Joan Costa

A inutilidade da Arte

Ainda que se possam confundir facilmente, a obra de arte e o produto para o mercado da arte tem sentidos e objetivos muito diferentes.

Read in spanish
La inutilidad del Arte

Uma notícia publicada na imprensa (La Vanguardia, 12 abril de 2017, Barcelona) incentivou-me a escrever estas notas. Não pensava responder a quem, no FOROALFA, tem uma opinião contrária à minha. A liberdade de opinião é um direito democrático que respeito. No entanto, a notícia de hoje acabou por provocar a minha reação. É por isso que estou a escrever. O curioso é que a informação que vou comentar apareceu na secção «Cultura», quando deveria estar na de «Sociedade» —já que se trata da alta sociedade parisiense— ou na de «Economia», que é do que se trata, ao fim e ao cabo, com a desculpa de que é Arte.

A manchete:

«Jeff Koons e Louis Vuitton criam bolsas com ícones de arte do Louvre. O museu arrecada fundo cedendo salas para um ato publicitário da marca».

O destaque:

«Koons inspira-se em Tiziano, Van Gogh e Leonardo para as suas bolsas JK, que se vendem a 2.000 euros».

Na realidade, não há «criação» nas bolsas como objeto, nem há «ícones», mas sim simples fragmentos de obras famosas reproduzidas nesses objetos. Para além disso, Koons não «se inspira» nos grandes artistas, limitando-se a utilizar as suas obras. Manipula-as, ainda por cima, sobrepondo textos aos «ícones da arte»).

Transcrevo parcialmente a noticia:

«A 6 de abril de 2005 o Louvre disponibilizou a sala da Gioconda tendo, à noite, a Mona Lisa aproveitado a sua independência para receber e jantar com duzentos VIP’s: os talheres tilintavam pela primeira vez na sala 6 do primeiro piso da ala Denon do Louvre, a mesma onde se reuniam os deputados no reinado de Napoleão III. Desta vez, presidiu Bernard Arnault I (por ordem hierárquica é, com 41.500 millhões de euros de património, a maior fortuna francesa), que é quem, condizendo com o seu cargo, encabeça a dinastia. A sua filha, Delphine Arnault, diretora da Louis Vuitton —L y V de LVMH, a primeira multinacional do luxo—, anunciava ao mundo a sua nova linha de bolsas.

Mas porquê no Louvre e porquê neste espaço específico? É fácil de justificar: os museus de todo o mundo procuram financiamentos. O próspero sector do luxo oferece-os, a troco de prestígio. Ao recebeu a encomenda das bolsas, JK decidiu recorrer a colegas como Tiziano, Van Gogh ou à enigmática senhora italiana de Da Vinci, que aparentavam ser os adequados para ilustrar as bolsas. A partir de 28 Abril estarão à venda apenas nos 450 postos de venda da marca a cerca de dois mil euros cada unidade.

Pobre Van Gogh que apenas conseguiu um quadro durante toda a sua vida... e a Theo Van Gogh, seu irmão. Para além disso, existe ainda o cinismo de JK considerar como “colegas” os grandes mestres da arte».


O sofisticado minifilme promocional de Louis Vuitton.

A «funcão social»(?) da Arte

A Arte é inútil. Com um quadro não se pode «fazer» nada mais do que o contemplar —ao contrário do que acontece com um produto industrial: uma bicicleta, uma batedeira, um cortador de relva ou uma panela de pressão—. No entanto, a Arte pode ser utilizada sem nenhum tipo de respeito para com o autor em proveito próprio de alguns iluminados, como Jeff Koons e Louis Vuitton. As senhoras mais ricas da alta sociedade adoram exibir e brilhar com as suas bolsas «cultas» e «artísticas» de apenas 2.000 euros, nas festas mundanas que frequentam. Para que os ignorantes compreendam, essas bolsas ostentam obras de arte com os nomes dos seus gloriosos autores escritos em letras gigantes. Olhem bem para esses objetos de luxo, que são o que mais se parece com anúncios grosseiros. São o anúncio do Poder e da Ostentação. Pura mercadoria. Onde é que está a Arte?

É óbvio que não estamos a falar de Arte, mas sim do «mercado da arte», onde pululam galeristas, leiloeiras e grandes fortunas. A economia e o marketing contaminaram-no completamente. Investir grandiosas quantias em Arte é um dos rostos do capitalismo especulativo: com o tempo a obra verá o seu valor crescer, assegurando lucros abismais.

Alguns princípios complementares

O designer industrial e o engenheiro projetam funções. No entanto a forma já não “segue a função”, como era pretensão do ascetismo funcionalista.

O designer gráfico programa comunicações, desenham mensagens e conteúdos. Neste caso, a “forma segue a informação”.

O artista não se ocupa das funções de informar ou comunicar. O artista não comunica nada. Expressa-se livremente. O espectador interpreta-o através da sua sensibilidade e da sua cultura. A arte existe para ser contemplada (prazer estético), para emocionar, interrogar, subverter a ordem, abanar as mentes conformadas, denunciar, refletir e, sobretudo, fazer sentir.

Author
Joan Costa Tiana
Translation
Alvaro Sousa V N Gaia

Published on 01/08/2017

IMPORTANT: This article does not express the opinion of the editors and managers of FOROALFA, who assume no responsibility for its authorship and nature. To republish, except as specifically indicated, please request permission to author. Given the gratuity of this site and the hyper textual condition of the Web, we will be grateful if you avoid reproducing this article on other websites. Instead, we suggest and value a partial reproduction, also including the name of the author, the title and the source (FOROALFA), a link to this page (https://foroalfa.org/articulos/a-inutilidade-da-arte) in a clear and visible place, inviting to complete the reading.

Autor:
Joan Costa

More articles byJoan Costa

Article:

Nascimento e evolução da marca em 7 passos

Article:

A eterna e inútil discussão

Followers:
2024

Related

Illustration:
Octavio Garay
Author:

Octavio Garay

Title:

Kandinsky y el arte de la retórica

Synopsis:

¿Wassily Kandinsky habrá tomado algunos de los caminos de la persuasión para realizar sus obras? ¿El arte de Kandinsky convence y persuade?

Votes:
31
Comments:
5
Idioma:
ES
Illustration:
Nora Karina Aguilar Rendón
Author:

Nora Karina Aguilar Rendón

Title:

Dibujo para la investigación

Synopsis:

La importancia del dibujo para el desarrollo de competencias para la investigación para estudiantes de todas las disciplinas.

Votes:
84
Comments:
31
Followers:
130
Idioma:
ES
Illustration:
Fernando García
Author:

Fernando García

Title:

Book: Félix Beltrán Diseño

Synopsis:

Una obra que refleja una pequeñísima pero importante parte de la teoría, el pensamiento profesional y la filosofía ante la vida de un procer del diseño internacional.

Votes:
45
Followers:
22
Idioma:
ES
FOROALFA ISSN 1851-5606 | Contactar | Publicidad | ©Luciano Cassisi 2005~2017