se a pegar o protótipo, o examinou meticulosamente, verifica sua abertura e logo o coloca sobre a mesa. Olha-nos com certo desdém e, depois de alguns segundos que pareciam séculos, nos diz: «não penso gastar mais, por isso fico com isto. Por favor, passe amanhã para pegar seu dinheiro», para sussurrar pouco depois: «eu deveria ter escutado a seu Alcides, da loja: estes designers não servem para nada. Eu poderia ter desenhado igual, ou melhor».

Não é necessário dizer que tivemos que gastar esse pagamento em Diazepam.

Editor: Luiz Claudio Gonçalves Gomes Campos Dos Goytacazes
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  1. Os fatos aqui descritos não correspondem necessariamente a fatos verídicos. Qualquer semelhança com a realidade seria mera coincidência. Tudo depende de em que parte do escritório você se encontre: frente ao designer ou frente ao cliente.
  2. O Diazepam é uma medicação com propriedades ansiolíticas, relaxantes, anticonvulsivas e sedativas.

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10/2013
Claudio Candido

Legal seu artigo David..

Ficção ou não, o fato é que já experimentei situações semelhantes inúmeras vezes e ainda as vivo. Menos a parte do Diazepam...

O que faço então?

Ignoro... e sempre tento deixar como última palavra a de que os resultados dirão se foi tempo e dinheiro perdido, ou não. E por "algum motivo" esses mesmos clientes sempre voltam a solicitar propostas... rs

1
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