Braços, cabeças e pernas

Em muitas ocasiões, trabalhar de maneira interdisciplinar é a melhor opção para o profissional de design.

Ricardo Acosta García Córdoba
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Tinha acordado meio tonto e com uma sensação estranha. Senti algo a mais em meu corpo, e para meu espanto vi que havia brotado em mim um segundo par de braços! Pulei da cama espantado, mas alegre. Minha primeira reação foi pensar: «agora poderei produzir duas vezes mais!».

Na empolgação do momento, do nada, vi crescer mais um par de braços. «Uau, e agora três vezes mais!». Estava feliz porque, como designer, era tudo o que havia desejado: poder trabalhar em muitos computadores e tomar mate com bolachas ao mesmo tempo. Era muito bom!

Levantei com certo esforço, pois agora pesava quase 20 quilos a mais. Não conseguia caminhar sem cambalear. Era alarmante a minha falta de equilíbrio! Apesar disso, estava com boas expectativas quanto as minhas novas «ferramentas» de trabalho.

Enquanto caminhava alegremente com meus seis flamejantes braços, senti meus joelhos tremerem. Dois novos pares de braços brotaram de repente. Estavam apertados entre si, com pouco lugar para se moverem e com uma coordenação nula. Continuei a me confortar com a ideia: «se posso operar mais computadores, posso operar muitos programas. Realizarei mais peças e ganharei mais dinheiro». Lembrei-me das muitas vezes que desejei que o dia tivesse vinte e oito horas, quando o que deveria ter desejado era um corpo com mais braços. Como eu estava enganado!

A simples hipótese: «se eu operar mais programas, minhas possibilidades de criação aumentarão e, por conseguinte, serei um melhor designer», foi o que tirou da minha cabeça a quantidade de dinheiro que gastaria com desodorante. Entusiasmadíssimo, continuei: «…assim terei mais serviços para oferecer ao mercado, porque fisicamente poderei fazer mais. Nunca recusarei nenhum trabalho por incapacidade de realiza-lo com minhas mãos. Agora tenho dez!».

Comprei mais cinco computadores e passei a estudar os diversos programas de design gráfico, multimídia, web sites, modelação e animação em 3D, animação e edição de vídeo, arquitetura e complexas linguagens de programação.

No momento em que colocava em execução meu plano, meus dez braços começaram a se mover caoticamente. Errantes, eles buscavam em vão que o meu cérebro lhes ordenasse o que fazer. Por mais que tentasse, somente podia me encarregar de um par de cada vez. Logo pensei: «estou desperdiçando braços! Preciso de uma cabeça para cada par de braços, assim eu aproveitarei a todos os braços!».

No dia seguinte, quando acordei, para meu espanto sobre os meus ombros se abria um leque de cabeças. Cinco! Da maneira como eu havia desejado. Naturalmente, o peso extra dificultou muito que eu levantasse. Os neurônios extras eram demais para o meu corpo já fatigado.

Desesperado, retomei as minhas expressões de desejos, como quem quer escapar de areias movediças e somente consegue se afundar mais. Finalmente consegui ficar em pé sobre as minhas dez pernas que, de repente, brotaram do meu corpo. Não pude deixar de imaginar o que meus futuros clientes pensariam da minha nova aparência, e intui que não se sentiriam muito confortáveis. Outro inconveniente: não conseguia sair da minha casa pela porta, nem entrar no meu carro, muito menos pegar um ônibus.

Desejei um corpo para cada conjunto de extremidades e assim voltar a ter apenas uma cabeça, dois braços e duas pernas. Quando olhei para trás, meu olhar se fixou em quatro sujeitos idênticos a mim. Coçamos todos a cabeça ao mesmo tempo, e notei em suas caras o alívio que eu sentia por não ser mais uma colagem de membros. Preocupava-me se minha casa era grande o suficiente para nós. Dormiríamos e comeríamos ao mesmo tempo já que, ao final das contas, éramos exatamente iguais.

Na hora do trabalho, outro inconveniente. Com tanto nível de paridade, nenhum dos cinco queria se encarregar de trabalhar em áreas de design com as quais não tínhamos afinidade e experiência. Mesmo sendo cinco, não apareciam visões diferentes, não nos completávamos, não nos criticávamos construtivamente, nem encontrávamos satisfação nem enriquecimento no trabalho de equipe. Éramos instâncias de uma mesma entidade: eu estava rodeado de quatro espelhos. Antes de passar para o desejo seguinte, sentamos e pensamos: «O que faltava?».

Foi nesse momento que tive uma revelação. Faltava que fossemos pessoas diferentes! Em lugar de tentar inutilmente abraçar o mundo, exigindo de mim o impossível, e colocando as ferramentas do design acima do próprio design, por que simplesmente não trabalhava com outros profissionais que se movimentam em outras áreas, com outros conhecimentos, que pensem diferente de mim? Por que não montar uma rede de trabalho que permita solucionar os problemas dos clientes, muito além de pensar somente em confeccionar certas peças (aquelas que posso fisicamente realizar?). Por que não pensar além de um folheto, uma animação ou do que ocorre dentro de uma tela? Por que não…?

Sentado na minha cama, coberto de suor, eu me perguntava: «Mas por que não?». Depois de comprovar que já não éramos cinco, que continuava sendo uma calorosa terça-feira, e ainda faltavam duas horas para sair para o trabalho, eu escrevi estas linhas.

Traducido por Abc Design Curitiba
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